"Podia ter sido muito pior" mas a Dinamarca volta dos EUA num "profundo desacordo" sobre a Gronelândia

14 jan, 19:31
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, e a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, falam numa conferência de imprensa na Embaixada da Dinamarca, quarta-feira, 14 de janeiro de 2026, em Washington. (AP Photo/John McDonnell)

O tom pesado dos ministros de Dinamarca e Gronelândia já deixavam pouco a adivinhar: os Estados Unidos querem mesmo a Gronelândia, ainda que a Europa garanta que a defesa da maior ilha do mundo está salvaguardada

A Dinamarca quer aumentar a cooperação militar com os Estados Unidos, mas não aceita que a administração Trump anexe a Gronelândia.

Esse foi o ponto fulcral de uma reunião que devia ter servido para estreitar posições entre os dois lados, mas em que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Dinamarca saiu pouco satisfeito com os resultados produzidos do encontro onde também estiveram a homóloga gronelandesa, Vivian Motzfeldt, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.

Sempre apostado no diálogo e cooperação, Lars Løkke Rasmussen afirmou, à saída de uma reunião em solo norte-americano, que todos os lados estão empenhados em fazer mais.

“Viemos aos Estados Unidos depois de uma série de comentários sobre a Gronelândia”, lembrou o ministro à porta da embaixada do país nos Estados Unidos, marcando um tom de clara divisão com a administração Trump, referindo até que os europeus não conseguiram “mudar a visão” norte-americana.

E Lars Løkke Rasmussen nem sequer tentou esconder que essa divisão existe mesmo. Pelo contrário: “As nossas perspetivas continuam diferentes”, afirmou, garantindo que a Gronelândia está protegida pelo artigo 5.º da NATO, o que soou a um aviso na direção de Rússia e China, claro, mas também de Estados Unidos.

Embora tenha sublinhado uma discussão “franca e construtiva” com os representantes norte-americanos, o ministro dinamarquês entende que deve continuar a ser o país europeu a cuidar da Gronelândia, indicando que os atuais planos servem para defender o território.

“As ideias que não respeitem a integridade territorial da Gronelândia são totalmente inaceitáveis”, reiterou, falando mesmo num “profundo desacordo” em relação às visões de ambos os lados.

Nesse sentido, as conversações vão continuar, estando mesmo prevista a criação de um grupo de alto-nível para continuar a discussão. De acordo com Lars Løkke Rasmussen, uma nova reunião deve acontecer dentro de algumas semanas.

Embora admita que existe uma nova situação de segurança no Ártico, a Dinamarca também acredita que “não é necessário os Estados Unidos adquirirem a Gronelândia”. Em vez disso, defendeu, a cooperação deve ser o caminho escolhido por todas as partes.

Donald Trump não participou pessoalmente da reunião, mas preparou o terreno para a mesma, escrevendo pouco antes na rede social Truth Social: "Precisamos da Gronelândia por razões de segurança nacional. É vital para a Cúpula Dourada que estamos a construir".

De resto, e de uma conferência de imprensa com ar pesado, fica uma frase que pode ser a chave de tudo isto: “Não há uma ameaça imediata da China e da Rússia a que não possamos responder”.

Pode até ser verdade, mas dificilmente Donald Trump entenderá isso como suficiente, podendo alegar que essa ameaça existe mesmo e que a visão europeia está toldada, avançando definitivamente para a anexação da maior ilha do mundo.

Quanto ao que já vai correndo nos bastidores, um diplomata dinamarquês referiu à CNN que há um “otimismo cauteloso” depois deste primeiro encontro.

“Podia ter sido muito pior”, admitiu esta mesma fonte, referindo que não houve qualquer ultimato por parte dos Estados Unidos, mesmo tendo em conta a postura agressiva de Donald Trump em relação ao assunto.

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