Folhetim de voto: Disparar sobre Ventura para acertar em Rio

7 jan, 06:30

Costa ouviu o que não queria sobre Justiça, Casa Pia e Sócrates, no debate com Ventura. Mas o socialista marcou pontos nesse frente-a-frente, em que disparou sobre Ventura para atingir Rui Rio,  defende o jornalista de política Filipe Santos Costa, na análise diária à campanha. Costa poderia ter esmagado Ventura? Essa é uma boa questão, e levanta outras... Faltam 23 dias para as eleições

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PóS. No PS já há quem fale no futuro pós-António Costa. E não é apenas Pedro Nuno Santos. Jorge Lacão, histórico deputado e dirigente, e antigo ministro socialista, está de saída do Parlamento e diz hoje ao Público que “o PS não deve criar obstáculos à governação” de um executivo minoritário do PSD, caso os sociais-democratas vençam as eleições. “Aquilo a que se chama viabilizar pode ser um acto de não-obstrução, a possibilidade de abstenção em momentos fundamentais. Entendo que a viabilização por esta forma poderia ser feita”, diz Lacão. Embora considere que “não é previsível esse cenário”, o antigo líder parlamentar socialista acaba por elaborar sobre o futuro pós-Costa, uma vez que o secretário-geral do PS já disse que se não vencer as eleições sai. Nesse caso o que deve fazer o PS? Costa deixa essa resposta para quem vier a seguir a ele. Lacão optou por não esperar.

 

Sem esmagar. “Porque é que Costa não esmagou Ventura da mesma forma que esmagou Jerónimo? Porque lhe interessa ter a direita civilizada mais fraquinha e alguma fuga de votos do PSD para o Chega pode evitar uma eventual vitória de Rui Rio? Tendo em conta que António Costa é um táctico, deve haver alguma táctica nisto”. As perguntas e a suposição da Ana Sá Lopes são a análise mais interessante que vi sobre o embate de ontem à noite entre os líderes do PS e do Chega. 

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O texto, no Público, pressupõe que Costa, se quisesse, poderia ter “esmagado” Ventura. Não é impossível, até porque as incoerências, os disparates, as mentiras e os rabos de palha de Ventura e do Chega são tantos que, com trabalho de casa bem feito, é possível encostá-lo à defesa, como fez Rui Tavares. E como fez António Costa, desmontando muitas das narrativas do Chega e de Ventura. Mas talvez seja demais querer uma vitória com “esmagamento”, perante um interlocutor tão histriónico, demagógico e inconsequente, que salta de provocação em provocação, sem interesse pela verdade ou pela coerência, num debitar constante de soundbites para encher o debate de ruído e toxicidade. E não é possível comparar um adversário com sangue na guelra como Ventura a um oponente em modo de pré-reforma como Jerónimo.

António Costa e André Ventura

Vitória. Costa não esmagou, mas venceu. Marcou pontos com as vacinas, a taxa única de IRS, os números do desemprego, desmontou a conversa dos “cargos políticos a mais”, sendo que Ventura se candidata a todos. Nesta avaliação, alinho com a maioria das notas dos comentadores da CNN Portugal (no Jornal da CNN, só o Sebastião Bugalho atribuiu a vitória a Ventura) e do painel do Expresso. Mas foi um debate em que o desempenho de ambos terá agradado às respetivas bases de apoio. 

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Sócrates e Casa Pia. Porém, se o que os apoiantes de Ventura gostam é do seu líder em versão matador implacável, a metralhar provocações o tempo todo e a confrontar os adversários com “verdades” (atente nas aspas), talvez tenham ficado um pouco decepcionados durante boa parte do debate - até aquele final bem quente, em que o tema da corrupção permitiu a Ventura atirar a Costa todos os embaraços do PS, da Casa Pia a Sócrates. Há boas hipóteses de tanto os socialistas como a gente do Chega passar o dia de hoje, como passaram a última noite, a partilhar fragmentos do debate nas redes sociais e a proclamar vitórias retumbantes.

 

Mal dormido. A bem do argumento, admitamos que Costa pudesse ter “esmagado” o candidato da extrema-direita, como aconteceu com Jerónimo de Sousa. Porque não o fez? Há sempre - como a própria Ana Sá Lopes admite - a possibilidade de ter dormido bem na noite anterior, e por isso não ter acordado do avesso (isto, para usar a patusca explicação de Jerónimo de Sousa para o que se passou no debate com o primeiro-ministro: o líder comunista diz que não percebe a crispação de Costa e admite que… “podia ter sido uma noite mal dormida, outra coisa qualquer”).

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A “utilidade” do Chega. Também pode ser por cálculo político, como a Ana Sá Lopes indicia. Não é ao espaço do Chega que o PS pode ir buscar votos - é à esquerda, onde os disputa com o PCP e o BE, e sobretudo ao centro, onde compete com o PSD. Quer num caso quer noutro, Costa tem toda a vantagem em bipolarizar a campanha com Rui Rio. Como? Apelando ao voto útil do eleitorado de esquerda (desta vez, com o argumento acrescido de o Governo ter sido derrubado pelo chumbo do Orçamento com os votos comunistas e bloquistas), e agitando, para o eleitorado do centro, com o risco de um entendimento do PSD com o Chega. 

Rio, com a sua proverbial azelhice e a sua calculada aproximação à extrema-direita, tem contribuído muito para que se possa agitar esse fantasma. O seu desempenho tíbio no debate com Ventura e a forma como tenta normalizar propostas do Chega como a prisão perpétua são um favor que faz à estratégia de Costa. O crescimento do Chega nas sondagens faz o resto. É hoje claro que Rio não poderá chegar ao poder sem a extrema-direita.

