Folhetim de Voto: O problema deste país são os “bandidos” e os “preguiçosos”

10 fev, 06:10
Chega celebra resultados das eleições

André Ventura tem razão, reconhece o jornalista Filipe Santos Costa: isto é só “bandidagem” e “preguiçosos” que se querem pendurar em benesses do Estado e andam à cata de tachos. Na sua coluna diária de análise e opinião política, o jornalista reconhece que não esperava concordar tão cedo com o líder do Chega. Mas bastou-lhe olhar para o que se passa naquele partido.

Não imaginava que este dia chegasse tão cedo, mas tenho de dar razão a André Ventura. O problema deste país são os “bandidos”. E o problema deste país também são os “preguiçosos” que só se querem pendurar em benesses do Estado. E andam à cata de tachos. Basta olhar para o Chega, e para duas notícias de ontem.

 

“Bandidos”. Segundo esta notícia, uma vereadora do Chega na câmara de Benavente foi condenada em 2019 por ter comprado a um grupo criminoso sucata que tinha sido roubada. “Agiu de forma livre, consciente e deliberada”, concluiu o tribunal que a condenou . A reconstituição, feita pelo Observador, das façanhas criminosas de Milena Castro é um mimo, e junta num único processo quase todo o imaginário do Chega: há “bandidos” (como diz André Ventura) - e condenados mesmo, não apenas suspeitos -, há um GNR, que por ironia era o cabecilha de um gang de assaltantes e é um dos principais condenados no mesmo caso; há um cigano, que por outra ironia fazia negócios escuros com gente do Chega. Também há “relações familiares”: Milena trabalhava na empresa do marido, arguido (e absolvido) num outro caso semelhante, também autarca eleito pelo Chega em Benavente (é membro da Assembleia Municipal), também cidadão com cadastro criminal (por ofensas à integridade física), e também envolvido no gang liderado pelo soldado da GNR. Quando quiser voltar a dar um exemplo esclarecedor do que quer dizer quando fala da “bandidagem” que campeia pelo país fora, Ventura pode usar este caso, sem precisar de atirar pedras aos outros.

Apesar das regras do Chega serem, em teoria, muito rigorosas na análise dos cadastros criminais dos candidatos pelo partido, a direção do Chega “não sabia” que a candidata que apresentou à câmara de Benavente no ano passado foi condenada por receptação de material roubado por um gang liderado por um GNR. Milena também é dirigente local do partido, na distrital de Santarém.

Apesar de saber que tinha essa condenação no currículo, Milena nunca se lembrou de dar conta desse pormenor à direção do partido pelo qual se candidatava, o mesmo partido que vocifera de manhã, à tarde e à noite, contra os bandidos. Por razões misteriosas, garante que o seu registo criminal está limpo - e foi esse registo criminal limpo que enviou para a direção do Chega. Sobre o resto, ou ninguém quis saber, ou Milene se calou.

Questionado pelo Observador, o coordenador da comissão de Ética do Chega (parece que isto existe mesmo), jurou que “serão tomadas as necessárias medidas caso se justifiquem”. O coordenador da comissão de Ética do Chega chama-se Rui Paulo Sousa. Foi eleito deputado no dia 30 e acaba de ser escolhido como novo secretário-geral do partido. Para essa escolha contaram, seguramente, as provas de competência dadas como coordenador da comissão de Ética do Chega. Embora, de acordo com as notícias mais recentes, “poderá” ter acontecido “alguma falha no decorrer do processo”... 

 

“Preguiçosos”. Calha bem falarmos do novo secretário-geral do Chega, porque isso nos permite falarmos do secretário-geral que acaba de se demitir. Chama-se Tiago Sousa Dias e demitiu-se ontem. Para um partido tão recente, e que gosta tanto de se apresentar como a regeneração da política portuguesa e apontar o dedo à “podridão” dos outros, o Chega tem-se mostrado demasiado parecido com o que de mais podre têm os demais. Conforme vamos conhecendo o seu pessoal político, vão-se acumulando casos (há meses também houve aquele autarca que desatou aos tiros no meio da rua em Moura, lembra-se?). Perde-se a conta aos conflitos internos que acabaram em demissões, acusações graves, golpes internos e lutas de poder capazes de fazer corar alguns partidos que por aí andam há muito mais anos. Ontem, na hora de anunciar a sua demissão, Sousa Dias justificou como razão a vontade de exercer a sua “liberdade”. Parece que o regime autocrático que Ventura lidera internamente começa a incomodar uma ou duas almas.

