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Essa besta do VAR e as razões do Benfica

18 mai, 18:55
Liga Europa: Artur Soares dias consulta o VAR num lance em que anulou penálti a favor do Arsenal (Domenech Castello/EPA)

Rui Santos defende que o futebol precisa de urgentes medidas de fundo, em vez de se andar a discutir quem deve fazer mais ruído. Será que o Benfica está interessado em liderar esse processo?

VAR - Video Assistant Referee

Estava criada uma algazarra medonha na arbitragem e no futebol em Portugal (o costume) quando o presidente da FPF, FERNANDO GOMES, a poucos meses de ser reeleito para um segundo mandato à frente dos destinos federativos (junho de 2016) e também à boleia da boa prestação da Seleção Nacional que se sagraria campeã da Europa um mês depois, em Paris, decidiu antecipar-se a quase tudo e a quase todos para introduzir o VAR no futebol português. 

Não quis saber se era a Liga que tinha a tutela do futebol profissional, porque já sabia que um diálogo aberto e formal iria adiar, bloquear ou boicotar o processo, assumiu na FPF os custos da operação e, numa brilhante jogada de antecipação, percecionando que a Europa e o Mundo estavam prestes a seguir o mesmo caminho, deu à luz, salvo seja, a (varíssima) criança. 

O Benfica estava no fim do seu ciclo virtuoso (campeão entre 13-14 e 16-17, com JORGE JESUS e RUI VITÓRIA), havia a convicção pública de que VÍTOR PEREIRA, então presidente do CA, já não tinha a mão na consciência e os árbitros não conseguiam dirigir os jogos livres de pressões, estávamos perto das denúncias contidas em muitos emails que seriam divulgados para colocar a nu as influências e os procedimentos eventualmente criminais que as investigações ainda não concluíram (triste País!), e VÍTOR PEREIRA tornaria conhecida a sua vontade de abandonar o cargo e permitir que FERNANDO GOMES escolhesse JOSÉ FONTELAS GOMES para o substituir na liderança dos destinos da arbitragem. 

Estava fresca uma “visita” à taberna do pai do ex-árbitro JORGE FERREIRA, em Fafe, ‘visitas’ essas que perduraram no tempo, como aconteceu com ARTUR SOARES DIAS, na Maia, nas vésperas de um jogo importante do campeonato. 

Isto para relembrar que mais relevante do que o VAR é observar se as equipas de arbitragem e os titulares de cargos importantes na cadeia hierárquica do futebol em Portugal reúnem condições mínimas para tomar decisões em consciência.  

Importante é eliminar, tecnologicamente, as dúvidas dos ‘2 centímetros’ de fora-de-jogo, mas mais importante do que isso é mudar os pressupostos dominantes do dirigismo desportivo em Portugal. 

No próximo domingo realiza-se a final da Taça de Portugal entre o FC Porto e o Tondela e estamos a 10 dias de ver concluídos 5 anos sobre a introdução do VAR em Portugal, precisamente numa final entre o Benfica e o V. Guimarães, no Estádio Nacional, eram presidentes respectivamente LUÍS FILIPE VIEIRA e JÚLIO MENDES. 

Na época seguinte realizou-se o primeiro campeonato com VAR e, neste momento, quando muitos tratam o VAR como uma besta e concluímos a quinta época de utilização dessa ferramenta, temos o seguinte balanço: 

Época    Campeão     Treinador          Presid

2021-22  FC PORTO  S. Conceição     Pinto da Costa 

2020-21  SPORTING  R. Amorim         F. Varandas 

2019-20  FC PORTO  S. Conceição     Pinto da Costa 

2018-19  BENFICA     Vitória/Lage       L.F. Vieira 

2017-18  FC PORTO  S. Conceição    Pinto da Costa  

Quer dizer, na ‘era VAR’: 

1) Os três grandes já foram todos campeões nacionais, com FCP, 3; SCP, 1 e SLB, 1; 

2) Foram mais vezes campeões nacionais o clube e o presidente que menos se bateram pela introdução do VAR (FC Porto e Pinto da Costa); 

3) O treinador mais vezes campeão nacional com VAR foi Sérgio Conceição. 

