Como o lugar mais frio da Terra se tornou num dos destinos de férias mais desejados

CNN , Jason Evans
29 dez 2024, 11:00
Majestosos icebergs, muitos deles formados por glaciares que têm dezenas de milhões de anos, são uma grande atração na Antártida.

Majestosos icebergs, muitos deles formados por glaciares que têm dezenas de milhões de anos, são uma grande atração na Antártida.

Era uma tarde clara e ensolarada, durante a temporada de verão na Antártida, quando o navio de cruzeiro Seabourn Pursuit colidiu com uma camada de gelo marinho na Baía Hanusse. O navio avançou, o gelo foi-se despedaçando debaixo da sua proa, até ficar imerso, a várias centenas de metros, nas geladas águas do mar.

Os 250 passageiros a bordo do Seabourn Pursuit saíram para as suas varandas, inclinando-se para ver o que estava a acontecer.

Contudo, não houve qualquer corrida para os botes salva-vidas como no Titanic. Em vez disso, os passageiros desceram a plataforma, saindo do barco para um passeio sobre o gelo. Não foi um acidente, antes uma experiência planeada, com direito inclusive a uma mesa cheia de copos de champanhe, para brindar a chegada destes passageiros à Antártida.

Entre os passageiros a passear pela camada de gelo estavam Greg e Susana McCurdy, um casal de polícias reformados, originários de Las Vegas. Susana é agora agente de viagens a tempo parcial. Os McCurdy estão agora a aproveitar a reforma para visitar o maior número possível de destinos exóticos.

Susana e Greg McCurdy comemoram com uma caminhada numa camada de gelo flutuante na Antártica (Jason Evans)

Após agarrarem nos respetivos copos de champanhe, os McCurdy desenrolaram uma pequena faixa, onde se lia “Sétimo Continente Antártida 2024” e posaram para uma fotografia. Com esta viagem, juntaram-se a um grupo pequeno, embora crescente, de pessoas que já pisaram todos os continentes do planeta.

Susana conta que ultimamente tem notado uma mudança nos seus clientes. “Querem experiências mais autênticas, dignas de figurarem em listas de desejos, sobretudo depois da covid-19. E já não esperam… A Antártida está no topo de quase todas as listas”.

Um destino digno de figurar numa lista de desejos

Os pinguins bebés são uma atração importante nas viagens de final de verão para a Antártida (Jason Evans)

O aumento no turismo para a Antártida começou bem antes da explosão no setor das viagens após a pandemia de covid-19.

A IAATO - International Association of Antarctica Tour Operators [Associação Internacional de Operadores de Turismo da Antártida] tem monitorizado o número de turistas que visitam o continente desde o início da década de 1990. Nessa época, cerca de sete mil pessoas visitavam a região todos os anos.

Os números dispararam nos últimos cinco anos. No inverno de 2017, pouco menos de 44 mil turistas tinham visitado a Antártida. Neste ano, esse número ultrapassou a barreira dos 122 mil visitantes. E este número é uma realidade porque viajar para o continente mais frio da Terra nunca foi tão fácil – ou luxuoso.

Há umas décadas, viajar para a Antártida era sinónimo de embarcar em navios pequenos, muitos deles antigos “cortadores de gelo” vindos da Rússia, do Canadá e de outras nações polares. Não era, de todo, uma experiência luxuosa.

Robin West, vice-presidente e diretor-geral de expedições da Seabourn, fez a sua primeira viagem a esta região em 2002. O responsável conta que muitos dos barcos daquela altura estavam equipados com beliches e casas de banho partilhadas. “Todas as noites tínhamos de colocar o nosso nome num quadro para escolhermos entre esparguete ou lasanha”, lembra.

O Seabourn Pursuit a cortar o gelo na Antártica (Jason Evans)

Poucos desses navios tinham janelas para ver o que se passava no exterior. Hoje em dia, a experiência é bem diferente.

Colleen McDaniel, editora-chefe do Cruise Critics, dá créditos às linhas de cruzeiro da Lindblad e da National Geographic por terem aberto o turismo para a Antártida a mais visitantes há cerca de uma década.

“Eles foram realmente os pioneiros, por permitirem o acesso à experiência da Antártida a um turista mais tradicional. Ainda assim, aqueles primeiros cruzeiros eram menos luxuosos do que aqueles que encontramos hoje”, afirma McDaniel.

