Matilheiro com 70 cães de caça é suspeito de maus-tratos, enfrenta vários processos em tribunal e cede animais para recolhas de sangue
Numa pequena localidade do Alto Alentejo, em Lavre, Montemor-o-Novo, um alegado caso de maus-tratos a dezenas de cães de caça está a levantar dúvidas sobre o negócio do sangue animal em Portugal.
No centro da polémica revelada pelo Exclusivo da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal) está Francisco Almeida, matilheiro responsável por cerca de 70 cães usados em caçadas ao javali. Os animais encontram-se instalados num terreno arrendado pela Associação de Caçadores e Pescadores do Sul Amigos da Natureza e são alvo de várias denúncias apresentadas por moradores da vila.
O caso já motivou uma investigação do Ministério Público por alegados maus-tratos a animais, uma queixa-crime por alegadas ameaças a vizinhos e uma ação judicial relacionada com o ruído provocado pelos cães.
Mas a investigação do Exclusivo detetou uma situação que levanta dúvidas: vários destes animais são utilizados como dadores de sangue para um banco de sangue animal privado que, segundo as contas mais recentes, ultrapassou 1,4 milhões de euros de lucro líquido em 2024.
Segundo moradores de Lavre, tudo começou em agosto do ano passado, quando foram informados de que seria criado um “canil” na zona. Só mais tarde descobriram que o espaço iria receber cerca de 70 cães.
“Caiu-nos o teto em cima”, conta uma vizinha, que participou num abaixo-assinado subscrito por cerca de 120 pessoas contra a instalação do alojamento de animais.
Os cães chegaram em outubro e os moradores começaram a relatar ruído constante e situações que consideraram incompatíveis com o bem-estar animal. Fotografias e vídeos mostravam cães fechados em carrinhas e jaulas de transporte durante períodos prolongados.
As imagens acabaram por desencadear uma reação das autoridades e deram origem a uma vistoria no local.
Vistoria encontrou irregularidades
Na inspeção participaram representantes da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), GNR, ICNF, junta de freguesia, câmara municipal e moradores.
Embora o relatório da veterinária municipal não tenha identificado sinais imediatos de maus-tratos, foram apontadas falhas nas condições de alojamento, higiene e bem-estar animal, com recomendação de “melhorias urgentes” para evitar “sofrimento futuro”.
Segundo a procuradora do Ministério Público, todas as entidades presentes detetaram irregularidades. A procuradora determinou posteriormente a retirada de animais, embora persistam dúvidas legais sobre a forma de o fazer, já que os cães estão registados em nome do matilheiro.
Até agora, a autarquia conseguiu esterilizar cerca de 20 cães e retirar vários cachorros considerados em situação de risco.
Francisco Almeida nega quaisquer maus-tratos e sustenta que os animais são acompanhados por um veterinário.
Questionado sobre cães com feridas, orelhas danificadas ou lesões, o matilheiro afirmou que essas marcas resultam da atividade de caça em mato e silvas.
O veterinário João Fragoso, responsável pelo acompanhamento dos cães, confirma que os animais desta matilha apresentam “boa condição corporal” e “não apresentam sinais externos de maus-tratos”.
Já voluntários e moradores apresentam uma visão oposta.
Um voluntário do canil municipal relatou ter visto um cão cego e outros feridos, com sinais de agressões entre animais.
Barracão usado para recolhas de sangue levanta dúvidas
Durante a reportagem do Exclusivo da TVI, surgiu uma nova questão: os cães investigados por alegados maus-tratos estavam a ser utilizados como dadores de sangue para o Banco de Sangue Animal (BSA), uma das cinco empresas privadas licenciadas pela Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).
Francisco Almeida confirmou que as recolhas eram feitas no próprio terreno onde os animais estão alojados. Em troca diz receber desparasitação, medicação, microchips e outros apoios veterinários.
As recolhas eram realizadas pelo veterinário João Fragoso, que colabora com o banco de sangue há quatro anos.
Segundo o próprio, era possível recolher sangue de “20 a 30 cães por dia”, dependendo do comportamento dos animais.
Imagens captadas durante a reportagem mostram um barracão utilizado para as recolhas de sangue. O matilheiro, a mulher e o veterinário confirmaram que é um dos locais utilizados para as retiradas de sangue canino.
Confrontada com as imagens de um barracão exíguo, sem sinais de esterilização e onde se encontram vários cães e uma ninhada, a diretora de operações do Banco de Sangue Animal recusou qualquer comentário.
Érica Rebelo assegurou, no entanto, que os cães dadores têm de cumprir critérios rigorosos: mais de 20 quilos, bom estado de saúde, ausência de doenças e comportamento cooperante. Explica que o BSA analisa o sangue doado de forma criteriosa, em laboratório, para garantir a qualidade do mesmo.
Para o bastonário da Ordem dos Médicos Veterinários, o grande problema é a subjetividade da legislação. “É preciso definir melhor quais são os locais onde podem ser feitas as colheitas. Eu posso entender que o procedimento é feito com esterilidade mas, se calhar, faço-o num sítio pouco digno para o próprio ato”.
Pedro Fabrica remata: “nós vamos, obviamente, enquanto órgãos dos médicos-veterinários, propor a atualização da lei a este nível”.
Menos tranquilo com as imagens que lhe mostrámos, ficou Nuno Paixão.
É veterinário e provedor do animal da Câmara Municipal de Almada.
Como cliente do banco de sangue animal, manifesta dúvidas éticas sobre a utilização de plasma proveniente de animais que podem estar a sofrer alegados maus-tratos.
“Custa-me que, ao comprar sangue a um banco de sangue, eu esteja a contribuir para que os animais continuem amarrados a uma corrente”, desabafa.
Empresa privada de sangue animal lucrou mais de 1,4 milhões
De acordo com os resultados financeiros publicados, o Banco de Sangue Animal registou um crescimento acentuado dos lucros entre 2021 e 2024.
No último relatório de contas apresentado, em 2024, a empresa com apenas 30 trabalhadores ultrapassou 1,4 milhões de euros de lucro líquido.
Cada saqueta de sangue vendida às clínicas e a veterinários pelo banco de sangue pode custar entre 250 e 350 euros. Para o cliente final, a conta pode superar os 400 euros. E convém recordar que o início desta cadeia começa, alegadamente, numa dádiva.
A empresa garante que as equipas externas são prestadores de serviços, pagos através de avenças mensais e afirma nunca ter recebido qualquer queixa relacionada com o veterinário responsável pelas dádivas dos cães de Francisco Almeida.
No decorrer da reportagem, o banco suspendeu a colaboração com os animais da matilha “Pôr do Sol”.
Entretanto, no processo relacionado com o ruído, o Tribunal de Montemor-o-Novo já tomou uma decisão: condenou Francisco Almeida a cessar a atividade de alojamento dos cães naquele terreno.
O matilheiro dispõe de 45 dias para cumprir a decisão judicial. Caso contrário, terá de pagar uma multa diária de 500 euros.
Cerca de 20 cães desta matilha já foram, entretanto, retirados e acolhidos por associações e abrigos onde recebem acompanhamento veterinário e socialização.
O futuro dos restantes animais permanece, no entanto, incerto.