opinião
Colunista e comentador

Carta aberta a Rui Moreira e aos portistas

19 mai, 19:11
FC Porto na Câmara

Rui Santos dirige-se ao presidente da Câmara Municipal do Porto e aos adeptos e sócios do campeão nacional

Caro RUI MOREIRA,

Permita-me que lhe dirija em público algumas palavras, porque há um conjunto de situações relacionadas direta ou indiretamente com a sua condição de presidente da Câmara de Municipal do Porto que me preocupam enquanto português e também enquanto observador das coisas do mundo do futebol.

O FC Porto vive um momento alto porque se sagrou campeão nacional e é favorito para conquistar este domingo a Taça de Portugal.

A 'dobradinha' e a possibilidade de conquistar três troféus consecutivos (juntando a Supertaça em Julho) coloca o FC Porto, desportivamente, num momento que enche de natural orgulho a comunidade portista.

Esse é um ponto que deve merecer aplauso.

Conhecemo-nos minimamente no plano fute-ideológico para saber que, sem qualquer tipo de drama ou crítica, não estamos de acordo sobre o que deve ser a relação entre a política e os clubes de futebol.

Entendo desde sempre que uma Câmara Municipal deve ser inclusiva e, no caso do futebol, olhar para todos os clubes com essa mesma visão inclusiva.

O FC Porto, por maioria de razão, e por ser o clube mais representativo da cidade, deve estar nessa perspetiva inclusiva e isso, a meu ver, não merece contestação.

O que eu discordo, e isso vale para o Porto, para Lisboa ou para qualquer outra cidade ou município, é uma espécie de submissão do poder político em relação aos clubes de futebol que lhe retira autoridade e capacidade de agir quando valores mais altos se levantam, acima das conquistas desportivas.

Conhecemos a história das relações entre a CM do Porto e o FC Porto, conhecemos ações tão díspares como aquelas que caracterizaram as presidências de RUI RIO e de FERNANDO GOMES, hoje administrador da SAD portista, e aquilo que genericamente defendo é que nunca haja conflitos de interesses e que um presidente de Câmara se sinta livre de decidir em conformidade com os interesses da cidade, por exemplo em matéria de segurança, porque nela vivem ou pode receber a visita de cidadãos com simpatia por outros clubes ou a revelar outras preferências que não sejam exatamente ligadas ao futebol.

Sabe, RUI MOREIRA, como todos sabemos, houve uma morte brutal na cidade do Porto, de um rapaz que foi barbaramente esfaqueado, e também sabemos das ligações que existem entre fautores de violência na urbe e a claque mais representativa do FC Porto.

RUI MOREIRA sabe que não tem apenas um problema de violência e de insegurança na sua cidade, tem um conjunto de bairros problemáticos onde o crime está instalado.

Dir-me-á que isso acontece também em bairros de outras cidades, como por exemplo Lisboa, não duvido nem omito, mas parece-me que o problema de relação com uma claque de futebol, no Porto, atingiu uma dimensão provavelmente única no País e extremamente perigosa.

O tema é sensível, sobretudo para si, na sua condição de presidente e de portista, mas vejo-o como uma pessoa de bom senso e recuso-me acreditar que esteja cómodo com a situação.

Não sei até que ponto seja possível conciliar a sua condição de presidente da Câmara, de portista e de amigo de PINTO DA COSTA, e ainda da sua eventual vontade pessoal e política para encarar este problema com coragem.

Não sei até que ponto é que o Ministério da Administração Interna e o Governo de ANTÓNIO COSTA estão dispostos a não ignorar que a situação está a ultrapassar todos os limites e a ficar fora de controlo.

Dirijo-me a si com esta abertura porque o creio como uma pessoa sensata que tem a ambição de um dia ser presidente do FC Porto e que, para consegui-lo, entende que a melhor estratégia - seguida por quase todos - é não contrariar ou mesmo hostilizar um posicionamento de décadas.

Caminhar lado a lado com PINTO DA COSTA e com o posicionamento deste em relação a tudo o que não seja um alinhamento integral perante as políticas e os comportamentos que ele defende pode ser a melhor forma de não perder popularidade e votos.

Isso alcançamos todos.

Não sei se, porventura, alguma vez chegará à presidência do FC Porto, para cujo cargo há mais pretendentes como, por exemplo, ANDRÉ VILLAS-BOAS e VÍTOR BAÍA - e outros candidatos que, na altura certa, se perfilarão, até para surpresa de muitos observadores.

Hoje ou amanhã, o Porto e o FC Porto serão confrontados com um problema de passividade perante os excessos que se passam na cidade e no clube em matérias relacionadas com segurança e violência - e há um momento, hoje ou amanhã, que a questão não será tanto de passividade ou de popularidade mas de responsabilidade efetiva.

É para isso que o alerto, com respeito e também com a certeza de que o FC Porto é muito maior em princípios e em valores, com muita gente de bem, impotente para discutir seja o que for, do que aquilo vem sendo alardeado publicamente, sobretudo quando eclodem problemas de violência.

A cidade do Porto precisa do turismo, precisa dos portuenses, mas precisa também dos portugueses e do País, em todos os sentidos.

A exclusão não é um bom princípio.

Peço-lhe, RUI MOREIRA, que veja a árvore mas também a floresta e a si, portista dos sete costados, que é apaixonado pelo seu clube, não se deixe orientar por dinâmicas separatistas, construída em cima de ódios.

A cada um dos adeptos portistas, tão importantes no futuro para o equilíbrio do associativismo, peço-lhes que não combatam a violência com (mais) violência e sejam mais intransigentes na defesa da paz e de um ideário de desportivismo que eleve e não prejudique a imagem do clube.

Se não houver compreensão dos valores e das prioridades que ora se levantam, pode ser demasiado tarde.

Para todos nós.

NOTA - Não vai estar nenhum árbitro português entre os mais de 100 árbitros que vão estar no Mundial do Qatar. Nem as “boas influências” que temos junto da UEFA chegaram para premiar Artur Soares Dias, o árbitro português mais bem cotado internacionalmente. Dá que pensar e merece reflexão

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