“Nos últimos tempos, as empresas Ponant, Silversea, Seabourn e Scenic deram grandes passos, com uma experiência de luxo dirigida ao mercado de topo. Oferecem suítes incríveis a bordo, refeições excecionais, e inclusive spas. Companhias como a Quark Expeditions estão a criar produtos para aventureiros, oferecendo serviços como esqui de fundo e acampamentos”, junta.

Preocupações ambientais

A subida no número de turistas fez com que alguns especialistas fizessem soar os alarmes sobre os impactos ambientais desse aumento de visitantes.

Um estudo de 2022, publicado na revista Nature, apurou que a neve na Antártida está a derreter mais depressa por causa das visitas turísticas ao continente. A fuligem preta que sai das chaminés dos navios de cruzeiro deposita-se sobre o gelo e atrai a luz solar, fazendo com que toneladas de neve derretam prematuramente. Os ecologistas também argumentam que o crescente número de humanos na Antártida está a fazer subir os níveis de dióxido de carbono numa área do planeta que não está habituada a isso.

Uma foca-leopardo olha para cima, depois de tirar uma bela soneca num pedaço de gelo flutuante na Antártica (Jason Evans)

As empresas que operam navios de cruzeiro reconhecem que estão cientes deste impacto ambiental. Os passageiros recebem instruções detalhadas para não levarem alimentos ou outros contaminantes vindos de fora para as expedições na Antártida. São também orientados a nunca se deitarem na neve, bem como a manter a distância dos animais, para evitar que bactérias e vírus humanos contaminem a vida selvagem.

Os países que desenvolvem atividades turísticas e investigação na Antártida assinaram aquele que é conhecido como o Tratado da Antártida. O documento define que ninguém deve construir estruturas permanentes naquele território para fins turísticos. Dito de outra maneira, não há hotéis na Antártida. Recentemente, a IAATO começou a monitorizar o consumo de combustível pelos navios de cruzeiro na região. E alguns operadores estão agora a recorrer à propulsão elétrica sempre que possível para reduzir as emissões de fuligem e de dióxido de carbono.

Nunca houve tanta forma de aceder ao continente

As empresas de cruzeiro investiram milhares de milhões de dólares nos últimos anos em navios de luxo construídos especificamente para este destino.

Tanto o Seabourn Pursuit como o seu navio irmão, o Venture, contam com um luxuoso spa, nove restaurantes e oito “lounges” e bares para os cerca de 250 passageiros a bordo. Cada uma das 132 cabines tem grandes portas de vidro e uma varanda, que permite aos viajantes ficarem no exterior a verem passar, sem qualquer obstáculo, os majestosos icebergs.

Se pagarem um extra, os passageiros podem reservar lugar num dos submarinos a bordo ou explorar as águas da Antártida num caiaque. Os passageiros não precisam de se preocupar com as baixíssimas temperaturas, uma vez que recebem roupas projetadas especificamente para mantê-los aquecidos e secos enquanto caminham entre os pinguins e as focas.

Nos últimos tempos, surgiu uma nova categoria de viagens para a Antártida.

Os operadores – incluindo a Celebrity, a Norwegian e a Princess – oferecem agora pacotes “exclusivamente de cruzeiro”, que permitem aos passageiros ver a Antártida sem pisar aquele que é um terreno frágil e intocado.

A vida selvagem é uma grande atração nos cruzeiros pela Antártida (Jason Evans)

Estas visitas, de uma forma geral, envolvem barcos maiores e são, tipicamente, mais acessíveis. A IAATO refere que, em 2017, cerca de sete mil passageiros visitaram a Antártida num cruzeiro deste tipo. Na última temporada, esse número ultrapassou os 43 mil, uma subida acima dos 500%.

“Estas linhas tradicionais oferecem uma forma mais acessível de viajar para a Antártida, mesmo que o passageiro não desembarque no continente”, confirma Colleen McDaniel da Cruise Critic. “Embora não consiga ver pinguins e focas tão de perto, em comparação com o que aconteceria num desembarque, vai conseguir observá-los à mesma. Também poderá avistar baleias e muitas variedades de aves”.

Seja num dos novos e sofisticados barcos de luxo ou num pacote só de cruzeiro, uma viagem para a Antártida é sempre uma oportunidade de ver um outro mundo. Um outro mundo com a beleza majestosa dos icebergs e dos glaciares, a que se juntam os passeios brincalhões dos pinguins. E uma coisa é certa: nunca foi tão fácil visitar este outro mundo.

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