opinião
Colunista e comentador

"40 anos disto!" e o Sporting na "versão Cashball"

27 mai, 22:57
Alvalade

Rui Santos escreve sobre o Sporting, o 'Cashball' e diz que o processo ainda não deu respostas a todas as perguntas

Não tenho nada a esconder e sabem os que seguem a minha actividade pública longe da intoxicação das centrais de comunicação, que discriminam quem não lhes segue os passos ou as ordens, não sou nem nunca foi um entusiasta das técnicas de dirigismo desportivo que dominam o futebol português há mais de 40 anos.

Não escondo: sou contra a 'guerra' Norte-Sul, sou contra a divisão do País pelos ódios, sou contra as pressões que os clubes de futebol exercem sobre as instituições, sejam elas a Assembleia da República, os tribunais, os órgãos decisórios do futebol (nomeadamente da justiça e da arbitragem) ou a comunicação social e sou, acima de tudo, contra todo o tipo de manobras que coloquem em causa a verdade desportiva e a integridade das competições.

Exactamente por achar que a arbitragem estava capturada e dependente dos humores das correntes clubísticas dominantes, com graves consequências para a 'verdade' do jogo, mobilizei-me no sentido de levar até ao Parlamento uma proposta de discussão sobre a entrada em vigor da vídeo-arbitragem como mais uma ferramenta de escrutínio, no sentido de se evitar danos maiores e a imposição monumental do regime das influências.

Considerando o que salta à vista, que é o escândalo do teatro das comissões no futebol, liderei um movimento no sentido da constituição de uma Casa de Transferências, oficial, para se tentar pôr cobro à liberalização das operações mal-amanhadas e mal explicadas, que ajudaram a colocar os clubes em exaustão financeira.

Antes, e durante 15 anos, acompanhei o futebol nacional e internacional pela base e pugnei pela afirmação do jovem jogador português, procurando que lhe fosse dado maior crédito no meio de uma dinâmica que contemplava a aposta em jogadores estrangeiros de valor muito duvidoso.

Ainda hoje a discussão está sobre a mesa, em termos do que deve ser a aposta na formação, mas já na década de setenta apontava para essa necessidade, dizendo também que era indispensável um investimento sem hesitações em infraestruturais que pudessem ser o suporte dessa aposta na formação.

Um mero contributo na base das ideias e das propostas, nada mais senão isso. Não confundo opiniões com méritos de quem executa todo o tipo de medidas tendentes a melhorar o futebol.

Muita coisa mudou, entretanto: foram construídos novos estádios e novas cidades desportivas (hoje por hoje a precisar de requalificação), Portugal passou a exportar, como dizer?, melhor pé-de-obra, a FPF modernizou-se, houve uma clara evolução, muito pelos contributos dados por JOSÉ MOURINHO e CRISTIANO RONALDO (na linha da frente), sem esquecer o trabalho de sapa  realizado pela dinâmica queiroziana, mas houve uma coisa que não mudou, e essa continua a não deixar progredir a Liga portuguesa ao ritmo que ela necessitaria para se tornar num produto credível e por isso vendável -- a mentalidade dominante do dirigismo desportivo, no futebol.

Continua a pensar-se que as vitórias não são fabricadas, em primeira análise, pelo desempenho dos treinadores e dos jogadores, na oficina e sobre os relvados, em competição, na extensão de uma gestão profissional assente nas melhores técnicas de rentabilização de activos e de reprodução das receitas, e essa é uma tragédia que se abateu sobre o futebol em Portugal.

Não interessa como se ganha; o importante é ganhar, a qualquer preço.

É uma mentalidade enraizada. É um 'cancro' no futebol em Portugal.

Já disse várias vezes, igualmente, pelo que foi sendo tornado público nas últimas décadas e nos últimos anos, a existir uma justiça desportiva, descontaminada e com condições para não deixar passar qualquer tipo de entorses, doa a quem doer, que qualquer um dos clubes dominantes em Portugal, seja o FC Porto, Sporting ou Benfica, já permitiram o desenvolvimento de certas situações à margem do jogo que os poderia ter conduzido à II Divisão.

Não ter havido penalizações proporcionais à dimensão do que ocorreu no Apito Dourado, no 'caso Cardinal' e em muitas situações ocorridas no âmbito do cacharolete de processos que se abateram sobre a presidência de VIEIRA e tiveram enormes custos de reputação para o clube da Luz, criou uma ideia de impunidade que permite a alguns protagonistas passearem-se na praça pública com um olímpico à-vontade.

