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Benfica ‘roubou’ João Victor ao FC Porto ou foi o FC Porto que se deixou ‘roubar’?

5 jul, 19:22

Rui Santos fala em ‘amadorismo’ e chama a atenção para aquilo que foi revelado pela imprensa: a transferência de David Carmo do SC Braga para o FC Porto foi tratada entre presidentes sem haver lugar a comissões. Até é difícil de acreditar, mas este é o caminho, se querem salvar os clubes da ingovernabilidade

Todos os anos é a mesma festa com o mercado de transferências no futebol. Não é tanto como o caos no aeroporto de Lisboa, mas é um período sempre caótico, com 75% de ficção e 25% de realidade.

Entre as necessidades dos clubes e as promoções que os empresários fazem dos seus produtos na comunicação social, quase sempre com uma interessante sobretaxa de especulação, sobejam algumas realidades.

Uma dessas realidades é a tentativa do Benfica mudar o paradigma do seu futebol. Com uma linha estreita entre o presidente RUI COSTA e o director-geral LOURENÇO COELHO e uma relação efectiva destas duas figuras a ROGER SCHMIDT, um treinador descomprometido com a mentalidade tuga, aquela que está sempre mais próxima da intrigalhada e menos da ‘coisa desportiva’, o Benfica quereria afirmar-se numa fase mais adiantada da sua renovação e o jogo-treino, aberto aos associados, muito bem ‘vendido’ pelo ‘professor NECA’ na BTV, disse isso mesmo: não haverá muito mais gente a contratar mas, como nas obras em fase de conclusão, ainda há muitos ‘monos’ para transportar e deixar o ‘condomínio’ em melhores condições de ser gerido e habitado.

Há um dossiê em aberto, que é o de RICARDO HORTA, a confirmar um ANTÓNIO SALVADOR experiente e sabidão, que tem a vantagem de conhecer bem todos os intervenientes na ‘jogada’, a começar por JORGE MENDES, a peça vital deste xadrez, e não foi por acaso que, percebendo a vontade de o Benfica querer o jogador e o FC Porto ter apostado em DAVID CARMO, o presidente dos ‘arsenalistas’ introduziu o nome de MORATO para tentar viabilizar o negócio.

Quer dizer: SALVADOR aceita em tese encaixar menos dinheiro, mas com a perda de DAVID CARMO (22 anos) e, independentemente da verba a encaixar pelo SC Braga, há também a preocupação de não fazer uma importante descapitalização desportiva, em cima do que já acontecera com CARLOS CARVALHAL.

ANTÓNIO SALVADOR dá uma bicada no Benfica, valorizando a forma como o FC Porto tratou do dossiê DAVID CARMO, e, quando recomeçaram os trabalhos em Braga, estava numa posição de superioridade, aguentando a pressão que lhe foi colocada sobre os ombros.

Como diz o outro, são muitos anos a virar frangos - e acreditem que esta é uma ‘capoeira medieval’, com muitos capões e também alçapões…

Um dos factos do defeso parece ser o desvio do jovem central do Corinthians, JOÃO VICTOR, do FC Porto para o Benfica.

O jogador (treinado por VÍTOR PEREIRA, no Corinthians) vinha sendo referenciado como uma das mais fortes apostas do FC Porto, considerando o envelhecimento de PEPE, a saída (sem retorno) de MBEMBA, a dúvida instalada sobre as capacidades de MARCANO e o flop chamado RÚBEN SEMEDO, tudo isto já com DAVID CARMO no horizonte, mas considerando que já no processo de negociação para a contratação de ROGER SCHMIDT se havia identificado a necessidade do Benfica pretender contratar um ‘central’ rápido, JOÃO VÍTOR entrou nas contas dos ‘encarnados’, numa disputa a envolver o FC Porto.

A imprensa deu nota de que o Benfica ‘roubara’ JOÃO VICTOR ao FC Porto, mas notícias mais recentes dão conta de que o FC Porto se terá deixado ‘roubar’ a si próprio.

