opinião

Podem começar a governar o país? Por favor?

5 jan, 19:06

Os nove meses de gestação desta maioria absoluta foram tão complicados que a sobrevivência do Governo chegou a estar em causa. E a culpa foi do pai. António Costa, o primeiro-ministro que nunca sonhou com este “filho”, negligenciou-o ao ponto de correr o risco de ficar na história como o primeiro governante a desbaratar uma maioria absoluta que os eleitores lhe deram, na esperança de que, com isso, ele pudesse fazer o que precisa de ser feito.

Sete anos depois, o primeiro-ministro parece já não ter muita paciência para aturar a política doméstica, mas sente-se claramente amarrado, não apenas à vontade dos eleitores, mas também ao Presidente da República que sinalizou, desde o primeiro dia, que não se chama Jorge Sampaio. 

A constituição do Governo foi feita aplicando a lei do menor esforço. Agarrado ao mantra das políticas de continuidade — mesmo que falhadas —, Costa não se quis chatear muito. Começou por despachar os poucos “chatos” que o contrariavam e lhe diziam o que pensavam, manteve os fiéis que o idolatram ou que não têm onde cair mortos e, com o taticismo que lhe é conhecido, manteve algemado no Governo o único, dentro do PS, que já anda a correr em pista própria há alguns anos. 

Agora que Pedro Nuno Santos fica completamente livre — e já não pode anunciar aeroportos a torto e a direito —, mesmo que faltem ainda muitas explicações políticas para a trapalhada da TAP — nomeadamente de Fernando Medina —, António Costa teve direito a mais uma vida dada pelo Presidente da República. O que é que fez? Mais uma remodelação mixuruca, bem ao jeito do grande líder que gosta pouco dos que o possam ofuscar. 

Quatro anos parecem uma eternidade em política, mas o Presidente da República tem toda a razão: o ano de 2023 é absolutamente crítico para o futuro do país. E António Costa, desta vez, não tem desculpas. 

Depois de uma governação de mercearia com o Bloco e o PCP, agora que tem uma maioria absoluta nas mãos e toneladas de dinheiro a jorrar de Bruxelas, o primeiro-ministro tem todas as condições para apresentar uma visão para o país — se é que a tem —, para encetar as reformas adiadas há décadas e para nos provar que é merecedor da maioria que recebeu. 

Com exceção da estratégia orçamental, da redução da dívida pública e do controlo do défice — dois elementos absolutamente críticos para a sustentabilidade da economia portuguesa —, António Costa demorou seis meses a perceber que a Saúde precisava de novos protagonistas e, sobretudo, de mais competência e menos ideologia. 

Um ministério como o da Saúde, que recebe 13 mil milhões de euros por ano e que não consegue cumprir as suas mais elementares funções — como a de assegurar cuidados de saúde dignos, ter um modelo de organização que o torne eficaz e tratar bem os seus profissionais —, é um ministério politicamente incompetente. Dizer que o que se passou na Saúde em 2022 é um casinho é apenas um insulto aos portugueses. 

Um ministério como o da Segurança Social, que andou durante sete anos em negação sobre a sustentabilidade do sistema de pensões e que só agora vai começar a estudar o tema — mais uma task force —, enquanto a inversão da pirâmide demográfica se vai acentuando a cada dia que passa, é um ministério que só serve para distribuir esmolas e alimentar o eleitorado socialista. 

Um ministério da Justiça — já agora, alguém deu pela nova ministra nos últimos nove meses? — que está completamente paralisado e refém dos lóbis, não é um ministério, é um mistério. 

Um ministério da Educação, que depois de décadas a maltratar os professores, pagando-lhes mal e obrigando-os a serem migrantes dentro do seu próprio país, que continua completamente agrilhoado pelos sindicatos, é um ministério que continua a ter como ministro o senhor Mário Nogueira.

Podíamos continuar por aqui fora — pela agricultura, onde não mora uma ministra, mas uma figura de cera; pela economia, onde mora um teórico com mundo, mas sem qualquer poder político —, mas nunca mais saíamos daqui. 

Findos nove meses atribulados de gestação desta maioria absoluta, não sendo este o momento para fazer cair o Governo, não será o de lhe exigir que comece a governar? Sabendo nós, como sabemos, que a incompetência ao nível do casting político é grande, será possível exigir que o primeiro-ministro esteja à altura das responsabilidades? É que, não parecendo, Portugal continua a ser um país pobre, cheio de desigualdades e onde a criação de riqueza depende de políticas públicas inteligentes. E não, não temos de nos habituar a isto.

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