Bem sabemos que, paralelamente ao futebol, há casos de brutal prejuízo para o erário público, com consequências gravosas para várias gerações; bem sabemos que nos corredores da justiça as percepções e os indícios têm de ser acompanhados, e bem, de provas irrefutáveis para haver condenações; bem sabemos que existe um enorme desfasamento entre a informação do que sai do Ministério Público e as consequências em sede de julgamento (quando se chega a esse ponto); bem sabemos que se criou um mecanismo de repetição de buscas a potenciar em tese a eliminação de provas (com as dezenas de escritórios de advogados a trabalhar arduamente no tempo da dilação dos prazos para se conseguir obter a divina prescrição); bem sabemos de tudo isto, e todos sabemos que o futebol é um caso de polícia há mais de 30 anos.

Desconfio que a agremiação a ter maior sucesso nos próximos tempos será a Prescrição Futebol Clube. É só um palpite.

Todos sabemos disso, os adeptos e os algozes da comunicação habituaram-se a atirar as pedras para o telhado do vizinho, a partir de um conjunto de marionetas que se predispõem a passar a mensagem, e não saímos deste registo de pedrada contra pedrada, numa espécie de 'circo romano' (com o update da transmissão televisiva).

O problema é quando gente teoricamente responsável se envolve, directa ou indirectamente, neste confronto de lama.

"Cashball"? Vamos a isso.

Os empresários JOÃO GONÇALVES e PAULO SILVA e os ex-funcionário do Sporting, GONÇALO RODRIGUES, foram pronunciados pelo TIC do Porto para irem a julgamento.

O juiz encarregado do processo entende que os três arguidos levaram a cabo um esquema de corrupção com a finalidade de beneficiar o Sporting no campeonato de andebol, em 2017. Segundo o relatório, o empresário PAULO SILVA terá oferecido 2 500€ a dois árbitros para que favorecessem o clube 'leonino'  em jogos com o ABC (de Braga) e o FC Porto.

PAULO SILVA assumiu -- pode ler-se -- ter sido mandatado pelos dois empresários para corromper árbitros de andebol e jogadores de futebol, com benefício do Sporting.

No futebol, a tentativa de corrupção terá chegado ao jogador do Chaves, LEANDRO FREIRE, através de PAULO SILVA (25 000€), que recusou entrar no esquema de batotice. A 'proposta' era que LEANDRO FREIRE facilitasse a acção a BAS DOST, em dois jogos (Liga, em 14.1.2017 e Taça, 3 dias depois), frente aos flavienses, contra o pagamento de duas tranches de 12 500€.

A investigação apurou ter sido PAULO SILVA quem tentou prejudicar as equipas adversárias e não encontrou qualquer indício (com relevância criminal) do envolvimento de responsáveis do Sporting no sentido de mandatar PAULO SILVA para aquele efeito.

Estamos a falar da presidência de BRUNO DE CARVALHO e estamos a falar de ANDRÉ GERALDES, à data director-geral da Sporting SAD, que chegou a ser detido, recorde-se, no âmbito do processo.

Não foram recolhidas provas, mas há uma pergunta que subsiste: como é que aparece um ex-funcionário do Sporting (GONÇALO RODRIGUES) neste processo? Por 'sportinguismo'?! Não são verbas muito significativas, mas por carga de água é que se disponibiliza ou se tem como 'reserva' um valor de cerca de 30 000€ para tentar corromper árbitros e um jogador de futebol?

Sei que GONÇALO RODRIGUES, no âmbito das medidas de coação fixadas na altura pelo tribunal, ficou logo suspenso de continuar a sua actividade e sei que, depois das eleições, o seu contrato foi resolvido pela nova Direcção.

É um processo que, confesso, não me deixa tranquilo sobre motivações e responsabilidades.

E outra pergunta: o que fez PAULO SILVA auto-denunciar-se?

Tudo muito estranho, de facto.

Tenho uma posição conhecida sobre factos que possam colocar em causa a integridade das competições e a verdade desportiva: intransigência absoluta. Seja quando estão em causa figuras afectas ao Sporting, ao Benfica, ao FC Porto ou a qualquer outro clube.

Tolerância zero para a corrupção.

Há uma frase que tem corrido as auto-estradas da comunicação que falam em "40 anos disto!". A frase é utilizada no duplo sentido: por um lado, para vincar a constância de vitórias; por outro lado, e no sentido oposto, na linguagem de adversários, para salientar a forma como se chega às vitórias.

Eu diria que precisamos 'disto', seja há 40, 30, 20, 10 ou apenas 1 ano para perceber que é preciso mudar de rumo e banir do desporto, no Sporting, no FC Porto, no Benfica, ou noutro clube qualquer, todos aqueles que querem subverter as regras do jogo.

É assim tão difícil?...

Relacionados

Novo Dia CNN

5 coisas que importam

Dê-nos 5 minutos, e iremos pô-lo a par das notícias que precisa de saber todas as manhãs.
Saiba mais

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados