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Rúben Amorim “armado em parvo” ou a sentir que o fizeram de parvo?

19 ago, 20:46

Rui Santos escreve sobre a conferência de imprensa dada pelo treinador dos leões e diz que o Sporting vai fragilizado para o Dragão a dois níveis (pelo menos)

Vejo a conferência de imprensa de RÚBEN AMORIM no lançamento do jogo com o FC Porto e vejo um treinador perturbado.

Não consegue disfarçar.

Está baço. Vê-se que não quer perder a leveza e o controlo, até o sorriso, mas percebe-se que o estômago fervilha como uma panela de pressão.

No estômago está um sapo anafado.

Rúben Amorim não conseguiu digerir o animal.

A saída de MATHEUS NUNES foi — percebe-se — um murro no estômago.

A tirada da coerência, ou da falta dela, teve um destinatário óbvio: a Direção do Sporting, liderada por FREDERICO VARANDAS.

Não é bom quando isto acontece. Nunca é bom, independentemente das consequências.

Se houve alguma coisa que melhorou muito nos últimos anos em Alvalade foi a imagem de união projectada pela estrutura de gestão.

Até podem existir divergências (onde não as há?), mas FREDERICO VARANDAS, HUGO VIANA e RÚBEN AMORIM conseguiram sempre dar uma imagem de estabilidade e de efectividade funcional na maioria das ações que protagonizaram.

RÚBEN AMORIM, pelos resultados que conseguiu, foi fazendo valer a sua importância no futebol do Sporting e beneficiou sempre de ter entrado em Alvalade pela porta grande, de acordo com o processo que o fez sair de Braga.

O título máximo conquistado há pouco mais de um ano, aumentou a convicção a AMORIM de que as suas preces deviam ser ouvidas.

Foi assim com PAULINHO, foi assim com SLIMANI, foi assim com as ‘exigências’ sobre questões relacionadas com a gestão desportiva.

RÚBEN AMORIM tem aquele ar doce e bonacheirão (o mais visível) mas tem um lado de agressividade mais ou menos contida a partir da qual é mesmo capaz de partir a baixela da Rainha.

Já percebemos isso nalguns jogos, a partir do banco, embora a postura dominante seja a de um caval(h)eiro que sabe tratar o seu cavalo branco (neste caso, às riscas).

Não sei se VARANDAS já está cansado das ‘exigências’ de RÚBEN AMORIM, mas parece claro que, se AMORIM não evita as ‘bocas’ que verbalizou na conferência de imprensa desta sexta-feira, na véspera de um jogo tão importante como é sempre uma partida com o FC Porto no Dragão, é porque sentiu necessidade de ‘tabatar’ o terreno, isto é,  deixar claro que a saída de TABATA era uma forma de se poder conseguir segurar MATHEUS NUNES, a preparar um eventual desaire e a desviar as atenções para a responsabilidade presidencial.

Em caso de derrota, não vem aí coisa boa e até pode muito bem acontecer RÚBEN AMORIM poder estar a preparar uma eventual saída, descontente com todo o processo e, sobretudo, por achar que não lhe foi contada toda a verdade.

É real que o Sporting fez menos dinheiro em vendas do que o FC Porto e o Benfica, o que significa que perdeu menos jogadores relevantes do que os seus rivais (MABEMBA, VITINHA e FÁBIO VIEIRA + DARWIN e EVERTON, e quase a perder WEIGL e talvez GONÇALO RAMOS); é verdade que fez um esforço para ir buscar ST. JUSTE, TRINCÃO, MORITA, ROCHINHA e FATAWU, num total de 28M€ de investimento em relação a estes 5 jogadores; e teve de desembolsar 10M€ por RÚBEN VINAGRE antes de o emprestar ao Everton com uma cláusula de compra de 21M€.

(Muito interessante verificar que, também em conferência de imprensa desta sexta-feira, questionado sobre se estava satisfeito com o plantel à disposição, SÉRGIO CONCEIÇÃO saiu airosamente do aperto, talvez percebendo que essas questões estão agora, essencialmente, do lado do Sporting e podem crepitar como castanhas no relvado do Dragão neste clássico, numa situação que tem tudo para ser aproveitada pelo FC Porto).

Depois da conferência de imprensa dada pelo treinador do Sporting, alguém me dizia que RÚBEN AMORIM está “armado em parvo”. Não me parece.

Em contraponto talvez se possa até concluir que o tentaram fazer de parvo, presidente, empresário e jogador, achando que — não lhe contando tudo — o treinador dos ‘leões’ acabaria por se conformar.

Parece-me mais que está a posicionar-se na sua condição de treinador que vê a sua autoridade ser beliscada. E deixou-o claro, na véspera de um jogo tão sensível.

Essa é a novidade: não evitar o silêncio sobre o tema e, mais do que isso, partir a baixela da Rainha.

RÚBEN AMORIM foi razoável quando não valorizou o interesse maior do Sporting, em véspera de um jogo tão relevante?

Já acontecera com SÉRGIO CONCEIÇÃO no FC Porto, quando LUIS DIAZ saiu, e aconteceu muitas vezes com JORGE JESUS, no Benfica, com esta coisa dos treinadores não conseguirem dominar os SOARES DE OLIVEIRA e os SALGADO ZENHA da vida, que têm de fazer contas, porque os treinadores — os treinadores que conseguem resultados e, portanto, milhões — só olham para o balneário e para o relvado e têm alguma dificuldade em aceitar que a árvore é uma coisa e a floresta é outra, completamente diferente.

Não é fácil este equilíbrio e, se as coisas não correrem bem no Dragão, apesar do momento tão precoce da época, não me admiraria nada que RÚBEN AMORIM comece, mentalmente, a fazer as malas, dizendo ao seu empresário para ‘preparar o futuro’. Pode ser uma questão de pouco tempo.

O futebol, contudo, contraria as lógicas e os contextos de uma forma muito rápida, contra todas as previsões, mas em tese SÉRGIO CONCEIÇÃO e o FC Porto receberam um bónus inesperado.

Só se entende que a venda não tenha sido programada para a seguir ao jogo no Dragão por exigência de quem comprou ou de quem intermediou a compra — e essa é uma fragilidade do Sporting e de FREDERICO VARANDAS ou, melhor dizendo, das finanças do Sporting, que pode ter um preço alto.

Um preço mais alto do que o encaixe de 45M€ (+5M€).

Este clássico tem mais este aliciante. Saber até que ponto a força interior do Sporting e da sua estrutura é suficiente, em momento delicado, para sair vivo do Dragão.

FREDERICO VARANDAS, ainda por cima a entrar no recinto portista castigado; HUGO VIANA, RÚBEN AMORIM, os reforços e os jogadores mais carismáticos do Sporting têm uma grande responsabilidade: dar nota de que a saída de um jogador importante como MATHEUS NUNES, mesmo num jogo em que o adversário estará preparado para deitar fogo sobre o seu ‘rival político” de eleição, não abala nem o treino, nem o trabalho já realizado, nem a qualidade dos jogadores convocados, nem a capacidade de mobilização do treinador.

O Sporting tem aqui uma grande provação e também um momento importante de (não) afirmação.

Ninguém está em condições de fugir às suas responsabilidades.

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