A dor ainda está a ser medida em lágrimas, abraços e perguntas sem resposta. Mas uma certeza ecoa entre todos os testemunhos: esta manhã, na Annunciation Catholic School, a infância e a fé foram alvejadas à queima-roupa. Pelo menos duas crianças morreram e 17 pessoas ficaram feridas
Na manhã desta quarta-feira, os sinos da Annunciation Catholic School, em Minneapolis, nos Estados Unidos da América, soaram como habitual. A missa juntava dezenas de crianças, dos seis aos 14 anos, com professores e pais, para assinalar o início do ano letivo. Poucos minutos depois, a igreja da escola transformou-se num palco de horror.
Um homem armado com três armas diferentes aproximou-se do edifício e começou a disparar através das janelas, diretamente contra as crianças sentadas nos bancos da igreja.
O que se seguiu foi um coro de tiros, gritos, correria e choro. E depois, o silêncio pesado. É assim que vizinhos, pais e alunos descrevem o tiroteio que deixou uma comunidade inteira em choque, matando duas crianças de 8 e 10 anos e deixando 17 feridos.
"O meu amigo salvou-me"
Weston Halsne, aluno do quinto ano, estava sentado a poucos lugares das janelas quando ouviu os primeiros disparos.
"No início pensei: ‘O que é isto?’. Depois ouvi outra vez e corri para debaixo do banco, tapei a cabeça. O meu amigo Victor salvou-me porque se deitou em cima de mim, mas foi atingido", contou Weston à WCCO, uma afiliada da estação televisiva CBS.
As duas crianças ficaram escondidas debaixo dos bancos durante cerca de dez minutos, até conseguirem sair para o ginásio, onde as portas foram trancadas. "Estava super assustado por ele, mas acho que agora está bem", continuou, referindo-se ao amigo ferido que foi levado para o hospital.
"Não podia acreditar que fossem tiros"
Bill Bienemann vive a poucos quarteirões da escola. Tão depressa não vai esquecer o som que ecoou dentro de casa, confessa à Associated Press.
"Foram dezenas de disparos, talvez cinquenta, ao longo de uns quatro minutos. No início disse a mim mesmo 'não pode ser, não é possível'. Mas era, eram tiros de verdade, tão fortes, tão repetidos".
A filha, Alexandra, estudou na Annunciation desde o infantário até ao oitavo ano. Quando soube do ataque não conseguiu conter-se: "estava a tremer e a chorar sem parar". O chefe disse-lhe para ir para casa. "Pensar que pessoas que conheço podem estar feridas ou até mortas deixa-me doente".
Crianças de uniforme a chorar nos braços dos pais
À porta da escola, os jornalistas testemunharam o caos da evacuação: crianças de uniforme verde-escuro a sair abraçadas aos professores em lágrimas. No espaço de minutos, os pais chegaram em desespero ao chamado "ponto de reunião".
Abraços apertados, choros convulsivos, mãos trémulas a segurar telemóveis. Michael Simpson chegou ao pé dos jornalistas a tremer. Acabava de descobrir que o neto Weston, de dez anos, tinha sido atingido por uma bala. Estava sentado junto às janelas no momento do ataque.
"Não sei onde é que está Deus", repete sem parar, em declarações à Associated Press.
Pat Scallen, vizinho e antigo aluno da escola, correu para o local assim que percebeu de onde vinham os tiros.
"Vi três crianças a sair. Duas estavam gravemente feridas, uma no pescoço, outra com o braço atingido. Não havia polícia ainda, nem ambulâncias, então fiquei com eles. Disse-lhes que não estavam sozinhos, que a ajuda vinha a caminho. Era o mínimo que podia fazer", conta à CNN.
Aubrey Pannhoff, um jovem estudante de 16 anos que esteve em missões religiosas com as crianças da Annunciation, não conteve a revolta em declarações à Associated Press.
"Eu só pergunto a Deus porquê isto. São apenas crianças. É muito difícil para mim perceber".
Uma missa de início de aulas transformada em massacre
A Annunciation Catholic School foi fundada em 1923. No último ano letivo tinha quase 400 alunos inscritos. Esta quarta-feira, a missa das 08:15 marcava simbolicamente o arranque de mais um ano escolar.
Foi nesse momento que o atirador, Robin Westman, um jovem de cerca de 20 anos, se aproximou, armado com uma espingarda, uma shotgun e uma pistola. Disparou dezenas de vezes contra o interior da igreja, atingindo crianças, pais e professores. Depois, tirou a própria vida atrás do edifício.
O Vaticano já se pronunciou. O Papa Leão XIV disse estar "profundamente entristecido" com as mortes e feridos do ataque. Enviou "condolências sentidas e a garantia de proximidade espiritual, sobretudo às famílias que perderam os filhos", segundo comunicado assinado pelo secretário de Estado, o cardeal Pietro Parolin.
A polícia fala em ato deliberado.
"Foi um ataque cruel e covarde contra crianças inocentes. É incompreensível disparar contra um grupo de crianças a rezar", afirmou o chefe da polícia local, Brian O'Hara.
No exterior, o cenário estava pintado de ambulâncias, dezenas de agentes federais, jornalistas e vizinhos incrédulos.
Entre os que corriam para a escola, houve quem se deparasse com a notícia mais dura: os filhos estavam entre os mortos. Outros, como Zuheir Safe, avô de uma criança ferida, só desejavam abraçar as crianças.
"É muito triste, isto não devia acontecer. As pessoas não deviam ter armas. Quando vir a minha neta só quero dar-lhe um abraço, só isso", afirmou, em declarações à CNN.
Este massacre junta-se a uma lista crescente de ataques em escolas e locais de culto nos EUA. O FBI está a investigar este caso como um ato de terrorismo doméstico e um crime de ódio contra católicos.
"É uma escola maravilhosa, um lugar de carinho e comunidade. Hoje ficou manchada de sangue", afirma Scallen, o vizinho que socorreu crianças.