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Colunista e comentador

Cristiano traído por Ronaldo

13 abr, 12:27
D.R.

Tenho uma confessada admiração por CRISTIANO RONALDO enquanto futebolista e também pela forma como se afirmou no panorama do futebol mundial.

Nesse aspeto e no futebol CRISTIANO RONALDO é praticamente insuperável.

Sou particularmente sensível a pessoas a quem lhes é dada uma oportunidade e elas agarram-na para fazerem uma carreira sustentada. Em progressão, pelo talento mas também pelo trabalho e dedicação.

CRISTIANO RONALDO é exemplo disso: nasceu num meio pobre, na Madeira, teve uma oportunidade para ingressar num grande clube português (Sporting) e depois trabalhou imenso, sob o olhar tutelar de ALEX FERGUSON, para alcançar um patamar de excelência.

Deve esse seu arranque ao talento, mas também a AURÉLIO PEREIRA (o ‘leão’ das fundações), uma das melhores pessoas que conheci no futebol.

Houve um tempo em que o jovem CRISTIANO só tinha olhos para o seu imaginado ídolo RONALDO e as prioridades foram todas canalizadas para o objectivo de crescer e melhorar para poder entrar na história do desporto-rei.

Essa foi a chave do sucesso: foco no futebolista RONALDO (e só depois na pessoa CRISTIANO) e uma quase obsessão por fazer mais e melhor. Mais treino, mais ginásio, mais abdominal, mais tudo. E com isso veio a afirmação desportiva, os recordes e os milhões.

Uma coisa que as pessoas gostam de criticar — um certo culto pela individualidade — funcionou para CRISTIANO RONALDO como o trampolim para a fama e para o proveito.

Acresce que CRISTIANO RONALDO (CR) transformou-se num jogador do futebol moderno (completamente adaptado ao sistema) mas também numa marca associada às exigências de uma sociedade tecnológica e comercializada.

Há dias, em Liverpool, RONALDO foi de novo traído por CRISTIANO. Não se tratou da primeira vez (todos se lembram do microfone da CMtv que voou para o charco, em 2016, entre outras peripécias devidamente assinaladas), mas o ‘gesto maldito’ do jogador do Manchester United, dando uma palmada no telemóvel que um adolescente e adepto do Everton segurava nas mãos, foi uma coisa feia que não cola com tantos gestos benditos, até de humanidade, protagonizados pelo internacional português.

A fundação ‘Save The Children’ tomou uma posição firme e deixou de contar com CR como seu embaixador, considerando a atitude não compatível com os valores que defende.

CRISTIANO RONALDO estava de cabeça quente, o United acabava de registar mais uma derrota com a equipa e CR em branco, o craque português saiu a coxear e a frustração tomou conta dele, ao ponto de descarregar a fúria num jovem (autista) que registava a recolha dos jogadores aos balneários, naturalmente feliz com o resultado conseguido pelo Everton.

A frustração de CRISTIANO RONALDO não tem a ver apenas com o fraco desempenho da sua equipa (a 23 pontos do City, da mesma cidade!!!), mas também não conseguir fazer a diferença individualmente, o que - de uma forma tão evidente — é a primeira vez que acontece na sua carreira.

CRISTIANO RONALDO é um superfutebolista (continuo a pensar que é muito improvável que apareça outro em Portugal com a mesma capacidade de superação, com talento e a um nível planetário) mas não é um super-homem.

Ele não está a conseguir gerir a aproximação do fim da carreira (depois de a Juventus, com ele, ter falhado o objectivo de voltar a ser campeão europeu) e isso coloca CRISTIANO em conflito com RONALDO.

É bom não esquecer ter precisado de dizer publicamente que é ele quem decide quando se vai retirar da Seleção Nacional, posicionando-se acima da FPF e do seleccionador, mas é de elementar compreensão que foram também a FPF e o seleccionador a colocarem-se às ordens de CRISTIANO RONALDO.

CRISTIANO tem de ser o primeiro a perceber que não pode trair RONALDO e era bom que o seu aparelho de comunicação o convencesse a não deixar passar esta oportunidade sem uma posição mais forte de retratação (não, não chega um pedido de desculpas através das redes sociais) porque o que tem feito, profissional e pessoalmente, é demasiado grandioso para consentir uma mancha tão feia e comprometedora.

RONALDO precisa da ajuda de CRISTIANO, mas o CRISTIANO também precisa de dar a entender ao RONALDO que tudo tem um fim. Sem drama.

O drama está na Ucrânia e sobre isso também gostava de ter visto o CRISTIANO RONALDO — com a força mediática que tem — muito mais activo.

Super-homens só na banda desenhada.

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