Resisti muito a escrever este texto. Porque sinto que estamos - eu incluído - sempre a cair na mesma ratoeira. Quando André Ventura precisa de desviar as atenções, inventa um facto político. Normalmente, o próximo é sempre mais estapafúrdio do que o anterior. Mas é o suficiente para ficarmos semanas a desconstruí-lo. É um jogo onde Ventura vence sempre. E o país perde sempre. Mas isso, para ele, é indiferente. Se ignoramos as patetices que diz, somos acusados de não fazermos o nosso trabalho. Se “vamos a jogo”, estamos a fazer-lhe um favor. “Vejam como o sistema se mobiliza contra mim. Que corajoso que eu sou”, enfim. O costume. Mas vamos lá, então.
Esgotado que está o tema da imigração, André Ventura precisava de inventar um novo slogan. Qualquer coisa que o tornasse popular - e, mais importante ainda, que gerasse indignação junto das elites. Quando maior a indignação, melhor. Ventura pensou, pensou, até que teve uma ideia genial: propor a descida da idade da reforma. Eis algo de que nunca ninguém se tinha lembrado - por boas razões - e que, seguramente, renderá alguns votos. É sensato? Não. Fez as contas? Também não. Mas Ventura também não está, exatamente, à espera que a medida seja implementada. Basta-lhe o barulho que se vai fazendo à volta disto. E a vantagem negocial que daí retira.
Admiro e respeito os meus colegas e os muitos economistas e especialistas que, nas últimas semanas, se dedicaram a desmontar o absurdo desta proposta. Que fizeram as contas e explicaram de forma didática porque é que a atual realidade demográfica e económica não só não permite baixar a idade da reforma, como obriga a que ela continue a subir. Não porque alguém acha que as pessoas se devem reformar o mais tarde possível, mas porque nenhuma Segurança Social aguentaria outra equação. E Ventura sabe isso. Não é por ignorância que propõe a descida da idade da reforma. É por mera tática política.
Entalado com a reforma laboral - já foi a favor, já foi crítico e hoje parece um ventríloquo da CGTP -, André Ventura precisava de se preparar para o momento em que a lei chegasse ao Parlamento. Se tivesse de apostar, diria que Ventura ainda nem sequer decidiu se aprova ou não o pacote laboral do Governo. Mas, qualquer que seja a sua decisão, esta proposta da descida da idade da reforma é sempre um bom trunfo negocial. Se chegar a acordo com o PSD, a idade da reforma não baixa para todos, mas até pode conseguir que baixe para algumas categorias profissionais, como os polícias ou os bombeiros, por exemplo. Se não chegar a acordo, é porque o PSD não aceitou baixar a idade da reforma. E pronto. Está arrumado o caso.
A estratégia é exatamente a mesma que usou em 2024, aquando da discussão do Orçamento do Estado para o ano seguinte. Ressabiado com Montenegro por não ter feito um acordo de governação com o Chega, Ventura quis vingar-se. Nunca na vida aprovaria o Orçamento do Estado, mas, como não ficava bem dizer isso ao eleitorado, inventou um referendo à imigração. O Chega só aprovaria o Orçamento do Estado para 2025 se o Governo aceitasse fazer um referendo à imigração. Lembram-se? Como é evidente, uma coisa não tinha nada que ver com a outra, não houve nem nunca haveria referendo nenhum, e o Chega votou contra o Orçamento.
Os referendos são, aliás, a solução para tudo. O Tribunal Constitucional chumbou o diploma que previa a retirada da nacionalidade a quem cometer crimes? Faz-se um referendo. Mesmo com a idade da reforma, esse discurso já começa a ganhar forma. É ouvir os deputados do Chega a repetirem que a maioria dos portugueses defende uma descida da idade da reforma. Não estranharia se, daqui a uns tempos, estivesse em cima da mesa mais um referendo.
André Ventura é uma espécie de pirómano político. Vai ateando pequenos focos de incêndio, fica à espera que ganhem dimensão e quando se apaga um, acende outro. Às vezes, para desviar a atenção; outras, para fugir às suas responsabilidades. André Ventura não tem qualquer espírito reformista, nem tão pouco é de direita ou de esquerda. A ideologia dele é ele próprio e o seu interesse mais imediato. Mas esta proposta de descida da idade da reforma pode ter tido uma vantagem: fazer as “forças vivas” do PSD que defendiam um acordo de governação com o Chega compreenderem que isso seria um desastre para o próprio PSD, mas sobretudo, para o país. Pode até haver, no PSD, quem, como Passos Coelho, se considere capaz de esvaziar eleitoralmente o Chega. Mas já não devem ser muitos os que acreditam que seria possível ter o Chega como parceiro confiável. Isso seria a morte do Chega. E isso Ventura só permitiria se tivesse alguma coisa a ganhar.