Mas esta é só uma versão da história. A outra versão, do lado de Ventura, é um bocadinho menos lustrosa do que a história de um homem que luta pela sua liberdade. Apesar de o próprio garantir que “edificou” uma “nova estrutura jurídica” no partido e salvou o chega de “um novo pântano que nos custaria o bom resultado que tivemos nestas eleições”, o lado de Ventura disse aos jornais que não foi bem assim. “Tiago Sousa Dias foi convidado a sair por alegada falta de empenho”, garante o Observador. Um preguiçoso, portanto. Ventura bem que tem avisado que há muito disso por aí.

 

“Tacho”. Como se não bastasse a “falta de empenho”, o até ontem secretário-geral do Chega também é um homem “ressentido”. Segundo as fontes da direção do Chega, “o ex-dirigente do partido alimentava [a] expetativa [de ser deputado] e tinha a ambição de fazer parte das escolhas do líder para o Parlamento. Não aconteceu. Como consequência prática dessa exclusão, garante a mesma fonte, o agora ex-secretário-geral terá ‘deixado de trabalhar’ em prol do partido”. Não integrou o núcleo-duro que acompanhou Ventura durante a campanha eleitoral e nunca apareceu em qualquer ação de campanha em que o líder estivesse presente. Em venturês, o homem “queria era tacho”. Estava ali pela “mama”. Mas não dá para todos. “Há 40 mil militantes no partido, nem todos podem ser deputados”. É esta a dura realidade. 

Como diz Ventura, o mal deste país são os bandidos e os preguiçosos sem empenho que querem é tacho à conta do Estado. Alguns, até estão em partidos anti-sistema, lutando com todas as suas forças por um lugarzinho no sistema. Afinal, o sistema quando nasce é para todos. Mesmo para os que dizem que querem dar cabo dele.

 

O elogio do sistema. Por falar em sistema (isto hoje está a revelar-se uma maravilha no que toca a encadeamentos…), André Ventura decidiu fazer tremer o sistema… com uma queixa ao Tribunal Constitucional. Outros poderão considerar que, estando no vértice da arquitetura jurídica do nosso sistema, o Tribunal Constitucional representa o sistema em todo o seu esplendor. Talvez quem quer dinamitar o sistema pudesse começar por recusar as instituições que melhor o corporizam. Talvez quem defende que se rasgue a Constituição e se refunda o regime, lançando uma Quarta República, devesse choramingar menos à porta do tribunal que garante a Constituição, o regime e o sistema. Mas é André Ventura e, como sabemos bem, as regras da lógica não se lhe aplicam.

Inconformado com a perspetiva de não poder nomear como vice-presidente da Assembleia da República alguém que terá de se sujeitar ao voto de 230 deputados, Ventura anunciou ontem que vai queixar-se ao Tribunal Constitucional… contra a democracia. Eis, em todo o seu esplendor, o elogio do sistema, e a demonstração de que Ventura irá vitimizar-se em relação a tudo o que mexe - até em relação às regras básicas de uma eleição.

 

Fake news. Por falar em tribunal, as fake news do Chega estão em julgamento. Não as opiniões políticas do partido e dos seus representantes - cujo julgamento é feito pelos eleitores -, mas as mentiras puras e duras. Não todas - são tantas que duvido que alguém fosse capaz de as compilar todas ou algum tribunal tivesse capacidade para julgar tanto - mas uma em particular. Uma mentira escrita no Twitter por Pedro Frazão, vice-presidente e deputado eleito do Chega, sobre Francisco Louçã. O fundador do BE não gostou e levou Frazão a tribunal, exigindo que este publique no seu Twitter o reconhecimento de que escreveu uma mentira, e a reposição da verdade. Na primeira sessão do julgamento, ontem, Frazão nem tentou argumentar a favor da veracidade do que escreveu. Terá balbuciado qualquer coisa sobre ter escrito aquilo que leu na imprensa. Como se demonstra aqui, imprensa nenhuma escreveu a mentira que o dirigente do Chega propagou. Apanhado numa mentira, saltou para a seguinte. Mentiu sobre os factos, agora mente sobre as fontes. Pode ser o primeiro político em Portugal condenado pela difusão consciente do que sabia serem mentiras. Na opinião de alguns, o melhor seria deixar passar, porque isto só “vitimiza” e “alimenta” a extrema-direita. O melhor mesmo será normalizá-la, não?

 

Twitter. Rui Rio continua pelo Twitter e está atento às trends. Ontem, escreveu um tweet imputando à “extrema-esquerda” a responsabilidade por andar a “engrandecer a direita mais radical”. É curioso este cuidado com a adjetivação - a esquerda é “extrema”; a direita é apenas “radical”, mas não extremista. Em todo o caso, consta que os Açores se riram com o tweet.

