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Colunista e comentador

Dos festejos do título ao Horta, ao Santos e à... Judite

13 mai, 20:21
Fernando Santos no treino da seleção nacional de Portugal, na preparação para o play-off de acesso ao Mundial 2022 (Getty Images)

Rui Santos propõe leituras e reflexões para o fim de semana, com o foco ainda na conquista do título, entre alegrias e tensões motivadas pela morte de um adepto; no papel de Rui Moreira na cidade do Porto, na situação a envolver os milhões do selecionador Fernando Santos, no caso de Ricardo Horta (a caminho do Benfica) e ainda - porque a humanidade deve estar em primeiro lugar - na espécie de sátira realizada lamentavelmente em torno de Judite Sousa

Hoje selecciono 4 temas ou tópicos para leitura e reflexões de fim-de-semana:

1

O FC Porto regressa ao Dragão para a última jornada do campeonato e, naturalmente, jogadores e treinadores, com o staff que os apoiou na conquista de mais um título de campeão nacional, querem festejar a proeza junto dos sócios e adeptos azuis-e-brancos.

SÉRGIO CONCEIÇÃO merece esse tributo como o merecem todos aqueles que se preocuparam, sobretudo, em jogar futebol, e o clima seria de festa plena se entretanto não tivesse ocorrido uma morte brutal em forma de assassínio.

Nas últimas horas foi desenvolvida a narrativa de que o trágico incidente não tem nada que se relacione com futebol, mas tem.

É um tema sensível que deve ser observado com muita razoabilidade e sensatez mas não me parece que reduzir o lamentável acontecimento às rixas que se podem gerar entre bairros ou figuras rivais contribua não apenas para um desejável e rápido desanuviamento de um ambiente tenso, mas sobretudo para o mais importante de tudo - macro assunto - que é o aumento da segurança pública e não apenas na cidade do Porto.

Sim, é um tema sensível que envolve clubes de futebol, mas também o poder político.

Do lado dos clubes de futebol (e tivemos o caso da invasão da Academia de Alcochete há quatro anos, que começou com críticas do ex-presidente BRUNO DE CARVALHO à equipa de futebol do Sporting depois de uma derrota por 2-0 com o At. Madrid, na primeira mão dos quartos de final da Liga Europa), é preciso perceber por que razão havendo ligações ao mundo criminal de elementos pertencentes a claques legalizadas, não há pura e simplesmente suspensão de apoios e demarcação inequívoca dessas figuras?

(Convém sublinhar que, neste particular, a acção de FREDERICO VARANDAS foi pouco reconhecida mas exemplar).

Do lado do poder político, qual a razão por que não se vai a fundo numa matéria que tem que ver com a segurança dos cidadãos, seja no Porto ou noutra cidade qualquer, e que ultrapassa naturalmente questões de representatividade dos clubes nas suas cidades, matéria essa que pertence ao exercício da cidadania plena e não condicionada por outro tipo de poderes e interesses?

No caso particular do Porto, é conhecida a intervenção de RUI RIO nesse domínio; agora é RUI MOREIRA quem vai receber a comitiva do FC Porto na Câmara Municipal e se o tributo ao campeão nacional é merecido e devido, o edil portuense não deixa de ter um problema nas mãos que é a erradicação ou pelo menos o controlo da marginalidade e da violência na cidade.

É um assunto sério e ela pode ser objectivamente realizada através do desporto-rei, porque toda a gente sabe que algumas claques não se movem apenas pela vontade de apoiar, incondicionalmente, a equipa de futebol "x" ou "y".

E é aqui que a narrativa posta a correr corresponde a uma entrada a pés juntos sobre os mais elementares princípios de coexistência social, com regras, direitos e deveres, que importa contraditar, num Estado democrático.

Não devemos confundir a legitimidade de se festejar uma conquista desportiva relevante com um assassinato que tem a montante um conjunto de motivações que nos comprometem a todos (e não apenas os intervenientes na "rixa"), enquanto sociedade. Nas omissões e nalguns patrocínios, também no 'mundo do futebol'.

Não banalizar significa estudar estes fenómenos, perceber as suas origens e atuar. Com urgência e em conformidade com aquilo que está verdadeiramente em causa.

2

FERNANDO SANTOS, já sabíamos, tem o melhor emprego do Mundo.

O que não sabíamos, com o pormenor revelado esta sexta-feira pelo Expresso, é que tem a equipa técnica a seu cargo, ou seja, não é apenas chefe da equipa técnica, é também o patrão da equipa técnica. O que faz muita diferença. Porque o 4.3.3 é para ser mesmo 4x3x3 e não é para derivar nem sequer para 4x3x2,99.

