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Dois russos vão a tribunal em Angola por suspeitas de orquestrarem revolta popular

CNN Portugal , MCN
24 mar, 12:26
PUTIN ANGOLA

Parcerias estratégicas entre o governo de João Lourenço e o Ocidente não caíram bem em Moscovo

Protestos contra o governo de Angola, campanhas de desinformação e tentativas de interferência nas eleições. Tudo isto, acredita a justiça do país, teve mão de dois cidadãos russos.

Uma investigação detalhada da BBC expôs recentemente os contornos de uma alegada operação da Rússia destinada a desestabilizar o governo de Angola e a interferir nas eleições presidenciais do próximo ano.

Os dois russos, Igor Ratchin Mihailovich e Lev Matveevich Lakshtanov, detidos em agosto de 2025, enfrentam, juntamente com dois cidadãos angolanos, 11 acusações, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influências.

A acusação, cujos detalhes foram obtidos pela estação britânica, sustenta que os suspeitos agiam sob a influência da Africa Politology, uma organização descrita como uma estrutura sucessora do Grupo Wagner - a força paramilitar que, durante anos, serviu os interesses do Kremlin em solo africano. Segundo o Ministério Público de Angola, o objetivo da missão era travar o alegado distanciamento do presidente João Lourenço da órbita russa, uma vez que este tem privilegiado, desde 2019, parcerias estratégicas com os Estados Unidos e a União Europeia.

"Isto é indicativo da ansiedade russa em relação ao rumo de Angola sob a administração Lourenço", afirmou Alex Vines, diretor do programa de África do think-tank European Council on Foreign Relations, à mesma fonte.

A acusação refere ainda que os russos contrataram os angolanos Amor Carlos Tomé, jornalista, e Francisco Oliveira, ativista político, para realizar as suas atividades no país. Estes enfrentam nove e cinco acusações, respetivamente, incluindo terrorismo, espionagem e tráfico de influências.

Através destes contactos, a operação teria injetado mais de 24 mil dólares no ecossistema mediático angolano para financiar campanhas de desinformação. A acusação revela que estas campanhas utilizavam páginas falsas nas redes sociais para disseminar narrativas alarmistas. Em janeiro de 2025, uma publicação numa página de Facebook que imitava o site de notícias local Angola 24 Horas avisava que o país poderia ser arrastado para a guerra na Ucrânia. Em dezembro de 2024, outra publicação criticava o Corredor do Lobito, um projeto ferroviário apoiado pelo Ocidente.

O Ministério Público de Angola acredita ainda que os suspeitos podem estar diretamente ligados à greve de taxistas ocorrida no final de julho do ano passado, em protesto contra a subida do preço dos combustíveis e o aumento das tarifas dos transportes públicos. O episódio resultou em atos de vandalismo e em pelo menos 30 mortos, 277 feridos e 1.515 detenções em todo o país. A acusação alega que os arguidos orquestraram os protestos, apontando para notas sobre as manifestações encontradas nos seus telemóveis e fotos tiradas pelos próprios suspeitos.

Fontes próximas da comunidade diplomática russa sugerem que Moscovo não tem pressa em ajudar os detidos. "A lógica é simples: estas pessoas não estavam a realizar tarefas oficiais do Estado, eram apenas contratados. A posição da Rússia no país já é fraca, por isso não vale a pena piorar as coisas", disse uma fonte à BBC.

O julgamento arranca esta terça-feira, após o Tribunal de Luanda ter rejeitado, em janeiro de 2026, todos os incidentes de nulidade levantados pelas defesas dos arguidos, confirmando a competência das instâncias nacionais para processar crimes de terrorismo e espionagem.

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