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O cabeleireiro de Galeno e os microfones em azul e branco

16 mai, 10:46
Fernando Andrade celebra golo contra o Estoril. Foto: Manuel Fernando Araujo/EPA

Rui Santos escreve sobre a bonita festa no Dragão, mas deixa um olhar crítico a quem não se importou de negociar a dignidade

Foi bonita a festa, pá!

Pois foi.

Dragão cheio, comunhão perfeita entre jogadores, SÉRGIO CONCEIÇÃO e os adeptos, um jogo entretido, nem parecia que o título já estava entregue ao FC Porto, seriedade na abordagem, o Estoril a responder com as armas que tem, CLÁUDIO RAMOS na baliza, a única alteração que o treinador entendeu introduzir no ‘onze’ que havia ido à Luz ganhar e colocar ponto final nas dúvidas que pudessem existir sobre o campeão, e ainda deu para estrear o jovem guarda-redes FRANCISCO MEIXEDO (à beira dos 21 anos) e, sobretudo, FERNANDO ANDRADE, que entrou aos 85 minutos para marcar aos 88, um caso de solidariedade que diz bem da importância que SÉRGIO CONCEIÇÃO atribui às dinâmicas de grupo.

Parece irrelevante, mas o ‘onze’ que o treinador portista apresentou no derradeiro jogo da Liga desta temporada significa muito sobre a forma de se “pensar futebol” e da cultura que SÉRGIO CONCEIÇÃO reforçou no FC Porto. 

Não há lugar nem tempo para facilidades, mesmo com o título no papo. Havia a possibilidade de o FC Porto chegar aos 91 pontos e, com uma vitória, pulverizar o máximo pontual do campeão na Liga e tudo foi feito de modo a que o objectivo não falhasse.

Chama-se a isto "mentalidade de campeão".

Pode parecer um pormenor ou uma minudência, pode parecer até uma coincidência, mas o único jogador que esteve para entrar e não entrou, e que serviu num determinado momento para atenuar o impacto da saída de LUÍS DIAZ para o Liverpool, foi GALENO, que decidiu ir ao cabeleireiro mudar a cor do cabelo.

SÉRGIO CONCEIÇÃO, como sempre fez durante a época, privilegiou o foco, a concentração, a doação e, também, a solidariedade premiada.

São maneiras de ver as coisas e SÉRGIO CONCEIÇÃO, neste plano, não vai em três cantigas. E, por isso, eu disse, em determinado momento da época, que há treinadores a fazer a diferença e dei o exemplo do Benfica, antes ainda da contratação de ROGER SCHMIDT: precisava de um técnico como CONCEIÇÃO, um treinador que transporta mentalidade para dentro da cabina e para dentro do campo.

A festa foi bonita, pá.

Pois foi.

Quando acabou o jogo, a festa continuou (bonita, pá!) e até os microfones entraram em campo, vestindo-se de azul e branco.

E aqui o contraste foi evidente. Se o SÉRGIO CONCEIÇÃO fosse director de uma estação ou repórter não haveria palhaçadas, era foco no trabalho, sem concessões, porque no trabalho — como se viu durante 90 minutos no relvado do Dragão, com o Estoril, no jogo que já não alterava a posição do FC Porto no campeonato — deve ter a sua dignidade e perder a dignidade por mal calculadas questões de share, que se revelariam depois falhadas, é uma má política em qualquer estação, seja ela a Primavera, o Verão, o Outono ou o Inverno, seja com ou sem arcos e balões, neste tempo de aproximação das festas populares.

Só entram no relvado os microfones que nós queremos, era o que faltava não termos esse direito, os amigos são para as ocasiões e a amizade, mesmo que seja súbita ou efémera e aquelas amizades de conveniência, são uma coisa muito bonita para alguns, mesmo que percebam o logro e a plasticidade da ocasião.

É a festa, pá!

E foi giro o PINTO DA COSTA pegar no microfone e entrevistar o ‘repórter’, escolhido a dedo para o espectáculo, como foi gira aquela galeria de entrevistados a desfilar pelo dito microfone, do LUÍS GONÇALVES ao VÍTOR BAÍA, passando pelos jogadores que estavam ali mesmo à mão de semear, com os tambores a rufar: tan-ta-ran-ta-tan, e siga a festa, porque nos Aliados há mais.

A vitória foi do FC Porto, claro(!) e de mais ninguém, perdão, corrijo, foi também daqueles que não venderam a dignidade e se mantiveram firmes, em nome de princípios inegociáveis.

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