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Conspiração. Quero com isto dizer, como defendem alguns teóricos da conspiração à direita, que o PS tem favorecido o crescimento do Chega? Não. Vi sempre no PS a denúncia pronta das piores caraterísticas do partido de André Ventura, ao contrário de silêncios cúmplices e demarcações atrapalhadas que por vezes chegavam do PSD. 

 

Pressão sobre Rio. Mas há uma crítica que pode ser feita ao PS: a de que dá demasiada relevância ao Chega, empolando cada bojarda que sai da boca de André Ventura e cavalgando cada sinal de cumplicidade ou frouxidão do PSD em relação à extrema-direta. Ontem, o mantra de Costa não tinha a ver com o Chega, tinha a ver com Rio. Quando disse várias vezes a Ventura que “comigo o senhor não passa”, estava a fazer o contraste com Rio. Quando acrescentou “eu não estou aqui nem para o moderar nem para o mitigar”, era a Rio que Costa se referia. E foi ainda mais claro quando disse, no fim do debate: “O grande perigo dos partidos como o Chega é quando começam a ter capacidade de condicionar e influenciar os partidos democráticos. O senhor deputado André Ventura, que é bem falante, já conseguiu convencer o dr. Rui Rio de que a prisão perpétua não é bem prisão perpétua.”

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A “utilidade” do Chega. Ao puxar pelos riscos do Chega, o PS também contribuiu para a centralidade que esse partido ganhou no debate político em Portugal (em todo o caso, terá sempre menos culpas no cartório do que a comunicação social, que desde o princípio deu uma relevância desproporcionada ao partido da extrema-direita - e haverá um dia em que teremos de assumir as consequências disso). Quero com isto dizer que um Chega forte, capaz de roubar uma boa parte do eleitorado do PSD e de condicionar qualquer caminho dos sociais-democratas para o governo pode beneficiar a estratégia eleitoral do PS? Sim. Pode ter sido esse o cálculo de Costa para não ser mais violento do que foi com Ventura? Pode. 

 

Jerónimo out? Já se percebia que esta não será uma campanha como as outras para Jerónimo de Sousa. Quem esteve atento à campanha de 2019 também já tinha visto isso: um líder mais cansado, bastante envelhecido, em serviços mínimos de campanha e muito protegido pela máquina partidária. No último congresso, a especulação sobre a substituição de Jerónimo de Sousa fazia sentido, tendo em conta que este se tornou uma sombra do ativo eleitoral que foi no passado. Agora, em entrevista à Rádio Renascença e ao Público, o próprio secretário-geral do PCP admite que poderá ser substituído na liderança antes do próximo congresso do partido. A sua assunção de que “ninguém é eterno”, e a insistência na hipótese de algo “imprevisível”  é reveladora, bem como a frase que deixa sobre eventuais sucessores: “Há um conjunto de dirigentes do PCP que estão em condições de assumir mais responsabilidades”.

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Confinados. Faltam 23 dias para as eleições, e ainda não se sabe se - ou como - poderão votar os eleitores que estejam em confinamento no dia das eleições por causa da covid. A Comissão Nacional de Eleições veio ontem dizer o óbvio: o direito ao voto por cidadãos em isolamento está "constitucionalmente garantido". A questão é como assegurá-lo. A previsão mais impactante, que apontava para mais de 400 mil eleitores em isolamento no dia 30, pode não se concretizar, tendo em conta que a DGS já aliviou as normas de confinamento, mas haverá um número indeterminado, e elevado, de pessoas condicionadas nos seus movimentos. 

 

As propostas. O BE propõe que quem está em isolamento tenha um horário específico para votar, ao fim do dia, como já aconteceu na Catalunha e em Madrid - será legal, apenas se isso acontecer dentro do período de votação que está previsto na lei (até às 19h). O CDS defende que se vote em dois dias, o que seria manifestamente ilegal. O PAN não quer que os confinados vão às mesas de voto - prefere mais urnas ao domicílio e mais voto antecipado. PCP e IL estão de acordo que é importante garantir o direito de voto, mas não têm propostas sobre como sair deste imbróglio.

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O problema. Como reconheceu ontem o primeiro-ministro, o problema é que “a nossa lei eleitoral regulamenta tudo ao pormenor”, esta já não pode ser alterada, porque a AR foi dissolvida, e o que vier a ser feito tem de ser dentro das baias legais existentes. Passou a fase em que o Parlamento poderia intervir - e nenhum partido avançou com propostas que pudessem responder a este problema. Agora, cabe ao Executivo decidir, uma responsabilidade que Costa dispensava. “O Governo pode, mas não deve” assumir essa responsabilidade, admitiu ontem o PM, preocupado com a “segurança jurídica” de qualquer solução, mas também com previsíveis polémicas políticas. Por isso, para além de pedir um parecer ao Conselho Consultivo da PGR, quer ouvir todos os partidos antes de qualquer decisão.

 

Ordem do dia. Esta tarde Rui Rio apresenta o programa eleitoral do PSD. Catarina Martins reúne-se com a Associação Portuguesa de Diabéticos e Jerónimo de Sousa está no Porto, onde se encontra com forças de segurança, editores e escritores (mas não todos juntos). André Ventura tem contra si um processo, acusado por crime de desobediência, relacionado com um jantar-comício na campanha das presidenciais, mas não abdica de fazer política à mesa. Hoje tem um jantar-comício em Lisboa. Francisco Rodrigues dos Santos vai à SEDES falar sobre a reforma do sistema eleitoral. Esta noite há apenas um debate, na TVI, entre os líderes do PSD e do CDS (21h).

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Frase do dia

“Obviamente preocupo-me consigo, não é pelo facto de sermos adversários que não tenho consideração [por si]. Para mim, os seres humanos são todos iguais.”

António Costa, sobre a vacinação de André Ventura

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