O dia 16 de setembro de 2025 fica marcado pelo esclarecimento de uma dúvida que pairava há semanas: André Ventura vai mesmo candidatar-se à Presidência da República. Não por desejo, mas por cálculo. Mais do que Belém, o que está em causa é São Bento e, para lá chegar, a segunda volta é o passo obrigatório
André Ventura oficializou esta tarde, na sede do Chega, a sua candidatura às eleições presidenciais de 2026. Num discurso longo, carregado de apelos ao risco e ao dever e sem direito a perguntas, o líder apresentou-se mais como alguém empurrado pelas circunstâncias do que como um candidato entusiasmado.
“Não desejei estas eleições presidenciais, não desejei ser candidato”, afirmou. Mas, acrescentou, “um partido com 23,5% dos votos que foge das eleições, vira a cara e não permite aos seus eleitores terem uma escolha no boletim de voto é um partido fraco que teme o risco político."
A decisão foi justificada com a ausência de um nome alternativo de peso. Ventura admitiu ter procurado outras figuras - chegou mesmo a preferir Pedro Passos Coelho como candidato - mas, admite, falhou "nessa tarefa".
“Durante os últimos meses procurei garantir que o Chega tinha um candidato à altura das suas aspirações, não um candidato qualquer que deixasse pelo caminho o partido, mas alguém que nos levasse à segunda volta das eleições presidenciais de 2026 e mostrasse aquilo em que acreditamos. Ao não ser possível, o líder de um partido deve agir com o que tem e não com o que gostaria de ter”, declarou.
Um candidato em tom de sacrifício
O anúncio aconteceu longe das grandes encenações políticas. Sem bandeiras a agitar-se em massa, sem a euforia típica das campanhas, o presidente do Chega preferiu um registo diferente, mais sério e mais contido. Para os especialistas ouvidos pela CNN Portugal, o contraste entre as palavras e o tom foi evidente. André Ventura falou de combate, risco e coragem, mas fê-lo num registo grave, quase melancólico, sem a energia explosiva que o caracteriza, considera Maria Castello Branco, comentadora da CNN Portugal.
“Foi uma apresentação em tom de enterro. Ventura apareceu como mártir: ‘vocês querem, eu vou, sacrifico-me, dou o corpo às balas’. Nunca vi uma apresentação de candidatura assim, ainda por cima de alguém tão inflamado como ele. Parecia que estava a pedir desculpa.”
O comentador da CNN Portugal Rui Calafate também sublinhou essa mudança: “O próprio tom de André Ventura foi diferente do habitual. É uma figura política forte. O lado de vitimização neste caso não fazia muito sentido.”
Mais do que a crença em vencer, os especialistas consideram que o líder do Chega transmitiu a ideia de que se apresenta porque não pode deixar de o fazer. Um Ventura que procura colocar-se não como candidato por ambição pessoal, mas como alguém obrigado a carregar um fardo pelo partido e pelo país.
A divisão dentro do Chega
Outra marca do discurso foi a revelação, ou pelo menos a insinuação, de divisão interna. Ventura admitiu que vários militantes lhe pediram para não avançar, argumentando que a candidatura presidencial poderia fragilizá-lo, assim como ao próprio Chega.
“Nos últimos dias vários amigos e companheiros diziam que era melhor deixar o terreno vazio”, contou.
Maria Castello Branco interpreta este momento como um sinal claro de que Ventura não controla todos os consensos.
“Há uma grande divisão dentro do partido. Ele está a sentir contestação, não apenas dentro do Chega, mas também na base de apoiantes. Há quem veja esta decisão como um risco demasiado grande. Uns temem que isso abra espaço para outros, outros acham que se Ventura chegasse a Belém seria até uma desgraça para o partido.”
Em resposta, André Ventura apresentou-se como alguém que desafia não apenas o sistema, mas também as dúvidas internas. “Disse a todos que compreendia as suas razões e os seus receios, mas que um político mesmo arriscando o fim da sua carreira, deve dizer sempre que o país está primeiro e que as lutas pelo país valem mais. Um político que se preze deve enfrentar o seu povo, o seu país e até os seus companheiros de viagem. Submeto-me ao juízo da história, do voto e dos portugueses.”
Se a candidatura correr mal, será sobre Ventura que recairá o peso da derrota. Mas se correr bem, reforça-se a imagem de líder incontornável, considera José Filipe Pinto, especialista em Relações Internacionais.
"O Chega começou por ser um partido unipessoal. E todos os partidos populistas, culturais ou identitários utilizam aquilo que se chama a tática do eucalipto. Significa que o líder seca todos à sua volta. O líder não tem, portanto, delfins. Tem pessoas na sua proximidade mas que sabem que tudo devem a esse líder. E por isso mesmo o Chega não tem nos seus quadros ninguém com o peso político de André Ventura".
O objetivo real: a segunda volta
Ventura repetiu vezes sem conta a meta: não deixar o espaço vazio, arriscar, lutar. No entanto, quando falou de vitórias concretas, o foco não foi em Belém, foi na segunda volta.
“Se chegarmos à segunda volta, significará o levantar de um movimento político nunca visto em Portugal, capaz de derrotar em poucos meses PS e PSD e capaz de remetê-los a insignificância das suas candidaturas”, declarou.
