Nunca o número de animais recolhidos tinha sido tão alto em Portugal. Em 2023, mais de 45 mil foram retirados das ruas

8 jul, 08:00

No ano passado foram recolhidos 45.148 animais pelos Centros de Recolha Oficial. Um número recorde que comprova uma tendência crescente, revela um relatório a que a CNN Portugal teve acesso. Mas nem tudo é mau. Há também cada vez mais pessoas a adotar animais

Nunca o número de animais recolhidos tinha sido tão alto em Portugal: em 2023, 45.148 animais foram retirados das ruas. Estes são dados oficiais revelados pelo último relatório do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) a que a CNN Portugal teve acesso. Mas o número real de animais errantes é muito, muito superior, com quase um milhão, entre gatos e cães, a maioria felinos.

Este estudo foi o primeiro Censo Nacional dos Animais Errantes realizado no país e estima que existam em Portugal Continental mais de 930 mil animais errantes (830.541 gatos e 101.015 cães). O trabalho foi desenvolvido para o ICNF e financiado pelo Fundo Ambiental.

Mas perante estimativas são os dados oficiais que contam. E o relatório do ICNF que analisa o número de animais retirados das ruas nos últimos cinco anos (desde 2019) mostra que foram recolhidos mais de 45.000 no ano passado, naquela que é uma tendência crescente: em 2022, foram recolhidos 41.994 animais, o que representa um aumento de 7,5%. Mas olhando para os últimos cinco anos a subida é mais dramática: 41,2%. 

Animais recolhidos  
2019 31 966
2020 31 339
2021 43 603
2022 41 994
2023 45 148

E há outro facto que não se pode ignorar nestes números: nem todos os municípios enviaram os dados ao ICNF: 15 municípios “não responderam” e 43 não “facultaram os dados”. Ou seja, o número oficial de animais encontrados na rua e recolhidos pode ainda ser mais elevado. Além disso, fora destes dados oficiais estão as associações e organizações que também acolhem animais. Tal como cidadãos anónimos que decidem adotar quando encontram um animal na rua. Pessoas como Sofia.

"Ela era minúscula e muito meiguinha"

Sofia nem precisou de ir ao Centro de Recolha Oficial para adotar um animal e, assim, evitou mais um número na lista dos animais abandonados. Em junho, o tio “encontrou num terreno perto da casa dele uma gata bebé. Ouviu miar, procurou e tirou-a do meio das silvas”, conta à CNN Portugal. Não havia sinal da mãe, nem de possíveis irmãos.

A gata acabou por ficar na casa da mãe de Sofia, na esperança de encontrarem o dono, mas “ninguém se queixou”. Por isso, através das redes sociais, começaram a procurar “um tutor”, sendo que Sofia avisou logo na publicação que ia ser exigente na escolha. “Ainda tentei que fosse adotada. Até apareceu uma pessoa, que eu não conhecia e, por algum motivo, não me transmitiu confiança.”

Talvez fosse o destino, mas Sofia admite que “já pensava voltar a ter um animal de estimação há algum tempo” e, depois, “ela era minúscula e muito meiguinha”. Não resistiu. Até o filho de Sofia se rendeu antes de decidir ficar com ela e batizou-a de “Nina”, como a "Nina" dos Da Weasel, segundo ele.

A primeira ida ao veterinário já aconteceu e Nina terá no máximo dois meses. “Passei de uma ‘pessoa de cães’ para ‘uma pessoa de gatos’”, brinca Sofia. No passado, antes do filho nascer, também levou para casa dois cachorros bebés, irmãos, que encontrou na rua e adotou. “Um dia a mãe deixou de aparecer e eles ficaram sozinhos”, recorda. “Na altura o veterinário disse-me que ‘mais um dia na rua e provavelmente teriam morrido’”, recorda Sofia.

Cada vez mais pessoas adotam animais

Apesar do número dramático de animais recolhidos das ruas, 2023 também trouxe boas notícias. Em comparação com o ano anterior, registou-se uma subida de 24% das adoções de animais em Centros de Recolha Oficiais. O ICNF acredita que esta acontece “possivelmente devido à adoção em detrimento da compra ser um tema cada vez mais discutido pela sociedade civil, e também justificada pela grande sensibilização por parte dos municípios e associações zoófilas, com feiras de adoção, divulgação de vídeos, campanhas publicitárias, entre outros”. 

Animais adotados  
2019 18 187
2020 20 664
2021 25 474
2022 24 721
2023 30 424

Maria Guadalupe Mira é médica veterinária e tem um consultório na freguesia da Ajuda, em Lisboa. A existência de um cada vez maior número de pessoas a adotar é uma realidade que já conhece: "Sim, essa opção tem crescido". E não são só pessoas que vão aos Centros oficiais. "Também há pessoas que trazem ao consultório animais que encontraram na rua", explica à CNN Portugal. "Infelizmente, alguns já têm outros animais e não podem ficar com mais nenhum e levam-nos depois aos centros de recolha. Mas há outros que optam por ficar com os animais."

Quais os municípios que recolhem mais animais?

No pós-pandemia houve um aumento do abandono de animais, o que também acaba por estar espelhado na enorme subida da recolha de 2020 para 2021. Todavia, o próprio relatório do ICNF, a que a CNN Portugal teve acesso, admite que o número de recolhas também “poderá ser consequência do aumento da capacidade de resposta dos municípios, nomeadamente justificado pelo aumento no número de CRO ou do número de lugares nesses centros, o que naturalmente resulta no aumento da captura de animais errantes”. Mas não é uma certeza.

Olhando para os municípios com mais animais recolhidos em 2023, há seis que se destacam neste relatório, com valores acima das mil recolhas.

Municípios com mais animais recolhidos em 2023  
Lisboa 1451
Figueira da Foz 1451
Vila Nova de Famalicão 1180
Évora 1144
Cascais 1101
Santo Tirso 1052

Lisboa tem sido nos últimos anos um dos municípios com mais animais recolhidos, no entanto, devido ao facto de ser um grande centro urbano é expectável que assim seja. Questionada pela CNN Portugal sobre um possível aumento de abandono de animais nos últimos anos a Câmara Municipal de Lisboa ressalva que "entre 2018 e 2023, face ao número de animais entrados e o número de animais restituídos aos seus detentores (por se encontrarem perdidos), não existe uma variação significativa, sem prejuízo das situações pontuais de acumuladores de animais". Ou seja, podemos concluir que uma parte dos animais recolhidos na capital estão perdidos dos donos.

A CNN Portugal quis ainda saber se a capacidade do Centro de Recolha Oficial tinha sido aumentada nos últimos anos, mas a última vez que isso aconteceu foi "em 2014", segundo resposta oficial da autarquia. No entanto, a Câmara adiantou que a Casa dos Animais de Lisboa (CAL) está "em obras de ampliação e, dentro em breve, a capacidade de alojamento para canídeos vai crescer com 27 novas boxes". Uma boa notícia para os que ainda se encontram nas ruas.

"Nunca houve tantos animais abandonados"

Apesar dos números mais recentes serem muito elevados, este não é um problema recente e quem trabalha na área sabia que isto poderia acontecer e que ainda há muito para fazer.

Em entrevista à CNN Portugal no ano passado, Laurentina Pedroso, Provedora dos Animais assumia o problema dos abandonos no pós-pandemia. Nesse período registou-se um aumento das adoções, mas logo depois dispararam os abandonos.

"As pessoas não adotaram por gostarem verdadeiramente dos animais ou terem empatia com os animais. Foram uma ajuda. Uma vez que o problema deixou de existir, passaram a ser um peso e não um verdadeiro companheiro, membro da família", afirmava então Laurentina Pedroso. "Aquilo que era uma vantagem, que era as pessoas poderem vir à rua e 'passear o cão', passou a ser mais uma tarefa no dia a dia da correria das pessoas. Chegam do trabalho e ainda têm de passear o cão às dez da noite", disse na entrevista à CNN Portugal.

Sem esquecer a questão monetária. Às vezes, "gastamos com eles o que não gastamos com as pessoas". Tratamentos, medicamentos. "São preços muito altos". Nos dias que vivemos "quantas pessoas têm dinheiro para deixar os animais nos hotéis próprios?", questionava a provedora. "Ter um animal começa a ser um luxo hoje em dia", lamentava Laurentina Pedroso. 

Já em 2022 (pós-pandemia), Luísa Barroso, da União Zoófila, também numa entrevista à CNN Portugal alertava que não se lembrava de tantos animais abandonados como após o período pandémico. “Nunca houve tantos animais abandonados como agora. Recebemos dezenas de pedidos de pessoas que encontraram animais, já não só em Lisboa, mas de toda a parte do país.”

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