Tchizé dos Santos zangou-se com Portugal mas não criou novo "irritante" nas relações com Angola

12 jul, 22:30
Tchizé dos Santos

Os especialistas são unânimes: a entrevista da filha de José dos Santos à CNN Portugal, pródiga em acusações para Portugal e Angola, não fará azedar a relação entre dois países. Porque Tchizé dos Santos tem uma influência limitada e fala sem a própria família. Se tivesse sido a irmã Isabel a protagonizar esta polémica, reconhecem, a história poderia ser outra

“Sou cidadã portuguesa e não sinto segurança jurídica para estar em Portugal, porque o Governo português já baixou as orelhas ao governo de João Lourenço”. Nem Portugal escapou à fúria de Tchizé dos Santos na entrevista à CNN Portugal, com acusações de ingerência de um governo angolano “criminoso” na política portuguesa.

Mas, entre tantas imputações e um pedido de indemnização, tem a filha do antigo presidente de Angola capacidade para abrir um novo mal-estar na relação entre os dois países? Os especialistas na área das relações internacionais asseguram que não.

“As declarações de Tchizé dos Santos vão ser ignoradas. Ela não tem credibilidade junto das autoridades dos dois países. Os governos de Portugal e de Angola não vão ligar absolutamente nada. Tchizé dos Santos não representa ninguém, a não ser ela a própria. Nem sequer a própria família. Se a acusação fosse feita pela totalidade da família, isso já assumia uma posição diferente”, considera Fernando Jorge Cardoso, especialista em Assuntos Africanos.

“Somos um país que não leva estas coisas a peito. Não é uma declaração oficial do governo angolano”, atesta o embaixador Francisco Seixas da Costa.

“Irritantes” só entre Tchizé e Angola. Portugal fica a ver

Tomás de Castro, mais conhecido como Kissamá, viu a entrevista de Tchizé dos Santos com atenção. E reconheceu, nas palavras dela, a preocupação com temas da vida interna angolana, com destaque para a corrupção. “Os problemas internos devem ser resolvidos internamente. Ela quis envolver um terceiro país. Mas, neste momento, nenhuma das partes quer que a relação seja beliscada. As palavras dela não são suficientes para abrir um conflito, porque a relação entre Angola e Portugal é muito mais que interesses pessoais”, resume o ativista.

Kissamá recorda que João Lourenço dá continuidade, em Angola, à política iniciada por José Eduardo dos Santos. E que, por isso, as acusações de Tchizé dos Santos podem acabar por trazer, mesmo que de forma indireta, uma ideia negativa sobre o legado do próprio pai.

Já Fernando Jorge Cardoso insiste que a relação entre Portugal e Angola sempre foi cordial. Isto apesar de um adjetivo que as marcou profundamente: “irritante”. Era assim que eram conhecidas as disputas entre as justiças dos dois países sobre o processo judicial que envolvia Manuel Vicente, ex-vice-presidente angolano acusado de corrupção ativa de um procurador do Ministério Público português. Cada país insistia que o caso devia ser julgado no seu território. A disputa – cunhada pelo primeiro-ministro António Costa como um “irritante” nas relações bilaterais – só ficaria fechada com a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa de remeter o processo para Angola.

Agora, com a entrevista de Tchizé dos Santos à CNN Portugal, não há margem para novos “irritantes”. “Se há irritantes, é entre o governo de Angola e Tchizé dos Santos. Em Portugal, somos apenas espectadores”, sintetiza o embaixador Francisco Seixas da Costa.

A irmã Isabel

Se a entrevista tivesse sido dada por Isabel dos Santos, que Tchizé consideraria que seria “uma grande traidora” com a ida às cerimónias fúnebres em Angola, Portugal e Angola poderiam estar a discutir hoje um azedar nas relações diplomáticas.

“Tchizé dos Santos não era uma pessoa de confiança do próprio pai. Sempre foi distante daquilo que foram os interesses do pai e da família. Se essas palavras tivessem vindo de uma Isabel dos Santos, teríamos uma rutura. Quem efetivamente poderia beliscar os dois países seria Isabel dos Santos, com interesses em ambos”, acredita Kissamá.

Até porque a voz de Tchizé dos Santos, por muito que diga ter o apoio “da maioria” dos irmãos, é a única que se faz ouvir na esfera pública. “A atuação dela é uma atuação muito isolada. Ainda não vi nenhum irmão, por si, a posicionar-se contra [o funeral em Luanda]”, completa Fernando Jorge Cardoso.

Para o académico, Tchizé dos Santos está “sem querer, a fazer um favor a João Lourenço”, por considerar que o cenário de um funeral na terra natal irá trazer dissabores ao atual presidente angolano, com “manifestações a favor de José Eduardo dos Santos” durante as cerimónias públicas.

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