 

Tic-tac. Várias distritais do PSD acham que manter Rui Rio à frente do partido por mais cinco ou seis meses talvez não faça lá muito sentido. “É preciso virar a página”, argumentam

 

Centro. A IL quer sentar-se no centro do Parlamento, e não na ala direita, onde passou os últimos três anos. A razão, assumida, é distanciar-se do Chega. João Cotrim Figueiredo não quer que os portugueses o vejam, literalmente, ao lado de Ventura, o que qualquer mortal compreende. Quando diz que quer sentar-se no centro porque é o ponto mais distante dos extremos, não é da extrema-esquerda que a IL está a pensar distanciar-se, porque ninguém suspeita que a IL possa estar próxima do BE ou do PCP (agora que penso nisso… houve debates em que Ventura e Chicão lançaram essa acusação…). O que incomoda a IL é o Chega. Talvez a IL possa começar por se distanciar do Chega, por exemplo, quando este partido propõe um racista para vice-presidente da Assembleia da República. Preocupando-se mais com posições políticas e menos com posições físicas. 

Deixo para gente mais qualificada a avaliação deste suposto “centro” onde uma das medidas económicas fundamentais é a taxa única de IRS, sustentada na fé das virtudes da trickle down economics (porque é de fé que se trata). Foco-me, para já, naquilo que a IL tem dito, e que pode iluminar o lugar onde se hão de sentar os seus deputados.  

Percebe-se que a IL queira mudar de lugar para marcar distâncias, mas também é importante olhar para o que nos dizem as proximidades. O partido de Cotrim Figueiredo começou a campanha eleitoral jurando que não era “nem de esquerda nem de direita”, e acabou a campanha com um acordo de governo praticamente assinado com o PSD e com o CDS, para uma coligação que não é nem de… ups… Vejamos de outra forma: o partido que no início da campanha não era “nem de esquerda nem de direita” acabou a campanha a garantir que nunca faria acordo nenhum com o PS, e a acusar o PSD de ser demasiado parecido com os socialistas. 

Resumindo: o partido que se disponibilizou para uma coligação de governo com o PSD e a direita, e recusou qualquer conversa com o PS e a esquerda, quer ficar equidistante entre o PS e o PSD. Naquele espacinho entre o PS e o PSD, dois partidos que, segundo a IL, vivem encostados. Ou seja, um espaço que não existe, onde não cabe ninguém, e onde a IL jurou antes que não estaria. Deve ser isto que se chama geometria variável. Mas pode dar-se o caso de muitos eleitores terem votado neste partido por terem acreditado que a IL não estaria no meio do PS e do PSD, mas, assumidamente, de um dos lados. Talvez a IL possa estudar a possibilidade de os seus eleitores terem acreditado na sua palavra.

 

Reforma. João Cotrim Figueiredo insiste na necessidade de rever o sistema eleitoral. Lançou este tema e oxalá tenha força para o impor na agenda. Até a ministra Francisca van Dunem, que controla o processo eleitoral, reconhece que a lei é antiga e desajustada aos tempos que vivemos. Precisa de ser atualizada, e beneficiava em tornar-se mais representativa, deixando de ignorar tantos votos que não elegem ninguém. A lei eleitoral portuguesa até não compara mal com outras democracias ocidentais, mas é notório que pode ser melhorada, talvez com a introdução de um círculo nacional de compensação. Talvez desta vez o debate não morra de esquecimento. 

 

Emigração. Como se previa, PS e PSD repartiram os quatro deputados eleitos pelos dois círculos da emigração. Com a atribuição de dois lugares a cada um dos dois maiores partidos, o PS alcança 119 lugares no Parlamento, e o PSD chega aos 78, o que nada muda em relação ao que já se sabia: os socialistas confirmam e reforçam a maioria absoluta, os sociais-democratas ficam por um dos piores resultados da sua história.

 

Insustentável. O PSD - que critica, e bem - o facto de milhares de emigrantes não terem podido votar nas legislativas, avançou com um protesto que poderá anular milhares de votos dos emigrantes. A forma como PS e PSD se embrulharam em sucessivas trapalhadas em relação aos votos da emigração é uma vergonha para a democracia e uma chapada na cara de milhares de emigrantes que, apesar da distância, quiseram participar na vida política do seu país. Havia problemas, bem identificados, com a legislação e a logística da votação dos emigrantes e nem PS nem PSD propuseram no Parlamento, que tem essa competência, a alteração e clarificação dessas regras. Na 25ª hora, tentaram atamancar o problema com um acordo de cavalheiros à margem da lei, com o qual o PSD primeiro concordou e depois discordou. A consequência desta insustentável leviandade? Nunca houve tantos emigrantes a votar como nestas eleições, mas graças à incompetência dos dois maiores partidos, boa parte desses votos podem ir para o lixo. Em bom português, estão-se a borrifar. Só pode ser isso. 

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