José Filipe Pinto vê nesta meta um cálculo político: “Não foi um anúncio presidencial. Foi um reafirmar das bandeiras do Chega. O que está claramente a tentar mostrar é que o partido não é um epifenómeno. Quer usar a candidatura presidencial para reforçar a imagem de que o Chega está cá para ficar e que ele é o elemento necessário para a mudança."
A segunda volta funciona, assim, como o verdadeiro troféu. Mesmo que perca, poderá sempre dizer que perdeu apenas porque “o sistema se uniu” contra ele, perceciona o especialista.
“Política sem risco é uma chatice.” Ventura repetiu a frase de Francisco Sá Carneiro para justificar porque avança, mesmo contra a sua vontade. A ideia do risco correu como fio condutor em todo o discurso. No entanto, Rui Calafate satiriza o facto de o líder do Chega usar declarações antissistema recorrendo a citações de "pessoas do sistema".
Mais do que o desejo de ser Presidente, projetou-se como alguém que não podia permitir que o Chega ficasse ausente de uma batalha decisiva. "Estas eleições presidenciais não foram uma escolha minha, não são o meu desejo nem seriam o meu desejo. Mas elas são neste momento, compreendam todos agora ou não, a melhor forma de liderar a oposição em Portugal. E garantir que esta oposição será liderada por quem verdadeiramente quer transformar o país e quem tudo arriscará para vencer o sistema".
“A grande vitória de André Ventura é que passando à segunda volta, que é o que parece que vai acontecer, vai conseguir enterrar de facto o bipartidarismo. Acabou. É a segunda vez que vamos ter uma segunda volta em portugal, só a segunda. Mas é a primeira vez que nem o PS nem o PSD vão apresentar um candidato que possa de facto competir e que possa de facto ser eleito", afirma Maria Castello Branco.
“A dimensão do Chega é passar as legislativas, ter sondagem à frente e conseguir estar na segunda volta. A partir dali, o Chega consegue totalmente fazer aquilo que já se fala: acaba a questão da bipartidarização política em Portugal e temos tripartidarismo", concorda Rui Calafate.
Bandeiras repetidas
A imigração descontrolada, a corrupção, o "amiguismo", a crítica à CPLP e o ataque a José Sócrates regressaram como temas centrais.
“Quero ser o candidato dos jovens que acreditam que o país pode ser diferente, não com os Marques Mendes ou com os almirantes desta vida. Mas com políticos novos, diferentes, que não foram abalroados pelos vícios que o sistema político transporta em si. Aqueles que querem zero corrupção no nosso país, aqueles que sabem mesmo que José Sócrates já devia estar na cadeia, mesmo que ele se ria a frente das câmaras. Aqueles que sabem que os corruptos não se deviam voltar a candidatar”, afirmou.
Os especialistas consideram que Ventura falou mais como líder partidário em campanha do que como aspirante a Presidente da República.
“O discurso parecia mais para São Bento do que para Belém”, analisou José Filipe Pinto. “Ele sabe que a presidência tem poderes limitados, mas quer usar a candidatura para acelerar a perceção de que o Chega é um partido de mudança, capaz de ‘fazer desabar o sistema’.”
No fim, Ventura deixou escapar a ideia central: “Mesmo que vençamos, continuaremos a ser o partido da mudança, o partido que lidera a oposição.”
As críticas a Gouveia e Melo
André Ventura dirigiu a maior parte das suas críticas para o almirante Gouveia e Melo, a quem acusou de se apresentar como candidato fora do sistema, mas de rapidamente ter absorvido aquilo que de pior o sistema político português produziu nas últimas décadas.
“Estas eleições presidenciais, porque representam todos os candidatos que o sistema tem e mesmo aqueles que se dizem fora do sistema, trouxeram para a sua candidatura o pior que o sistema tem”, afirmou o líder do Chega.
Ventura chegou mesmo a "pedir desculpa aos portugueses" pelas palavras de apoio que dirigiu a Gouveia e Melo no início da caminhada presidencial. “Não sabia, nem podia saber, que o almirante, não obstante a forma como se apresentava, traria para dentro da sua candidatura o pior que o sistema político tem ou teve, como acontece com Isaltino Morais ou com Rui Rio.”
O líder do Chega enumerou depois os pontos que considera inaceitáveis no posicionamento do almirante: “Não sabia nem podia saber que o almirante, que dizia representar um espaço anti-sistema e anti-partidos, viria a concordar com o Presidente da República nas leis de imigração, que viria a ser contra as propostas do Chega para investigar os responsáveis pelos incêndios e o poder económico por trás dos incêndios, ou que se alinharia com o PS e com o PSD para fazer valer a cultura do sistema.”
Sem deixar margem para interpretações ambíguas, Ventura assumiu que o almirante é a sua única competição nestas eleições, delimitando o campo de batalha para 18 de janeiro. “Sem desprimor de qualquer candidato ou candidatura, a verdade é que estas eleições serão entre a candidatura que represento em nome do Chega - antissistema, e que representa um corte com o domínio dos partidos - e a candidatura do almirante Gouveia e Melo, que o fará representante do espaço socialista que temos em Portugal há muitos anos.”
E concluiu: “Na verdade não há nenhuma duplicidade, nem nenhuma luta entre candidatos anti-sistema. Há um candidato anti-sistema, e há um candidato que acontece ser militar e que vai representar o espaço do socialismo e do centro político em Portugal.”