Ventura cita uma percentagem (mas omite o número de votos) para se proclamar maior que a AD

9 fev, 00:40

Candidato derrotado na segunda volta afirma ainda que "o sucesso de António José Seguro à frente de Portugal será o sucesso de todos"

André Ventura perdeu a corrida a Belém, mas quem ouviu o discurso na sua sede de campanha, em Lisboa, não deu por isso. O seu alvo estava em São Bento. Quando o líder do Chega subiu ao palco foi, na verdade, para reclamar para si um troféu, a hegemonia do "espaço político não-socialista". O fim das eleições presidenciais acabou por ser o lançamento oficial da primeira pedra das próximas legislativas, com André Ventura a usar percentagem e até a memória de Sá Carneiro para esvaziar o PSD. 

"Ultrapassámos com 33,2% os 31% da AD nas últimas eleições. Acho que a mensagem dos portugueses é clara. Lideramos a direita em Portugal. Lideramos o espaço da direita em Portugal e vamos em breve governar este país" proclamou. 

A euforia na sala foi imediata, com apoiantes e dirigentes a gritar pelo nome do líder enquanto sinalizavam um "V" de vitória com os dedos da mão. Mas a matemática de Ventura tem uma nuance: comparou percentagens mas não comparou número de votos.

Nas últimas legislativas, a Aliança Democrática (AD) obteve 2.008.437 votos. Nesta noite de forte mobilização, André Ventura teve 1.729.381 votos (faltam as freguesias que adiaram devido ao mau tempo). Ou seja, o líder do Chega teve menos cerca de 240 mil votos do que a coligação liderada por Luís Montenegro, numas eleições legislativas que não foram disputadas por apenas dois candidatos, como nesta segunda volta desta eleições presidenciais. 

Ventura tentou ainda reivindicar para si o lugar simbólico de um dos mais icónicos fundadores do PSD para acenar ao eleitorado social-democrata, sugerindo que o Chega é o único herdeiro do reformismo popular de direita. "O sonho hoje continua a ser o mesmo sonho de Francisco Sá Carneiro: conseguir uma maioria que, em nome do povo e não das elites, faça a mudança."

Ainda assim, houve espaço para o institucionalismo. Ventura felicitou António José Seguro e revelou ter falado com Marcelo Rebelo de Sousa: a menção ao atual Presidente da República foi recebida com uma chuva de apupos na sala, que Ventura travou mas aproveitou para usar como símbolo do "sistema" que se uniu para tentar parar o Chega.

"Terminámos esta campanha a lutar contra todo o sistema político português. Acho que é justo dizer que liderámos de forma clara, (...) conseguimos mobilizar uma parte do país contra um sistema de 50 anos de bipartidarismo - que se verificou nesta segunda volta ainda mais intenso e feroz."

Depois de ter pedido o adiamento das eleições em salvaguarda das pessoas afetadas pela tempestade, André Ventura não fez menção direta às vítimas mortais nem às famílias que perderam tudo.

Quem não ficou de fora do discurso de Ventura foi a diáspora, que o candidato vê como a prova de vida de que o seu projeto e a sua influência têm pernas para andar (refira-se que perdeu 12 consulados para Seguro entre a 1.ª e a 2.ª volta). "Eles sabem o que é não querer mais socialismo e sabem o que é que o PS e PSD fizeram ao país nos últimos anos. Eles têm sido o nosso farol."

Para o líder do Chega, o resultado desta noite não é um fim, é um "movimento imparável". "Os portugueses colocaram-nos no caminho para governar este país", sentenciou, perante uma sala em festa a gritar pelo nome de Ventura. No início, tinha dito assim: "O sucesso de António José Seguro à frente de Portugal será o sucesso de todos".

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