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Seguro e Passos: a dupla (improvável) de oposição a Montenegro

7 abr, 08:00

Não é preciso ligar a televisão. Basta que precise de ir a uma urgência, que fique com os filhos em casa por causa de mais uma greve de professores ou tenha o azar de cair nas teias da justiça portuguesa. Se tem um diferendo com o fisco ou com a Segurança Social, saberá, seguramente, do que estou a falar. Se quiser abrir uma empresa, meta-se na fila e não perca tempo a ver as notícias. Se for agricultor e lhe prometeram apoios por causa dos incêndios ou das tempestades, não precisa de mais exemplos. E se é proprietário de uma casa que ficou sem telhado na zona centro, este texto também não lhe será estranho.

A sensação de que neste país nada funciona está a generalizar-se de forma perigosa. Nas últimas décadas, anunciaram-nos planos tecnológicos, simplexs, vacas voadoras e reformas do Estado, e muita coisa mudou, de facto. Menos a tormenta que é ser um cidadão em Portugal.

O efeito bola de neve arrastou muitas áreas do setor privado. A burocracia, os serviços públicos a rebentar pelas costuras e a falta de uma estratégia económica para o país levaram na enxurrada os privados que nunca faturaram tanto com a ineficiência do Estado, mas também nunca tiveram tanta dificuldade em dar uma resposta capaz.

Se precisar de um pedreiro, de um electricista ou de um canalizador, saberá do que falo. Se for a uma urgência num hospital privado, espera na mesma, mas a pagar mais. E se tiver de acionar um seguro, que pagou diligentemente durante anos, lembrar-se-á de porque é que vive em Portugal.

Esta ideia de um Estado furioso a regulamentar e impiedoso a cobrar, mas relapso e incompetente a entregar, tem vindo a cavar um fosso cada vez maior e mais profundo entre quem governa e quem é governado. Aumenta o clima de desconfiança, cria ainda mais ressentimento e está a tornar-se um barril de pólvora com pavio curto.

Tornou-se um lugar comum — ainda assim, verdadeiro — atribuir o crescimento das forças populistas a este descrédito a que os partidos políticos e os governos têm condenado as instituições. Vale a pena ligar a televisão para acompanhar a novela das nomeações para o Tribunal Constitucional? Ou acompanhar aquele esfuziante congresso do Partido Socialista onde se refletiu aprofundadamente sobre… nada? Vale a pena acompanhar esse debate estruturante para a vida do país em torno das bandeiras que devem estar hasteadas nos edifícios públicos? Não vale a pena. Se é para assistir a novelas mexicanas com dobragem em português do Brasil, antes assistir ao circo que André Ventura e os seus companheiros proporcionam.

Será injusto imputar, na totalidade, este estado da arte ao Governo de Luís Montenegro. Seria muito mais fácil se conseguíssemos identificar o momento e o Governo responsável pelo inferno em que se tornou a vida dos cidadãos. Mas não. O processo de degradação foi lento e prolongou-se durante décadas. Pelo que nenhum Governo, por mais reformista que seja, conseguirá cumprir tamanho caderno de encargos em apenas uma legislatura — e, muito menos, sem uma maioria parlamentar que o suporte. 

É preciso ter em conta que uma economia sem ambição está, naturalmente, muito mais exposta aos choques externos que, como se tem visto, têm tendência para ser cada vez mais graves e mais frequentes. Isso dará a qualquer Governo uma janela muito mais curta para reformar o Estado e tende a transformar o primeiro-ministro e os seus ministros em bombeiros que andam permanentemente a tentar apagar fogos sem água.

Montenegro, no entanto, parece ter-se convencido de que o seu mandato só começou agora, em 2026. Os dois primeiros anos foram uma espécie de ensaio geral, marcados por jogadas táticas políticas consecutivas que, todas juntas, se resumiram a um único propósito: ganhar eleições. O que o primeiro-ministro parece ter esquecido é que o seu estado de graça, que já não era grande, esfumou-se. Luís Montenegro até conseguiu ganhar as segundas legislativas — sem maioria — e as autárquicas, perdeu as europeias com honra e deu as presidenciais aos pardais. Mas, no entretanto, aos olhos dos eleitores, a brincar a brincar, já é primeiro-ministro há dois anos. E, dois anos depois, os problemas que o país tinha, no mínimo, estão na mesma, quando não se agravaram. A geopolítica mundial complicou-se tremendamente, a ameaça de uma recessão global voltou a pairar e os fenómenos atmosféricos só têm tendência para serem mais graves.

É neste contexto que surge o novo Presidente da República. Na sua primeira presidência aberta, António José Seguro foi para o terreno com um bloco de notas para perguntar aquilo que já sabe: que o Governo não está a ser capaz de dar resposta. Começou com as vítimas das tragédias dos incêndios, passará pelos lesados das tempestades, mas acabará, ainda este ano, na saúde.

Aproveitando o estado de graça que uma votação de mais de três milhões de eleitores lhe deu, o Presidente promete ser uma espécie de esponja do descontentamento e da desilusão de uma parte significativa do país. E, desta vez, António José Seguro tem pressa. Primeiro, porque sabe que, entre uma época de incêndios que se aproxima e uma crise económica que pode vir aí, não se avizinham tempos fáceis para o Governo. Mas também porque Seguro sabe que nunca, como agora, vai ter tanto poder.

Na ausência de uma oposição capaz, o Presidente da República junta-se a Pedro Passos Coelho na pressão sobre o Governo de Luís Montenegro. Mas os riscos, para Seguro e para Passos, não são exatamente comparáveis. Pedro Passos Coelho fala de um pedestal onde não tem nada a perder, pelo contrário, ainda pode vir a beneficiar dos inconseguimentos deste Governo. Já António José Seguro pode estar a construir uma bomba relógio que lhe pode explodir nas mãos se, daqui a um ano, todos os seus alertas forem ignorados e se nada acontecer. O que fará, então, o Presidente que durante a campanha defendeu que os governos devem ser responsabilizados por aquilo que não cumprem?  Quanto valerá a palavra do Presidente, no médio prazo, se nada acontecer?

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