As polémicas em torno de dois dos ministros mais populares do Governo de Luís Montenegro têm gravidades e impactos diferentes. Mas têm uma coisa em comum: provocam desgaste. E o desgaste, em política, quando se acumula e se prolonga, torna-se uma espécie de slow cooking. Uma morte lenta, se Montenegro não tiver a capacidade de saltar da panela rapidamente.
Comecemos por Luís Neves. Depois de dois tiros no pés — Margarida Blasco e Maria Lúcia Amaral —, o primeiro-ministro escolheu, finalmente, alguém à altura de uma pasta que é sempre difícil, como é o caso da Administração Interna. Luís Neves é um voluntarista competente. Tem o conhecimento, tem a autoridade sem precisar de ser autoritário, atira-se sem medo aos problemas, traz um currículo invejável à frente da Polícia Judiciária e ainda beneficia de alguma simpatia por parte da comunicação social. O facto de ter poucos filtros na comunicação tanto pode jogar a seu favor, como o pode prejudicar. Mas, inquestionavelmente, tornou-se numa das estrelas do Governo.
A polémica que se abateu sobre ele não parece ter — para já — grande gravidade, ainda que demonstre alguma ingenuidade por parte de alguém que já foi diretor nacional da Polícia Judiciária. E a comunicação de crise também não foi brilhante. Mas enfim. A não ser que apareçam novos factos que compliquem esta história, não me parece que Luís Neves tenha de cair por causa das obras que fez numa casa do Alentejo. Ou da relação de amizade que mantém com o empreiteiro.
Mas é preciso não esquecer que esta é a segunda polémica em torno de Luís Neves no espaço de poucas semanas. Primeiro foi o SIRESP, agora as obras no Alentejo. E o verão ainda nem vai a meio.
O caso dos exames, que envolve Fernando Alexandre, é bem mais complicado. Desde logo, por aquilo que representa: a quebra de mais um elo de confiança entre os cidadãos e o Estado. É o futuro de milhares de alunos que está em causa — e, com isso, não se brinca. Se juntarmos os pais e os professores, rapidamente percebemos que estamos a falar de um universo relativamente grande de eleitores.
Claro que as entropias, as falhas e as dificuldades fazem parte de qualquer processo de transição, mas é para isso que temos responsáveis políticos: para fazer a avaliação dos riscos e tomar decisões políticas informadas.
Já o escrevi — e reafirmo — que Fernando Alexandre é um dos ministros mais competentes deste Governo, mas isso não o torna — nem a ele nem a ninguém — à prova de bala. O que está a acontecer com os exames nacionais este ano não podia ter acontecido e, independentemente das explicações que possam ser dadas — e ainda falta dar muitas —, o responsável político máximo é o ministro.
Neste, como em muitos outros casos, a comunicação de crise voltou a ser um desastre. O ministro começou por insinuar que os pais dos alunos foram irresponsáveis em marcar férias para esta altura do ano; depois desdobrou-se em entrevistas pelas televisões, criando uma cacofonia de declarações sem conseguir passar qualquer mensagem clara; para depois acabar com o porta-voz do PSD a falar pelo ministro, juntando confusão absolutamente desnecessária a uma história que já era, de si, bastante confusa.
Deixem-me usar um parágrafo para assinalar, a este propósito, um padrão: PSD e PS, que andam há mais de 50 anos a alternar no poder, continuam a ser uns amadores na forma como comunicam. E, pior, acham que são uns génios.
Aqui chegados, estas duas novas polémicas a envolver Fernando Alexandre e Luís Neves podem não matar, mas moem. No mínimo, corroem a credibilidade de um Governo que já estava com muitas dificuldades em conseguir afirmar e fazer avançar as suas políticas. E que, agora, começa a ver a sua competência questionada.
Na gestão de crises, o Governo não saiu por cima, até agora, uma única vez. No apagão, a resposta deixou muito a desejar; nos incêndios do ano passado, o PSD decidiu ir festejar para o Pontal; na tempestade Kristin, o Governo ficou a dormir.
Nas políticas, a reforma laboral ficou pelo caminho, a pensão social única foi salva pelo PS — nos termos do PS —, as leis da imigração e da nacionalidade ficaram mais a crédito do Chega do que do Governo, a saúde tarda em apresentar resultados, na justiça ninguém sabe o que é que a ministra anda a fazer, e a reforma do Estado, essa, ainda é muito pouco visível. Mesmo as descidas de impostos, de que o Governo e a AD tanto se orgulham, depois das cócegas que fizeram nos orçamentos das famílias o ano passado, já passaram à história.
Os próximos meses não prometem ser mais fáceis. Esta época de incêndios ainda é uma incógnita e, logo a seguir, vem o Orçamento do Estado. As contas — públicas e políticas — não são simples. Por um lado, porque os cofres do Ministério das Finanças já não estão tão forrados como estavam há dois anos e, portanto, já não será possível andar a distribuir dinheiro pelos vários setores da sociedade, como aconteceu em 2024 e 2025. Por outro lado, Chega e PS parecem cada vez mais interessados em prolongar o desgaste deste Governo, mesmo que o país tenha de entrar em 2027 em duodécimos. Mas eu suspeito que Luís Montenegro e Hugo Soares já fizeram estas contas todas. E sabem exatamente qual é o momento em que têm de saltar da panela.
