Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

Um filme que vai à pesca de percebes para falar do impacto do turismo no Algarve pode ser o próximo nomeado português aos Óscares. "Understands?"

19 jan 2025, 18:00
Filme de animação "Percebes" (DR)

A curta-metragem de animação "Percebes", de Laura Gonçalves e Alexandra Ramires, é candidata a uma nomeação para os Óscares. Um pequeno grande documentário que dá voz às angústias das pessoas que vivem do mar e do turismo mas que mal conseguem ter tempo para ir à praia e dar um mergulho

Parecem umas garras. Ou umas chaminés algarvias. Uns bichos com cabeça alienígena. Com uma aparência estranha, os percebes são um molusco que cresce agarrado às rochas e que, dizem os apreciadores, tem sabor a mar. E são também os protagonistas de um pequeno filme português que, depois de já ter conquistado vários prémios, integra a shortlist para o Óscar de Melhor Curta-Metragem de Animação.

O anúncio dos nomeados foi adiado para dia 23 por causa dos incêndios que têm devastado a Califórnia e a cerimónia, apesar de todas as incógnitas, está marcada para a noite de 2 de março. Até lá, é permitido sonhar. As realizadoras Laura Gonçalves e Alexandra Ramires não perdem muito tempo a pensar nisso, mas não escondem a satisfação. “É inegável que a partir do momento em que há uma nomeação o filme tem uma visibilidade bastante grande e que nos abre portas, nomeadamente para continuarmos a fazer os filmes que queremos fazer”, diz Alexandra Ramires numa conversa com a CNN Portugal. “Só estar nesta lista é muito especial e já nos permitiu um nível de visibilidade que é importante”, acrescenta Laura Gonçalves.

A ideia para o “Percebes” surgiu numa das muitas conversas que tiveram no estúdio de animação Bando à Parte, no Porto. “Todos trazemos as nossas experiências e vivências”, conta Alexandra. “Falamos muito da cidade e de como ela está evoluir. Nos últimos dez anos as cidades sofreram imensas transformações.” Laura e Alexandra viram essa transformação em Lisboa, onde estudaram Belas Artes, e veem-na agora no Porto, onde moram. Qual é o futuro destas cidades? Como é que as pessoas sentem estas mudanças? E, claro, a conversa levou-as até ao Algarve, onde Alexandra cresceu. “Se queremos falar de turismo e das transformações do turismo, esse é o lugar onde tudo começou.” 

Depois encontraram nos percebes o gancho perfeito para a narrativa que queriam contar: "visualmente é um objeto superestimulante para desenhar" e tem aquela graça de o nome ser também um verbo - nada de confusões ao traduzir para inglês, percebes diz-se "goose barnacles", understands?. "Mas também serve para caracterizar um sítio.” O filme começa no mar e acompanha o trabalho duro dos pescadores que os arrancam das rochas. Segue depois para o terraço onde os pescadores limpam os percebes enquanto comentam a sua vida. Para o mercado, onde os turistas se interrogam que bicho é aquele. Para os restaurantes onde os percebes concorrem com lagostas e camarões nas mesas dos turistas. Os percebes que resistem às tempestades do mar são como os algarvios que ficam quando o verão termina e dão mergulhos no mar frio do inverno. 

“Usámos uma metodologia de investigação que é a etnografia multissituada, ou seja, seguir um produto pelas suas várias etapas e ao mesmo tempo ir estudando o contexto social e económico”, explica Laura. “O mar e o percurso do bicho - é isso que aglutina aquela pessoas.” O filme acaba por ter várias camadas: um lado mais ligado ao percebes, explicar que bicho é este e falar dos pescadores; e, depois, a partir da cozinha do restaurante, introduz-se um outro lado, mais ligado à cidade e à relação com o turismo. Tudo isto contado em pouco mais de dez minutos, com desenhos em aguarelas e muita beleza.

"Percebes" foca-se no impacto do turismo no Algarve (Imagem DR)

Trabalhar em dupla, trabalhar em coletivo

Não é muito habitual ver filmes realizados por duas pessoas, mas para Laura Gonçalves e Alexandra Ramires “é tudo bastante orgânico”. Começaram a trabalhar juntas em 2010, num projeto de José Miguel Ribeiro, e depois integraram o Bando à Parte - BAP Animation Studios. Em 2017, realizaram juntas a premiada curta “Água Mole” sobre a desertificação de uma aldeia. Laura colaborou em “Elo” (2020), realizada por Alexandra, que ganhou o prémio Sophia de melhor curta e foi distinguida no Festival Internacional de Cinema de Chicago. E Alexandra colaborou em “O Homem do Lixo” (2022), a curta de Laura Gonçalves que há dois anos também chegou à shortlist para os Óscares.

“Temos o mesmo percurso, as mesmas referências, por isso a nossa comunicação é muito fácil”, explica Alexandra. “Há projetos que são mais pessoais e em que faz sentido ser só uma realizar, mas no geral isto é mais divertido a dois, dividimos trabalho, dividimos alegrias e preocupações.”

"Quando o filme é realizado a solo existem papeis mais definidos, mas quando é corealização não existe essa fronteira na parte mais artística, fazemos um pingue-pongue entre as duas, vamos sempre fazendo um bocadinho de tudo as duas, isso é o que torna isto interessante”, explica Laura. No caso de “Percebes” Alexandra ficou mais com a parte dos cenários e Laura mais com as personagens, mas as decisões foram sendo tomadas em conjunto. 

