Seis anos depois continua por resolver o mistério deste animal "completamente novo e diferente"

CNN Portugal , FMC
8 ago, 12:51
Casper, o polvo pálido (Fonte: NOAA Office of Ocean Exploration and Research)

Janet Voight, especialista em polvos, relembra o momento da descoberta da espécie singular como prova do "pouco que se sabe sobre o fundo do mar"

Um polvo diferente dos demais foi encontrado nas profundidades do Oceano Pacífico há seis anos: o animal de cor pálida e com pequenos tentáculos foi descoberto em 2016 e suscitou grande interesse dos investigadores e ainda hoje é um mistério por desvendar. 

O primeiro vislumbre deste animal ocorreu nesse ano nas águas do Havai, a 4,1 quilómetros de profundidade. Para a equipa de investigadores, a descoberta foi marcante. Nunca ninguém tinha visto um cefalópode assim e muito menos tão fundo no oceano. 

Pelo desconhecimento da espécie, não foi lhe dado ainda nenhum nome científico oficial - chamaram-lhe simplesmente "Casper" pelas semelhanças ao pequeno fantasma da banda desenhada. 

Para a investigadora Janet Voight, curadora da zoologia invertebrada do Museu Nacional de História de Chicago, nos EUA, encontrar Casper foi extraordinário. “Isto é completamente novo e diferente”, lembrou este ano em entrevista ao The Guardian

Casper, de aparência singular, motivou logo diversos mistérios, como a sua cor pálida. A maioria dos outros polvos tem cores definidas que se podem alterar rapidamente e que servem como proteção no contacto com os predadores, através da camuflagem. Mesmo em profundidade apresentam-se com alguma cor. Alguns são mais escuros, possuindo um manto negro que esconde brilhos de organismos bioluminescentes que agarram os seus tentáculos, impedindo que predadores sejam alertados para sua presença. Voight sugere que a cor pálida de Casper pode dever-se à carência de pigmentos na alimentação. 

Outro dos mistérios por desvendar é o tamanho dos tentáculos, mais pequenos que os de outros polvos. Contudo, tal não é tão raro como a cor, podendo ser uma consequência do habitat. “Quanto menos profundo ou mais superficial for o polvo, quanto mais tropical for, mais longos e finos serão os braços”, nota Voight.  

Ainda assim, o tamanho dos braços não tem uma justificação científica exata. Para a curadora, a explicação pode advir da diferença entre os vários cefalópodes em agarrar a comida. Para os que habitam as profundidades, a tática de alimentação pode ser uma alternativa à comum – que consiste em esticar os longos tentáculos. Estes podem preferir envolver todo o corpo na comida, colocando a boca em contacto direto com o alimento.  

Esta espécie desconhecida interessou a diversos investigadores e levou a que analisassem arquivos de filmagens de um período de cinco anos do lado sombrio do Oceano Pacífico. Aí encontraram dezenas de animais parecidos ao polvo fantasma, de duas espécies diferentes.  

“Pode querer dizer que são bastantes comuns”, destaca Voight. “É apenas um indicador do pouco que conhecemos do que está lá em baixo.”

Desta investigação resultou ainda a descoberta que refutou uma teoria da curadora. Voight acreditava que os polvos do fundo do mar necessitariam de rochas duras para colocar ovos, facto que não se verificou nos polvos pálidos. Esta espécie foi vista com os seus braços envoltos na sua ninhada em esponjas no fundo do mar. Uma explicação apontada é a escassez de rochas duras nas profundidades.  

"Casper demonstrou que há formas de contornar isso, encontrando um caule de esponja", diz. "Será isto um avanço na evolução do polvo?"

Por enquanto, estes animais marinhos continuam a ser analisados, uma vez que tudo o que se sabe até agora vem das imagens. Para um conhecimento mais pormenorizado, é necessário que se proceda à recolha de um espécime. “Com um polvo é realmente necessário ter um na mão”, conclui Voight.

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