O VAR não vai conseguir nunca eliminar aquele espaço atribuído à interpretação do árbitro (nos chamados lances de interpretação, cuja primeira análise do árbitro em campo só deve ser contraditada, à luz de um protocolo que merece urgente atualização, quando se trata de um erro ‘claro e óbvio’), mas já evitou a repetição de erros-grosseiros-e-mais-do-que-isso que a história do futebol alimentou durante décadas. 

É bom perceber, pois, que o erro existe mas em muito menor número do que no largo período que antecedeu este último ciclo de 5 anos com VAR.  

É preciso ter memória e não embarcar no discurso mais fácil. 

Isso não invalida que se reconheça haver em Portugal muitas situações que não concorrem para a instauração de um regime de defesa razoável da verdade desportiva - e não se pode ser romântico em relação a isso. 

O mais relevante é o ambiente e as condições criadas em torno de quem tem de tomar decisões. 

Tudo isto está direta ou indiretamente ligado com o castigo que o Conselho de Disciplina impôs a RUI COSTA, na sequência de declarações proferidas após a derrota do Benfica com o Gil Vicente, na Luz, a partir das quais o presidente dos ‘encarnados’ disse ‘Basta!’, porventura por ter afirmado que ‘não vamos esconder o que nos estão a fazer’, o que no entendimento do CD pode ter sido interpretado como um apelo à revolta, na sequência de arbitragens ou decisões tomadas para (a interpretação é minha) prejudicar intencionalmente  o Benfica. 

Estamos, de facto, no campo das interpretações e se é verdade que concordo haver um ruído excessivo em torno dos árbitros e do CA, e que os agentes desportivos e sobretudo os gabinetes de comunicação precisam de parar com essa rotina destrutiva, também concordo com algumas dos argumentos contidos na mais recente comunicação da News Benfica, segundo a qual um conjunto de situações bem identificadas e bem mais gravosas não suscita nenhum tipo de preocupação e de intervenção radical perante a gravidade dos acontecimentos. 

O futebol português, repito, precisa de um “carro de combate” antes de entretém com o VAR. 

E andamos neste faz de conta que não parece ter fim. 

Tudo ridículo: mil euros (1.150€) de multa, uma suspensão de 16 dias para cumprir em pleno defeso e sobretudo a verificação de que a ‘justiça desportiva’ se esgota numa “folha de excel” e de um amontoado de alíneas, em suposta defesa da integridade das competições, que não serve para nada e o que serve é para “proteger” os ilícitos, sejam eles graves ou menos graves porque os regulamentos têm a chancela dos clubes e os chamados poderosos reinam a seu bel-prazer. 

Como se pode levar a sério um futebol deste calibre? 

Por isso escrevia, no artigo de ontem, a propósito do comer e/ou calar do Benfica, que a resposta ao ruído não pode ser… mais ruído. 

A resposta ao ruído e às pressões inaceitáveis é propor soluções estruturais e cortar a direito com tudo aquilo que ponha em causa a integridade das competições. E pedir responsabilidades.  

O problema é que RUI COSTA tem uma casa para arrumar, tem na verdade uma presidência para salvar — e o que se lhe pede, neste domínio, é algo tão estruturante, tão complexo e tão essencial para o futuro do futebol português que pode esbarrar na vontade, na disponibilidade e na escolha de alguém que tivesse a coragem de promover essa “revolução”. 

Quem, no Benfica? 

NOTA - ANTÓNIO SALVADOR e CARLOS CARVALHAL descartam-se e o presidente do SC Braga decidiu apostar no treinador da equipa B, ARTUR JORGE. Dir-se-à que não é arriscar; é mais.. abrandar. E talvez seja uma forma de ANTÓNIO SALVADOR ter um controlo maior sobre a cabina. Será? 

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