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Como André Ventura pode ajudar Gouveia e Melo a ser Presidente

18 set 2025, 08:00
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O país prepara-se para assistir nos próximos meses a mais um capítulo da marcha triunfal de André Ventura até ao cargo de primeiro-ministro. A candidatura à Presidência da República é só mais uma etapa de uma estratégia que passa, essencialmente, por estar em campanha eleitoral permanente. 

Sou daqueles que acham que, à data de hoje, André Ventura preferia não ser candidato a Belém. Mas não foi sempre assim. Há um antes e um depois das últimas eleições legislativas. Um antes e um depois de o Chega se tornar o segundo partido com maior representação parlamentar. É verdade que, antes da última crise política, Ventura se preparava para anunciar a sua candidatura à Presidência da República, com toda a pompa, circunstância e fogo de artifício, porque entendia que precisava desse palco para chegar onde realmente quer — e porque Gouveia e Melo lhe deu um “chega para lá”. O problema é que nas últimas legislativas o Chega queimou etapas e ficou mais perto do poder. 

O palco de uma campanha presidencial deixou de ser fundamental para André Ventura. Mas os riscos de não avançar seriam muito maiores. O maior de todos era o de deixar que o eleitorado do Chega se dispersasse por outras candidaturas, e não apenas para a de Gouveia e Melo. E que um candidato fraco ficasse atrás de Cotrim Figueiredo. 

André Ventura leu o problema e percebeu que só tinha uma solução: transformar este dilema numa oportunidade, sem perder o foco do seu verdadeiro objetivo. É isso que explica que a apresentação da candidatura tenha passado do Mosteiro dos Jerónimos em fevereiro deste ano, para a sede do Chega em setembro. E é isso que explica que, na sua apresentação como candidato, André Ventura tenha dito que “estas eleições são uma forma de liderar a oposição”. Ventura não quer que os eleitores o imaginem como Presidente e, por isso, estas eleições são para a Presidência da República, mas até podiam ser para a Associação Recreativa Cucujães. A única coisa que André Ventura quer é fazer delas rampa para chegar a São Bento. 

Os próximos meses demonstrarão isso mesmo. Ventura, o candidato presidencial, há-de apresentar um governo sombra, fará campanha ao lado dos candidatos do Chega às próximas autárquicas e ainda estará no debate do Orçamento do Estado, como líder da oposição que é. 

Numa confusão total entre papéis, a suposta independência e a equidistância que se exigem a quem deseja ocupar o cargo de Presidente da República interessam tanto ao eleitorado do Chega, como as mentiras, as gaffes e os crimes praticados no partido. André Ventura faz de tudo isso picadinho para hambúrgueres porque sabe que, nesta fase, ele é quase inimputável politicamente. 

No discurso de apresentação da candidatura, Ventura deixou muito claro qual é o objetivo: passar à segunda volta. Reparem que ele nunca disse que queria ser o Presidente de todos os portugueses. Ele só quer a “vitória” de passar à segunda volta. E é aqui que se levanta uma das grandes questões destas presidenciais: quem tem mais a ganhar e quem tem mais a perder com a entrada de Ventura na corrida?

Há três certezas que os eleitores podem ter nestas presidenciais: a primeira é que, quando olharem para o boletim de voto, há pelo menos um candidato que não quer ser Presidente; a segunda é que, numas eleições com tantos candidatos, dificilmente alguém vencerá à primeira volta; e a terceira é que, para ser o segundo candidato mais votado, pode bastar pouco mais de 20% dos votos. 

Com isto, não estou a dar por adquirido que seja André Ventura a ir à segunda volta, apenas a constatar que há uma grande probabilidade de isso acontecer, caso ele consiga segurar os votos do Chega, não os deixando fugir para Marques Mendes ou para Cotrim Figueiredo, por exemplo. A confirmar-se este cenário, isso significa que Henrique Gouveia e Melo ficará ainda mais dependente do campo político onde se afirmou desde o início: o centro. Dito de outra forma, o PS de António José Seguro e o PSD de Marques Mendes. 

Só secando este campo político e indo buscar votos à abstenção é que Henrique Gouveia e Melo poderá aspirar a uma segunda volta. E, se, quando lá chegar, encontrar André Ventura como adversário, há dois fatores que podem tranquilizar o Almirante: o primeiro é que a taxa de rejeição do líder do Chega é grande; o segundo é que nenhum líder partidário quererá apoiar Ventura numa segunda volta. Se assim for, Gouveia e Melo será o próximo Presidente da República. 

Mas e se não for André Ventura a ir à segunda volta? Quem apoiará o Chega? Marques Mendes? António José Seguro? “Só se eu estivesse maluco”, respondeu Ventura numa entrevista. E é nestas alturas que eu gostava de ser mosca para ter estado à mesa do almoço entre Gouveia e Melo e André Ventura em Torres Vedras. 

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