Dois anos depois, especialistas alertam que o sofrimento não acaba com fim da pandemia

Agência Lusa , CE
16 mar, 07:27
Depressão (Pexels)

Faz esta quarta-feira dois anos que se registou a primeira morte por covid-19 em Portugal

A pandemia de covid-19, ainda que esteja perto do fim, vai continuar a causar sofrimento e os problemas psicológicos permanecerão durante muito tempo, alerta o psicólogo Tiago Pereira.

Dois anos depois do início da pandemia, quando as restrições estão de novo a ser aliviadas, e que especialistas admitem que o fim da pandemia está próximo, o responsável avisa: "não se julgue que tudo volta ao normal com o fim da pandemia".

“As consequências da pandemia não terminam quando a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarar o fim da pandemia”, afirma o responsável, acrescentando que depois virão os “lutos não resolvidos”. “Estivemos numa crise muito significativa e as energias vão-se esgotando. A capacidade de adaptação não é ilimitada. Foi muito tempo a viver em incerteza”.

Tiago Pereira, coordenador do gabinete de crise covid-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), em entrevista à Lusa salienta que neste processo de sequelas psicológicas relacionadas com a pandemia as mulheres são um dos grupos mais vulneráveis, porque mais expostas a fatores de risco.

E os jovens também, acrescenta, explicando que muitos deles viram interrompido o percurso natural de viver com os pais e depois tornarem-se autónomos. (Engrossando hoje os números da geração “nem-nem”, nem a estudar nem a trabalhar, que em 2018 representavam 12% dos jovens portugueses).

O responsável insiste na necessidade de não se pensar que com o fim da pandemia “será tudo um mar de rosas” nem que todos os problemas se resolvem.

“Terminando a pandemia mantém-se algum tipo de sofrimento” e esse “fim” tem de ser muito bem explicado, porque “o pior que pode acontecer é dizer que acabou tudo sem uma certeza científica disso”, alerta o responsável, dizendo que já com a vacinação se criou a ilusão de que tudo terminaria, o que não aconteceu.

Ainda assim “fomos capazes de resistir durante dois anos de pandemia”, estamos a ser desafiados na capacidade de nos adaptar e temos de estar preparados para alterações”, diz Tiago Pereira, salientando como fator “muito positivo” o nível de confiança dos portugueses nas instituições, o que foi demonstrado na grande adesão às vacinas.

Portugueses têm sido uma “sociedade muito resiliente”

Ana Patrícia Hilário, socióloga, investigadora auxiliar no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, concorda. Esta elevada adesão deve-se em primeiro lugar “ao elevado grau de confiança nas instituições de saúde e nos profissionais de saúde”, diz à Lusa.

E reforça: "a confiança nas instituições é baseada em dados quantitativos. Portugal é dos países com mais confiança nas instituições de saúde e nos profissionais de saúde".

Essa confiança surge no nível de adesão dos portugueses às vacinas, em geral, mas também às vacinas contra a covid-19.

Ana Hilário sabe do que fala porque integra um projeto de âmbito europeu, que começou antes do surgimento do novo coronavírus, que provoca a doença covid-19, sobre a hesitação perante a vacina (projeto VAX.TRUST), seja o adiamento seja a recusa. Além de Portugal fazem parte a Finlândia, Bélgica, Polónia, República Checa, Itália e Reino Unido.

“A Comissão Europeia já tinha (antes da covid-19) esta preocupação com a recusa da vacinação”, pelo que surge a proposta de um projeto para tentar compreender melhor o processo, diz a investigadora à Lusa.

E acrescenta: “o que sabemos é que Portugal já tem uma taxa de cobertura vacinal de cerca de 90%, com imunidade de grupo para várias doenças. E sucedeu o memo com a covid-19”.

Ana Hilário salienta que para estes resultados, e para a confiança nas instituições, há razões históricas.

“As gerações mais velhas lembram-se de como era antes de se iniciar a vacinação em Portugal. Recordam-se de doenças como sarampo, como a tuberculose, e percebem as consequências, que incluem a morte”, salienta Ana Hilário.

E essa confiança nas instituições está aliada a outra característica da sociedade portuguesa, “de coesão para o bem comum”. “Somos mais ´familiaristas´ do que individualistas, ao contrário de países como o Reino Unido. Esta coesão quando existem crises tem a ver com uma cultura própria”, salienta.

Ana Hilário admite que “as pessoas sentem algum peso” em relação a tanto tempo de pandemia, mas diz também que os portugueses se têm adaptado e que têm sido uma “sociedade muito resiliente”, que quer levar “isto a bom porto”, o que se sente na forte adesão às vacinas.

“É normal a adaptação, mas tem a ver com características históricas em que somos adaptáveis. Quando nos mudam as regras adaptamo-nos, a História mostra-nos isso, Portugal sempre foi um país rural e na ruralidade há sempre grande adaptabilidade”, diz a investigadora.

Mas há uma crítica que deixa, sobre a polarização que diz notar-se na sociedade portuguesa em relação às vacinas, com “uma condenação muito grande” aos que não se querem vacinar, sobretudo no espaço público, que passa por alguma agressividade.

Ana Hilário avisa que é normal as pessoas terem opiniões diferentes, e diz que é fundamental que se comece a viver com mais liberdade, não só em relação às medidas restritivas mas também no respeito pelos outros e pelas suas liberdades de escolha.

E deixa outro aviso, o da importância de um debate sobre alterações comportamentais em relação ao mundo atual dominado pelas alterações climáticas.

Nestes dois anos, afirma, fez-se algum debate mas não foi o suficiente, como também não foi suficiente o debate sobre a importância da ciência e do aumento dos financiamentos, até porque “a ciência teve um papel fundamental na pandemia”.

A verdade é que, diz, se não se fizer esse debate, sobre a ciência, as alterações climáticas, a relação com os animais, dentro de alguns anos pode surgir outra pandemia. É agora o momento, diz, de pensarmos o que podemos nós fazer para a evitar, e não ficarmos só a responsabilizar os governos.

Passam hoje dois anos sobre a primeira morte por covid-19 em Portugal.

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