Assim percebemos melhor porque é que 'aquilo' se revela às vezes tão simétrico, com licença do CRISTIANO RONALDO e do JORGE MENDES.

Agora temos uma divergência, talvez a menor considerando a falta de fio de jogo. A equipa do Fisco FC acha que o selecionador nacional tem de pagar 4,5M€; FERNANDO SANTOS 'contra-ataca' e diz que já pagou e quer reaver os 4,5M€ porque lhe fazem muita falta.

Uma questão de faltas, como se vê.

Entretanto, entre saber-se se houve fraude fiscal ou se a equipa do Fisco FC entrou de carrinho e merece um 'vermelho', já houve 'recursos' para o Conselho de Arbitragem, perdão, para o Centro de Arbitragem (Administrativa), vai realizar-se um Mundial lá para o Qatar e o mais provável é que não aconteça nada.

O pessoal já está habituado e se um caso de fraude fiscal, com sentença transitado em julgado, não teve qualquer tipo de consequências na FPF, por que razão agora - sob o efeito da relativização da dramática guerra na Ucrânia - haveria de acontecer alguma coisa?

Viva Portugal e abaixo os coca-bichinhos que veem expressamente mal em tudo!

3

RICARDO HORTA está a caminho do Benfica. Mais uma transferência do arco-da-velha. Não está em causa o valor do atleta. Mas mais uma vez JORGE MENDES a encaixar o maior quinhão e o SC Braga a ter de se esforçar para encaixar alguma verba que se veja na operação.

Será por isso -- pela influência de JORGE MENDES - que a venda de DARWIN vai disparar para os 100M€?

Os clubes vão continuar a não querer negociar entre si, declarar os valores negociados e dispensar não apenas as excessivas intermediações mas também a abdicação da titularidade dos passes?

Aquilo que entra nos cofres dos clubes está em linha grosso modo com a realidade das contas no vermelho.

E qual é o problema? - pensam eles.

4

Recupero um texto que publiquei nas minhas redes há dois meses, talvez e só porque não gosto de injustiças e porque as circunstâncias me obrigam a alguma actualização:

A Judite (Sousa) é um caso muito particular da televisão portuguesa. 

Há profissionais de muita qualidade, como temos visto nos diversos canais de informação, mas a Judite transporta com ela não apenas o produto de muitos saberes e experiências, que a define como uma jornalista completa, mas também, em tempo de guerra, a provação e o sentimento da perda.

Num tempo em que se fala da Mulher e do papel das mulheres nas sociedades modernas (costumo dizer que elas são tudo e muito mais), a Judite deve ser vista como um exemplo.

Um exemplo de luta e tenacidade.

A Judite podia estar num spa e entre lençóis de seda, podia estar em Montmartre, numa qualquer escadaria cultural, entre livros e músicas, podia estar em Viena, numa casa de chá ou na ópera, podia estar na Broadway, a assistir a um grandioso espectáculo, ou no Blue Note, também em Nova Iorque, a ouvir um pouco de jazz, podia estar nas Caraíbas a apanhar sol ou a banhar-se nas águas quentes do Pacífico, mas ela optou por estar num palco de guerra, mais perto da incerteza e de mais dramas de vida, em bunkers e sem Diores, a contar histórias no meio de camuflados.

A Judite é uma guerreira.
A Judite é uma mulher de muitos combates.
A Judite é a uma mulher de combate.

Há dias a JUDITE SOUSA decidiu abrir o seu coração numa entrevista a um dos "Ferraris de entrevistas"que Portugal tem, MANUEL LUÍS GOUCHA.

Foi um testemunho emocional de contacto entre sensações que se podem entender, até alcançar, mas que têm uma dimensão única e não alcançável por quem as protagoniza no momento.

O nosso luto é... nosso, pode ser até comungado e bem interpretado por quem nos rodeia, mas é nosso, único e singular, e de mais ninguém.

A dor é uma faca afiada que por muitos momentos de distracção que possas ter, entre viagens, compras, cristais de champanhe e jantares de proximidade, essa faca vai sempre fazer-te chorar - normalmente em momentos de profunda solidão -  lágrimas de sangue.

Por isso, quem não compreende a dor ou relativiza a dor dos outros, tentando enquadrar - em cenários de pretenso humor - tiradas satíricas sem a mais ténue sensibilidade, como foi o caso de JOANA MARQUES, aos microfones da Rádio Renascença (perdoa-lhe, meu Deus!, esta heresia de fazer um autêntico "cheque ao Bispo"), acha-se sempre numa dimensão superior à humanidade. E isso ou a compreensão desse triste "desarrincanço"até podem desencadear gargalhadas entre a claque joanina, mas são profundamente chocantes.

A Judite é uma grande profissional e uma lição de vida.

Isto não é o da Joana, porque não tem piada alguma.

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