O "milagre" de Manchester: este é o plano de Andy Burnham para mudar o Reino Unido

CNN , Hanna Ziady
20 jul, 09:04
O antigo presidente da Câmara de Manchester, Andy Burnham, celebra a sua vitória nas eleições suplementares de Makerfield, no Ashton Town Football Club, a 19 de junho. Christopher Furlong/Getty Images
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Enquanto o seu antecessor carecia de carisma, Burnham é um comunicador nato, descontraído e com uma capacidade invulgar para mobilizar as pessoas. Mas pela frente irá enfrentar vários problemas

O Reino Unido precisa urgentemente de recuperar o seu dinamismo. A economia enfrenta dificuldades, os serviços públicos estão sob forte pressão e a melhoria das condições de vida tem avançado a um ritmo muito lento nas últimas décadas. A instabilidade política tornou-se a nova normalidade e o estado de espírito nacional é sombrio.

Poderá uma saudável dose de esperança trazida por Andy Burnham ser o antídoto?

O antigo presidente da câmara da Grande Manchester, no noroeste de Inglaterra, Burnham tornar-se-á na segunda-feira o sétimo primeiro-ministro do Reino Unido em apenas uma década, depois de substituir Keir Starmer na liderança do Partido Trabalhista, atualmente no poder.

Prometeu ao país "uma nova era de possibilidades".

Enquanto o seu antecessor carecia de carisma, Burnham é um comunicador nato, descontraído e com uma capacidade invulgar para mobilizar as pessoas. É afável e bem-humorado — muito ao estilo das "piadas de pai" — e as suas escolhas de vestuário, entre o formal e o casual, tornam-no próximo das pessoas.

É também um político experiente, tendo sido deputado e ministro durante vários anos antes de trocar Londres por Manchester, em 2017. Agora pretende levar para a capital britânica e para o resto do Reino Unido o chamado "Manchesterismo", a sua visão de uma social-democracia favorável às empresas e assente num maior poder local.

"Vou dar à Reino Unido a mudança de rumo de que precisa", afirmou num discurso no mês passado, quando lançou a sua terceira candidatura, em 16 anos, à liderança do Partido Trabalhista.

Ao longo dos nove anos em que liderou a Grande Manchester, supervisionou uma região cuja economia cresceu a um ritmo aproximadamente duas vezes superior ao do conjunto do país.

A cidade está "irreconhecível" em comparação com aquela onde Lucy Ellison, gestora de um café de 33 anos, cresceu. Regressou há dois anos, depois de ter trabalhado durante 12 anos no setor da hotelaria e restauração nos Estados Unidos e em Amesterdão.

"Parece uma cidade completamente diferente", disse à CNN, destacando "as lojas de vinhos diferentes e as padarias independentes que antes simplesmente não existiam".

"Cartas de Amor a Manchester"

Emma Thackray, cofundadora da Hip Pop, marca de kombucha e refrigerantes sediada em Manchester, pretende construir uma marca global a partir do coração da cidade. Hip Pop

Bares de vinho, cafetarias especializadas e cafés modernos multiplicam-se numa cidade que transmite uma energia claramente otimista e ambiciosa. No mês passado, a Condé Nast Traveller distinguiu Manchester como o "destino gastronómico mais vibrante" do Reino Unido.

O dinamismo da restauração é uma das razões pelas quais a Hip Pop, uma marca local de refrigerantes e kombucha, conseguiu prosperar. A cofundadora Emma Thackray criou a empresa na cozinha de casa, em 2019, começando por vender os produtos em mercados no norte de Inglaterra.

Atualmente, a marca está presente na maioria das grandes cadeias de supermercados britânicas e é vendida em vários outros países europeus. Thackray pretende "construir uma marca global a partir do coração de Manchester", afirmou à CNN, enquanto elogiava as profundas mudanças registadas na cidade onde estudou na universidade há mais de duas décadas.

Numa rua do centro chamada Deansgate, a artista local Helen Davies, de 32 anos, trabalha na montra de uma loja numa coleção de pinturas intitulada "Cartas de Amor a Manchester", uma homenagem a um lugar "pelo qual continua a apaixonar-se", segundo a descrição exposta na montra.

Ali perto, umas escadas pintadas de cores vivas conduzem a Deansgate Mews, onde se concentra uma mistura eclética de restaurantes. Uma clientela jovem almoça ao sol ou trabalha concentrada nos computadores portáteis, fazendo parte de uma crescente geração de profissionais que se mudou para a cidade nos últimos anos, muitos deles vindos de Londres. O banco norte-americano J.P. Morgan inaugurou ali o seu primeiro escritório em 2023.

Manchester é mais acessível do que Londres e continua a oferecer restaurantes de elevada qualidade, uma vida noturna vibrante e uma oferta artística e cultural de excelência.

A cerca de dez minutos a pé de Deansgate Mews encontra-se o Aviva Studios, um enorme espaço cultural inaugurado em 2023, que acolhe atualmente uma importante nova exposição do artista chinês Ai Weiwei. O Aviva representa o maior investimento do Reino Unido num projeto cultural desde a abertura da Tate Modern, em Londres, no início deste século.

Fraser Millward conhece bem ambos os espaços. Depois de duas décadas a trabalhar no teatro e na organização de eventos ao vivo em Londres, mudou-se em 2021 para a organização responsável pelo Aviva Studios, a Factory International, onde trabalha como técnico.

"Manchester é outra realidade", afirmou à CNN. "Tem uma energia que não existe em mais nenhum lugar do Reino Unido. Há um entusiasmo verdadeiramente contagiante."