Mais do mesmo: os interesses e as manobras dos empresários a sobreporem-se aos interesses dos clubes, e estes a saírem quase sempre prejudicados, com o resguardo dos adeptos e de alguma comunicação social, sempre muito em linha com esses ditos empresários.

Leio que JOÃO VICTOR é representado por 5 (!) agentes. Um desses empresários estava a trabalhar o tema com PEDRO PINHO, protegido de PINTO DA COSTA, consciente de que a transferência estava controlada, ainda por cima com BRUNO MACEDO por perto e aparentemente ‘alinhado’.

Ora todos sabemos que, excepcionando alguns casos, os agentes/empresários são piores que os camaleões. Ainda estão naquele ponto de passagem do verde para o azul e já se começam a vislumbrar uns tons de vermelho. E quando estão envolvidos vários empresários na representação de um jogador — há muita gente a trabalhar pela calada e sem vínculo formal aos agentes mais referenciados — mais fácil se torna a mudança de cor.

No caso de JOÃO VICTOR, e segundo leio na imprensa, um dos cinco empresários utilizou a informação que tinha para apresentar uma melhor proposta (junto das partes interessadas) e foi assim que o Benfica conseguiu o jogador.

Este é um terreno para quem dá mais, para quem dá a ganhar mais e não para quem fica a olhar para o(s) palácio(s).

Ainda que no FC Porto a pujança no meio dos mercados há muito que deixou de ser o que era, claramente por razões de ausência crescente de liquidez, não deixa de ser surpreendente que o tema tenha sido tratado por PEDRO PINHO (segundo as notícias) de uma forma tão amadora.

Imagino como deve estar SÉRGIO CONCEIÇÃO e não creio que DAVID CARMO seja suficiente para animar o treinador do FC Porto, confrontado com as saídas de MBEMBA, FÁBIO VIEIRA e VITINHA, jogadores que ele próprio ajudou, e muito, a potenciar.

O magistério de PINTO DA COSTA tem vivido nos últimos anos muito à custa de SÉRGIO CONCEIÇÃO e da capacidade do técnico portista em transformar medianos e bons atletas em referências muito competitivas. E se isso acontece é porque, até à data, a SAD portista tem encontrado a fórmula certa de manter SÉRGIO CONCEIÇÃO ligado ao compromisso — seja lá o que isso for e representar — de não abandonar PINTO DA COSTA durante a sua presidência.

Nos dias de hoje, se VIEIRA estivesse na presidência do Benfica, esta ultrapassagem ao FC Porto não teria acontecido.

O que significa que RUI COSTA não quer nenhuma submissão a PINTO DA COSTA, não obstante as redes que este, ardilosamente,  já lhe lançou mais do que uma vez.

Ambos os presidentes sabem que neste momento qualquer passo em falso pode ser aproveitado por cada um dos contendores.

Benfica e FC Porto estão a cuidar do plantel, com preocupações no sector defensivo. O Benfica numa transformação mais profunda; o FC Porto a tentar utilizar ‘pensos rápidos’ em feridas mais profundas, das quais no entanto tem revelado uma capacidade imensa de recuperação.

E, neste aspecto, há um ponto a passar despercebido que merece particular atenção: as notícias rezam que a operação DAVID CARMO foi tratada entre os presidentes do SC Braga e do FC Porto sem intervenção de intermediários. Até custa a acreditar.

Como tenho defendido nos últimos anos, este é um dos caminhos para o futebol, se quiserem tirar os clubes do espectro da ingovernabilidade.

É perfeitamente possível anular ou reduzir o impacto da intervenção dos empresários nestas operações, pelo menos da forma como está consignada, praticamente sem qualquer regulação.

Basta os clubes quererem e, por inerência, os seus presidentes e responsáveis.

Quanto mais tarde fizerem, pior.

Obrigado, ANTÓNIO SALVADOR e PINTO DA COSTA, por terem demonstrado à saciedade (e às sociedades, literalmente) que é possível, mesmo que não tinha sido uma decisão estrutural ou um sinal de novos procedimentos.

Interessante, não acham?

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