Ventura declara-se “aberto a qualquer relacionamento, seja conjugal ou extraconjugal”

28 jan, 22:42

No último dia de campanha, o Chega esteve no centro de Lisboa. Do Camões aos Restauradores, os militantes cantaram três vezes o hino e André Ventura voltou a colocar o objetivo nos 7%. Quanto a coligações ou entendimentos no pós-eleições, fez metáforas

Com bandeiras ao ombro, um grupo pequeno e silencioso de militantes do PAN desce a rua do Carmo, em Lisboa, ainda repleta de papelinhos brancos e cor-de-rosa deixados pela arruada do Partido Socialista, que entretanto já chegou ao Rossio. Encravados entre as pastelarias Bénard e Brasileira, os apoiantes do PSD são mais ruidosos. Têm tambores a abrir caminho e um altifalante com o hino do partido a tocar no largo do Chiado. Uns metros mais à frente, na Praça Luís de Camões começam a juntar-se os militantes do Chega. Por pouco não se cruzavam todos (e André Ventura até parecia gostar da ideia), mas as forças da segurança foram mais cautelosas e levaram o Chega a adiar o seu desfile para as 17.30. “Isto hoje tem sido um corrupio”, desabafa uma lojista, que veio à porta ver o movimento. “Este quem é?”

Este é André Ventura. Ou como diria Jorge, um brasileiro que está ali de passagem e aproveita para tirar umas fotos de toda aquela animação para mandar à família, “é o Bolsonaro português”. Um casal de turistas ingleses também tira fotografias. Sabem quem é? “Não, mas é das eleições, não é? É divertido.” Além das bandeiras e cachecóis brancos, os militantes do Chega distribuem coletes refletores amarelos, canetas, porta-chaves e embalagens de álcool-gel.

À hora marcada, os polícias param o trânsito e Ventura sai do carro, ladeado por seguranças, e coloca uma bandeira de Portugal ao pescoço. O líder do Chega tinha deixado o aviso no discurso à hora do almoço: “Hoje é A descida do Chiado. E os outros partidos, sabendo da nossa presença ali, quiseram desafiar-nos. O PSD e o PS também vão lá estar, mas nós vamos mostrar toda a nossa força”.

E mostram. Maria Vieira, deputada municipal em Cascais, pega na sua cadelinha ao colo e posiciona-se na linha de frente. A multidão junta-se em torno do líder e, apesar de só terem um tambor e um pequeno altifalante, entoam todos juntos, incansavelmente, os gritos de guerra: “Ventura segue em frente, tens aqui a tua gente”, “Pouco importa se eles falam bem ou mal, queremos André Ventura a mandar em Portugal” e até uma adaptação de um slogan de Abril aqui transformado em “André, amigo, Portugal está contigo”.

A arruada enche toda a rua Garrett. Os gritos são suficientes para abafar os poucos protestos isolados de alguns transeuntes que, à passagem do desfile, lançam um “fascista!” ou “fascismo nunca mais!”. Parada em frente aos Armazéns do Chiado, Andreia levanta a mão, com o dedo do meio esticado. “Não suporto este gajo”, diz a estudante de 17 anos. “É um racista e um machista.” Ventura não dá por nada. Está rodeado por militantes por todos os lados e nem sequer tem hipótese de sair do desfile para cumprimentar ninguém. Do Camões aos Restauradores, os apoiantes do Chega cantam três vezes o hino de Portugal a plenos pulmões. 

“Estão todos contra nós. É sinal de que incomodamos muito os poderes instalados”, tinha dito André Ventura aos militantes reunidos num hotel de luxo, em Cascais, com vista para o mar, para o último almoço da campanha, “em casa”, ou seja, no distrito de Lisboa, aquele onde nasceu, onde mora e onde se candidata como cabeça de lista à Assembleia da República. “A minha voz já esteve pior, mas o cansaço já é notório”, desculpa-se Ventura.

Mas ainda lhe restam forças para garantir: “O Chega veio para ficar”. O partido quer ser a terceira força política mais votada e, para isso, André Ventura lembra que “temos de sair de casa e ir votar”: “Temos a capacidade de, pela primeira vez em 47 anos, fazer tremer o sistema”, apela. E se ao almoço deixava bem claro que “não basta dizer que ganhe a direita. Temos de perceber que tipo de direita é que queremos que ganhe”, pouco depois, já no entusiasmo da arruada, parece menos esquisito: “Estamos abertos a qualquer relacionamento, seja conjugal ou extraconjugal.”

O que quer dizer com isto? A explicação vem já à noite, no jantar de encerramento da campanha, no Barreiro. "Estou convicto de que vamos ultrapassar a barreira dos 7% e ficar em terceiro. Se não chegarmos, não será um resultado satisfatório", diz o líder do Chega. E deixa bem claras as suas linhas vermelhas: com um resultado de 7%, Ventura vai exigir um lugar no Governo; "se não chegarmos aos 7% não me ouvirão a exigir a absolutamente nada". Nesse caso, Ventura recusa "fazer acordos escritos" para montar uma "gerigonça de direita". "Já vimos que não corre bem", diz. "Ficaremos na oposição e votaremos a favor ou contra, conforme acharmos que é melhor para o país."

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