opinião

Porque é que a Alemanha não quer acabar com a guerra?

29 abr, 16:43

É neste ponto que estamos. A Alemanha, como a Áustria, a Holanda ou mesmo a Itália (a Hungria é um caso à parte) estão aflitas com a ideia de perderem o gás russo.

Em 2011, já o subprime se tinha transformado numa crise das dívidas soberanas, formou-se na Europa uma espécie de troika política – composta pela Alemanha, pela França e pelo arrogante presidente do Eurogrupo – com o único propósito de castigar severamente esses países do sul da Europa que só gostavam de sol, mulheres e copos, enquanto as formiguinhas do norte da Europa andavam a trabalhar para os financiar. 

A Alemanha da senhora Merkel e do senhor Schäuble, em particular, decidiu autonomear-se dona da Europa, pegou no chicote e só parou quando as vergastadas impostas à Grécia sangravam tanto que milhões de pessoas ficaram sem empregos, outras tantas passaram fome, outras ainda colocaram fim à vida por não terem meios para a viver. Ninguém me contou, eu vi – caixas multibanco sem dinheiro, a pobreza extrema e a humilhação a que o povo grego foi sujeito. 

Portugal, como bom aluno que sempre gostou de ser, levou as mesmas vergastadas, mas sem se queixar muito. Afinal, não tendo sido nós a criar a bolha imobiliária nos Estados Unidos, fomos nós que andámos durante anos a pedir emprestado o dinheiro que não tínhamos como pagar. Como diria José Sócrates, as dívidas não se pagam, vão-se gerindo. Até ao dia em que alguém vem cobrar.

Vem isto a propósito da tal troika europeia, liderada pela Alemanha, que tinha - diziam eles - como único propósito, salvar a união económica e monetária, receando que países relapsos, como o nosso, colocassem em causa toda a economia da União. A Grécia chegou mesmo a pensar sair da Zona Euro e a Alemanha, a partir de determinada altura, parecia até gostar da ideia, ao mesmo tempo que ia recusando a criação de eurobonds ou de qualquer outra medida de solidariedade europeia, que mostrassem ao mundo como uma Europa unida pode ser ainda mais forte. 

A gestão da crise que começou em 2008 e se prolongou até 2015, foi, provavelmente, o ato mais falhado de uma União Europeia que nunca recuperou bem desse abalo e que levou, mais tarde, ao Brexit. Uma União que parecia mais de conveniência do que de outra coisa qualquer, sempre liderada pela gigante Alemanha, dependente que é do mercado interno europeu para vender os seus carros e tudo aquilo que produz aos “parolos” do sul da Europa, manipulando, ao mesmo tempo, as instituições europeias para uma política externa que lhe fosse mais conveniente.

Foi assim com a Rússia e com Vladmir Putin, cuja ameaça à segurança do Ocidente se foi tornando cada vez mais evidente a partir de 2014. A Alemanha - como outros países - optou sempre por olhar para o lado. O carvão, o petróleo, mas, sobretudo, o gás que vinha da Rússia chegavam a preços muito mais competitivos do que se viessem de outros meridianos. Foi isso que levou à construção de um canal direto (Nordstream1) que ligava a Rússia à Europa, alimentando as necessidades energéticas das principais potências europeias. O facto de Putin se revelar, cada vez mais, um ditador sem escrúpulos, de andar em manobras militares, atos de provocação constantes e de estar a construir o maior arsenal nuclear do mundo, enquanto a Alemanha, a Holanda, Itália e outras potências europeias o andavam a financiar, nunca fez soar nenhum sinal de alarme. 

Se, por um lado, se faziam críticas mais ou menos veladas às ações militaristas de Putin (no Kosovo, na Síria, na Tchetchénia ou no Donbass), as excursões ao Kremlin iam-se sucedendo. O petróleo, o gás, os 144 milhões de consumidores no mercado russo, os investimentos milionários da oligarquia corrupta de Putin, falaram sempre mais alto do que a defesa da União Europeia, quer do ponto de vista da dependência energética, quer do ponto de vista político. 

Em 2022, que grande surpresa que foi para todos: Putin invadiu a Ucrânia, um país soberano com 44 milhões de habitantes, e ao segundo ou terceiro dia de guerra já estava a ameaçar com ataques nucleares. Que surpresa, ninguém estava nada à espera que um autocrata encartado, que anda há anos a sonhar com a reconstrução de um império czarista, fosse capaz de ir tão longe. 

As ações de Putin pareciam, no entanto, ter tido um efeito positivo: a União Europeia parecia voltar a falar a uma só voz, não apenas na condenação deste ato de guerra, mas também na necessidade de aplicar sanções ao regime de Moscovo. E, enquanto essas sanções pareciam afetar mais Putin do que a economia europeia, tudo parecia bem encaminhado. O problema surge quando essas sanções começam a virar-se contra os interesses alemães. 

E é neste ponto que estamos. A Alemanha, como a Áustria, a Holanda ou mesmo a Itália (a Hungria é um caso à parte) estão aflitas com a ideia de perderem o gás russo. O Banco Central Alemão estimou que fechar a torneira podia levar a uma queda do produto interno bruto alemão de 5 pontos, só este ano. Impensável para o governo de Berlim, que anda há dois meses a travar um acordo europeu para cortar uma das principais fontes de financiamento da guerra que Vladimir Putin está a travar. 

Como bom manhoso que é - e aflito que está com a economia interna -, Putin decidiu carregar um pouco mais na ferida e decidiu obrigar todos os que compram energia à Rússia a pagar em rublos. Que é o equivalente a dizer: se querem gás, têm de me financiar a guerra. 

Neste momento, algumas das maiores empresas energéticas da União Europeia preparam-se, segundo o Financial Times, para abrir contas num banco russo sediado na Suíça, aceitando assim as exigências de Putin. Algumas dessas empresas são austríacas, outras húngaras, outras ainda eslovacas e, por fim, alemãs. Em Itália, a ENI ainda está a ponderar. 

O tema é muito mais grave do que parece. Se estas empresas - se estes Estados - decidirem ceder às exigências de Vladimir Putin, isso terá duas grandes consequências: a primeira, e mais óbvia, é a de que a União Europeia vai dando apoio à Ucrânia com uma mão e à Rússia, com a outra, financiando o esforço de guerra que está a decorrer. A segunda é a de que a união que parecia existir no início deste conflito se desmorona, com todas as consequências no médio e longo prazo que isto pode ter. 

A Alemanha é aqui um país charneira. E, ou fica para a história como o país que, a expensas próprias, conseguiu ser um exemplo, contribuindo para o reforço da União Europeia, ou ficará, para todo o sempre, como um Estado egoísta, hipócrita, que é forte com os fracos e cobarde com os fortes. Berlim tem, nas suas mãos, a possibilidade de contribuir para um fim mais rápido desta guerra. Mas será que o vai fazer? Ou vai assobiar para o lado?

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