Uma transformação dramática

Manchester nem sempre foi assim. Antiga metrópole poderosa no centro da Revolução Industrial britânica do século XIX, a cidade encontrava-se em "declínio quase terminal" na década de 1980, recordou Richard Leese, que liderou o Conselho Municipal de Manchester entre 1996 e 2021.

A transformação da cidade ao longo de várias décadas foi impulsionada por um plano estratégico de longo prazo que assentou em parcerias entre empresas e o poder público para promover investimento em infraestruturas, competências e educação, explicou Leese à CNN. Após o atentado bombista levado a cabo pelo Exército Republicano Irlandês (IRA), em 1996, que destruiu grande parte do centro da cidade, foi desencadeado um vasto processo de reconstrução.

Richard Leese, na altura presidente da Câmara Municipal de Manchester, fala com a imprensa durante uma conferência de imprensa à porta do Bridgewater Hall, em Manchester, a 20 de outubro de 2020. Paul Ellis/AFP/Getty Images

Ao contrário do que aconteceu no resto do país, Manchester beneficiou também de uma liderança política estável, com o Partido Trabalhista a manter uma maioria esmagadora no poder local durante grande parte desse período, permitindo uma estratégia consistente de mudança.

"Uma das grandes lições que Manchester deu, quer na política cultural quer noutras áreas, é que pensar a longo prazo é essencial", afirmou John McGrath, diretor-executivo da Factory International.

Atualmente, Manchester atrai mais investimento estrangeiro do que qualquer outra cidade britânica fora de Londres e figura entre as 15 principais cidades europeias para investimento, segundo dados da EY e da agência regional Invest Manchester.

A cidade soube tirar partido do seu património industrial, transformando antigos armazéns e fábricas em modernos edifícios de apartamentos e espaços de trabalho partilhados. A Factory International presta igualmente homenagem à história cultural da cidade, inspirando o seu nome na Factory Records. A histórica editora discográfica de Manchester lançou bandas como os Joy Division e geriu a emblemática discoteca Haçienda, cujo antigo espaço é hoje ocupado por apartamentos.

Um futuro mais positivo

Embora o renascimento de Manchester tenha começado cerca de três décadas antes da chegada de Burnham, muitos atribuem-lhe o mérito de ter melhorado significativamente um sistema de transportes públicos que durante anos foi considerado irregular, deixando como legado a rede de autocarros amarelos "Bee".

Ainda assim, nem todas as zonas da Grande Manchester beneficiaram igualmente do sucesso da cidade. A região continua a apresentar "níveis relativamente elevados de privação face à média nacional", refere um relatório da administração local.

E, apesar de a experiência de Manchester demonstrar que a mudança é possível, também mostra que os resultados demoram tempo a surgir. Burnham poderá ter apenas três anos até às próximas eleições legislativas, que terão obrigatoriamente de decorrer até meados de agosto de 2029, o que levanta dúvidas sobre se terá tempo suficiente para enfrentar os inúmeros desafios económicos do país, entre eles o crescente peso da despesa social e o aumento do desemprego entre os jovens.

A sua capacidade para aplicar medidas destinadas a impulsionar o crescimento económico — como a reindustrialização, a construção de mais habitação social e um maior controlo público sobre serviços essenciais — estará igualmente limitada pela fragilidade das finanças públicas.

O próprio Burnham conhece bem o tempo e a persistência que as mudanças exigem, o que lhe deu uma enorme determinação para lutar por elas. A decisão de colocar a rede de autocarros de Manchester sob controlo público, por exemplo, enfrentou forte oposição das empresas privadas do setor e demorou vários anos até ser concretizada.

Manchester, por seu lado, também enfrentou enormes desafios na sua recuperação, desde elevados níveis de pobreza e desemprego até um sistema educativo frágil e infraestruturas degradadas. Segundo Leese, a transformação foi conseguida graças ao esforço consistente de "vários milhares de pessoas".

O antigo autarca destaca ainda outro fator essencial para o sucesso da cidade: o facto de Manchester "ter recuperado a confiança em si própria".

"As cidades que acreditam que conseguem fazer coisas acabam por fazê-las", afirmou. Na sua opinião, o Governo liderado por Keir Starmer e pela ministra das Finanças Rachel Reeves foi eleito "com a promessa de um futuro brilhante", mas depois "passou seis meses a dizer a toda a gente o quão mau estava tudo".

Também vários economistas consideraram que o Governo desperdiçou a onda de otimismo que se seguiu às eleições de 2024, uma oportunidade perdida que acabou por enfraquecer a confiança das empresas e travar o investimento.

Ainda assim, embora Burnham apresente uma visão muito mais otimista, "faltam detalhes", considera Paul Dales, economista-chefe para o Reino Unido da Capital Economics. Numa nota divulgada esta semana, afirmou que "o plano económico de Burnham não é particularmente encorajador", considerando que o seu diagnóstico dos problemas económicos britânicos é "demasiado limitado".

"Ele acredita que o problema reside na falta de poder dos governos locais e no facto de o Governo central não exercer controlo suficiente", explicou Dales. "Mas esses são apenas fatores secundários perante questões muito mais profundas, como o baixo investimento, a reduzida poupança, a fraca produtividade e o crescimento insuficiente, em dimensão e qualidade, da força de trabalho."

Richard Leese, pelo contrário, acredita que a postura otimista de Burnham acabará por dar resultados.

"A sua agenda assenta em mensagens de esperança e de um futuro positivo, e isso não é apenas retórica. É um elemento essencial para devolver às pessoas a confiança de que podemos, de facto, construir um futuro melhor", afirmou.

Uma Reino Unido cansado deposita agora essa esperança nele.

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