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Fernando Santos não devia estar no Qatar (mas isso são “outros quinhentos”)

10 nov, 21:17

Rui Santos analisa a lista de convocados para o Mundial e começa por um questão prévia: deveria ter sido outro selecionador a convocar os 26 jogadores para uma competição a disputar-se no ‘país errado’ e no ‘tempo errado’

FERNANDO SANTOS deu a conhecer os 26 de Portugal para o Mundial do Qatar.

Ponto prévio: devia ser outro selecionador, e não FERNANDO SANTOS, a ditar os 26.

Porquê, se tem contrato até 2024? - podem perguntar-me.

Porque há muito que se formou a convicção de que a Seleção tem mais jogadores do que treinador.

Já o dizia em 2016, independentemente do respeito que mantenho pelo trabalho deste selecionador — elogiado mais nas vertentes de pacificador e pedagogo, e menos elogiado nas vertentes técnico-desportivas — e continuo a dizê-lo agora, sobretudo a partir da consolidação do processo de exportação dos nossos melhores executantes paras as Ligas mais cotadas da Europa.

Isso é ignorar o que FERNANDO SANTOS fez pela Seleção e pelo prestígio do futebol português?

Não. Definitivamente, não. 

FERNANDO SANTOS entrou para a história do futebol nacional sobretudo através da conquista do Euro-2016, mesmo na sequência de uma campanha de ‘pouco futebol’ e ainda ganhou a primeira edição da Liga das Nações, em 2019.

Esse capital de troféus e a entrada de FERNANDO GOMES no último mandato como presidente da FPF (2020-24) valeram-lhe um contrato duradoiro e robusto.

Uma análise mais fria e mais racional teria evitado um contrato tão confortável e tão blindado.

A ligação (profissional e afectiva) entre Fernandos e o posicionamento que a FPF soube valorizar nacional e internacionalmente mitigaram as críticas quase em absoluto.

Há uma condescendência nunca vista perante a constatação de que, apesar dos resultados conseguidos, Portugal pode jogar um futebol de maior dimensão, sobretudo quando encontra as Seleções mais cotadas.

O futebol é este fenómeno extraordinário que glorifica ÉDER e que, num ápice, o faz desaparecer.

Até o mal explicado contencioso do selecionador nacional com o Fisco ficou  (para já) em banho-maria. 

Vão ser dois anos de enganos e desenganos.

Quando é a instituição de utilidade pública a recomendar a elaboração do contrato nos moldes em que se processou e a ser o suporte da habilitação do selecionador, pouco há mais a dizer, a não ser esperar pelo andamento do processo em sede fiscal e os seus desenvolvimentos nos tribunais.

Como diz o povo, isso “são outros quinhentos”.

A FPF criou em torno de si própria uma espécie de carapaça à prova de bala que a faz estar confortável perante todo o tipo de poderes públicos e privados. 

Adiante, até porque as Federações querem ver a bola a saltar e… os ‘direitos humanos’ seguem dentro de momentos.

Já perceberam que está tudo errado?

O Mundial no Qatar, o Mundial em Novembro/Dezembro, a condicionar tudo e todos, o seleccionador em Portugal, o RAFA no bloqueio.

Vivemos o tempo em que o escândalo já não escandaliza ninguém. 

E, por isso, olhemos — com uma lágrima no olho — para a lista de FERNANDO SANTOS.

E o que nos diz ela? 

Que não vamos com a nossa melhor Seleção! Porquê? Porque ela não tem DIOGO JOTA, ausência amplamente justificada por lesão, e não tem RAFA, um dos jogadores em mais evidência no categórico “Benfica de Schmidt”. 

O RAFA é o batom vermelho da ‘Nova Senhora’. Agora é a chuteira negra da Seleção, até porque ela precisaria de quem acelerasse o jogo. Quem o fará, ainda por cima sem RENATO SANCHES (talvez a maior surpresa) e sem GONÇALO GUEDES?

A cimeira pelo RAFA — o principal acelerador — abortou à nascença.

Sem RAFA para acelerar o ataque, não precisaríamos de ler a convocatória para perceber que a inclusão de CRISTIANO RONALDO era um dado adquirido, tivesse ele 1 minuto de utilização no Manchester United, 1050 (como tem) ou 1710, como expressa o seu totalista. E uma das grandes questões deste Mundial, talvez a maior entre nós, é saber exactamente qual vai ser o comportamento de CRISTIANO RONALDO?

Vai render? Vai influenciar o grupo positivamente?

No ataque, colocavam-se as maiores dúvidas, e para esse sector FERNANDO SANTOS decidiu privilegiar RICARDO HORTA em detrimento de PEDRO GONÇALVES. Conclusão: o Sporting continua sem força nenhuma e agora ainda menos quando a equipa de Rúben Amorim deixou de assustar. 

GONÇALO GUEDES ficou de fora e, para essa decisão, normal, terá pesado o facto de ainda não ter realizado, pelo Wolves, um jogo completo esta época. O selecionador preferiu levar ANDRÉ SILVA, mais um ponta-de-lança, a juntar a C. RONALDO e G. RAMOS. Razoável.

A convocatória conheceu:

A CONFIRMAÇÃO: ANTÓNIO SILVA (demos a notícia em primeira mão);
A DÚVIDA: Em que condições vai estar PEPE? Será para jogar ou para… jogar por fora?
A EXPECTATIVA (já referenciada): Quanto vai ‘pesar’ o ‘capitão’ C. RONALDO?
O FACTO: RICARDO HORTA (SC Braga) superou PEDRO GONÇALVES (Sporting) e GONÇALO GUEDES (Wolves), o que não deixa de ser significativo em termos de eventual valorização/compensação.

Portugal tem alguns dos seus principais jogadores em forma deficiente (PEPE, C. RONALDO, JOÃO FÉLIX), outros longe do seu esplendor, mas também é verdade que, noutras Seleções, não se vêem muitos jogadores em altíssimo rendimento.

Este Mundial é uma incógnita (entre ameaças de boicote, hipocrisia no seu nível máximo e cumplicidades); mesmo para quem gosta muito de futebol este Mundial é uma faca cravada na alma e no coração de quem ainda tem alguma consciência.

Não vale nada? Parece que não. E então?…

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