De repente há mísseis e drones no ar num conflito que ameaça escalar, incluindo para as nossas carteiras. O preço do petróleo já está a subir e a seguir vêm os combustíveis. Se ficar pior, isso pode mesmo significar inflação e tudo o que ela acarreta. Antes de pensar em tudo isso, ou então já quando está a pensar nisso, saiba que há formas de lidar com o problema
Ansiedade, sensação de impotência, frustração e sentimento de culpa. É natural que, por estes dias, oscile entre estes sentimentos e emoções. Afinal, “grande parte da nossa estabilidade psicológica baseia-se na expectativa de continuidade”, observa à CNN Portugal a psicóloga Diana Costa Gomes. “Acreditamos que amanhã será semelhante a hoje. E a guerra rompe com essa expectativa.”
O cenário repete-se pelas televisões e redimensiona-se nos ecrãs dos telemóveis: explosões, caças e drones, mísseis a cair dos céus. É o que estamos a ver desde sábado, com uma troca de disparos incessantes a envolver Estados Unidos, Israel e Irão, mas com muitos outros países a serem apanhados nas sobras de uma guerra que ameaça escalar.
O algoritmo das redes sociais alimenta-nos o consumo "impulsivo" de informação, num "doomscrolling" infinito, muitas vezes vulnerável à desinformação. Ao mesmo tempo, antecipam-se as inevitáveis consequências económicas da guerra, com a previsão da subida generalizada dos preços que pode afetar tudo, desde a gasolina que colocamos no carro até ao crédito à habitação, se o pior cenário se vier a verificar.
Perante tudo isto, “é importante reconhecermos que é natural estarmos com medo, estarmos em estado de choque e até ficarmos meio desconcertados e desconcentrados”, afirma Sofia Ramalho, bastonária da Ordem dos Psicólogos, salientando a importância de aceitarmos estes sentimentos, validando-os e expressando-os de alguma forma.
Estes sentimentos provocam-nos, muitas vezes, questões existencialistas - de repente, percebemos que "o mundo não é totalmente previsível nem totalmente controlável" e somos confrontados com "os limites do nosso poder", numa sensação de falta de agência sobre o nosso futuro.
"Nós não podemos parar uma guerra individualmente e isto gera frustração e impotência", explica a psicóloga Diana Costa Gomes, acrescentando que também é comum, nestas situações, haver quem se sinta culpado por continuar com a sua "vida normal" quando há uma guerra em curso. Aqui, é importante sublinhar que "é possível sermos empáticos, mas sem nos destruirmos emocionalmente a nós próprios", vinca a psicóloga.
"Cuidar da nossa saúde mental não é indiferença", sublinha Diana Costa Gomes. Pelo contrário, acrescenta, é isso que nos permite "lidar" com o que se passa à nossa volta "de forma mais estável, mais consciente e saudável".
Para as psicólogas ouvidas pela CNN Portugal, gerir esta ansiedade passa, desde logo, por focar-nos no que podemos efetivamente controlar - a nossa rotina e o nosso autocuidado.
Eis algumas estratégias para gerir a ansiedade em tempos de guerra
Limitar a exposição de notícias e procurar fontes credíveis. É importante estar informado, mas a exposição contínua e “quase compulsiva” a conteúdos violentos e notícias com carga negativa gera “uma falsa sensação de controlo” e “aumenta o sofrimento”, estando associado a “hipervigilância, pensamentos catastróficos e sensação de emergência” constante, explica a psicóloga Diana Costa Gomes. As psicólogas sugerem, por isso, a definição de horários específicos para se informar, evitando a exposição de notícias antes de dormir e procurando fontes confiáveis e credíveis.
Manter a rotina e o autocuidado. Não deixe de cuidar de si e de fazer o que mais gosta. Manter os nossos hábitos diários - a rotina do sono, de alimentação, de exercício físico e outras tarefas regulares - reforça a sensação de maior controlo, segurança e previsibilidade.
Planear e priorizar o essencial. Situações de incerteza económica podem provocar aquilo a que as psicólogas designam como "ansiedade financeira", que se caracteriza pela preocupação constante e excessiva com o dinheiro. Nestes casos, a recomendação, mais uma vez, é para que se foque no que consegue controlar. "Podemos antecipar alguns comportamentos, por exemplo, repensar o nosso orçamento familiar, planear as compras de forma mais cuidada e priorizar o que é essencial", aconselha Sofia Ramalho.
Exercícios de “regulação fisiológica”. Em situações de ameaça, o nosso corpo fica mais rígido e mais tenso, e, por isso, é importante praticar exercícios simples de autorregulação, como “respirações lentas, exercícios de grounding (uma estratégia de autorregulação que consiste em sentir os pés no chão, por exemplo), relaxamento muscular”, enumera Diana Costa Gomes, descrevendo estes exercícios como “sinais de segurança para desligar o alarme”.
Manter as relações sociais. É importante manter as ligações emocionais e sociais com aqueles que nos rodeiam, como familiares, amigos ou colegas de trabalho, por exemplo. Partilhar estas preocupações com os grupos pode trazer uma sensação de alívio e de comunidade - mas esteja atento a eventuais “alarmismos”, que podem ter o efeito contrário.
Procurar ajuda profissional. Há casos em que a ajuda profissional é mesmo essencial. Situações como "pensamentos intrusivos constantes" que interferem no nosso dia-a-dia, alterações do sono ou casos de "evitamento extremo" de tudo o que esteja relacionado com este tema são sinais de alerta a que devemos estar atentos. Em situações de crise, deve ligar para o Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24.