Laura Gonçalves e Alexandra Ramires, realizadoras do filme de animação "Percebes" (DR)

As realizadoras sublinham a importância de trabalhar com a equipa do BAP, em intensa colaboração: “Isso ajuda muito a conseguirmos ter uma continuidade no nosso trabalho, não estamos sempre a começar do zero, já existe alguma familiaridade com as pessoas e com as metodologias. Estamos com as pessoas com que gostamos de estar, é como família”, diz Laura.

"Somos uma cooperativa de autores, tentamos trabalhar nos filmes uns dos outros e esta lógica de entreajuda entre autores é muito importante", sublinha Alexandra. No 'Percebes', David Doutel e Vasco Sá "tiveram um papel crucial como produtores e são pessoas com quem fomos tendo conversas e que foram fazendo com que tivéssemos as condições todas para fazer o filme como ele é hoje".

É de animação, mas é documentário

Os filmes de Laura Gonçalves e Alexandra Ramires começam geralmente com o trabalho no terreno. De gravador em punho, vão entrevistar as pessoas e captar os sons. Neste caso, filmaram partes da pesca, mas de uma maneira geral limitam-se a gravar som: “Sem câmaras apontadas, as pessoas ficam muito mais descontraídas a falar.” Podem fazer desenhos no momento ou pedir para tirar fotografias no final, só para ter referências que as ajudem depois a construir as personagens. Mas é o som que comanda a narrativa.

Ainda que não usem imagem real, para as realizadoras é claro que estamos perante um documentário. O documentário de animação não é um género muito comum entre nós, mas é fascinante ver o que se consegue fazer nesta área. “Usamos as vozes e os testemunhos reais”, explica Laura. E depois há um trabalho de interpretação da realidade. Uma das vantagens da animação é que lhes permite “abordar outros temas e contar histórias que a imagem real muitas vezes não consegue”, explica Laura. Além disso, “a animação permite explorar as metáforas, a poesia visual. Há até uma conexão internacional que foge à imagem real, as pessoas conectam-se com imagens simbólicas".

Ao mostrar o filme no estrangeiro, Alexandra e Laura tiveram algum receio que “as pessoas não acreditassem que aquele bicho existia mesmo”. Mas os espectadores têm reagido bem. “Sobretudo acho que se reveem na questão do turismo, mesmo que seja no outro lado do mundo”, considera Laura. “E há pessoas a quem a questão do turismo passa ao lado, mas depois deixam-se levar pela animação ou pela estranheza do bicho, então parece que há aqui dois ou três caminhos que é possível uma pessoa abraçar ao ver o filme. Mas a verdade é que o filme tem tido recetividade internacional, apesar do tema local”, confirma Alexandra.

As personagens - pescadores, vendedores do mercado, empregados do restaurantes - são reais e têm vozes reais (Imagem DR)

“Percebes” tem ganho diversos prémios, em Portugal e no estrangeiro, tendo inclusivamente recebido o prémio de melhor curta-metragem do Festival de Cinema de Animação de Annecy. E agora está na shortlist para os Óscares. As autoras preferem não valorizar muito a possibilidade de o filme estar nomeado, mas admitem que é algo importante. “É incrível, mas ao mesmo tempo, enquanto realizadoras, também temos de promover bastante o filme para ser visto e às vezes este trabalho é tão intenso que temos medo que isso nos desvie do que mais gostamos, que é fazer filmes”, explica Laura. “Tem de haver um equilíbrio constante. O que nós queremos mesmo é fazer filmes e não nos podemos descuidar disso, independentemente de serem muito importantes estas validações.”

A verdade é que é muito difícil para um filme português, de animação e que ainda por cima é uma curta-metragem conseguir sair do circuito dos festivais e ser exibido nas salas comerciais. “É também por isso que os prémios são importantes”, reconhece Alexandra. “A nomeação do João [Gonzalez, com “Ice Merchants", em 2023] fez as pessoas deslocarem-se à sala para ver o filme. A nomeação ajuda, mas há um trabalho de educação de público e de valorização do cinema de animação e do formato curta que tem de ser feito. Estamos muito dependentes do marketing, quando devíamos conseguir mostrar os filmes sem isso.”

Apesar das dificuldades, a animação continua a ser o local onde Laura Gonçalves e Alexandra Ramires se sentem em casa. “Encontrámos aqui uma forma de nos expressarmos artisticamente, podemos abordar temas que nos interessam, temos a liberdade artística para o fazer, para explorar técnicas e modos diferentes  de contar histórias”, conta Laura.

Fazer animação “é uma coisa meio obsessiva porque não temos resultados rápidos, temos de estar apaixonados pelo filme que estamos a fazer, se for uma coisa que não nos diz muito não vamos aguentar quatro anos a pensar num projeto”, acrescenta Alexandra. “É muito demorado e até contraria um pouco os dias de hoje, onde tem de ser tudo muito rápido, para pôr no Instagram. E nós estamos aqui numa força contrária, a dizer calma, temos de conseguir viver, retratar o mundo e as pessoas de uma maneira que seja mais empática e com mais atenção a cada um de nós. Como diz uma frase do filme - isto é um ato de resistência. Para contrariar o mundo de hoje é preciso acreditar e felizmente temos pessoas que acreditam como nós.”

Os percebes vivem agarrados às rochas (Imagem DR)

 

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Artes

Mais Artes