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Diretor de contas da consultora de comunicação AMP

O que anda Ventura a fazer?

28 out 2025, 18:17

André Ventura sabe exatamente o que está a fazer. A menção aos "três Salazares" não foi um desvario ideológico nem um tropeção retórico, mas parte de uma estratégia de comunicação deliberada, concebida para ocupar o centro do debate político e testar os limites do que é aceitável na arena presidencial. Ao proclamar-se o candidato contra os valores de Abril, constrói uma narrativa de confronto direto com o regime democrático, mas fá-lo dentro das regras do jogo e é aí que reside a eficácia da sua estratégia. Num contexto de elevada fragmentação e fadiga institucional, para a qual os eventos eleitorais de 2025 estão a ajudar, Ventura tenta reposicionar o Chega como o único projeto verdadeiramente "anti-sistema", capaz de dar corpo ao mal-estar que afeta parte do eleitorado. A sua campanha não se irá dirigir apenas aos descontentes, mas sobretudo àqueles que já não acreditam que o sistema possa ser reformado por dentro. O desafio que esta abordagem impõe aos restantes candidatos não é ideológico, mas tático: como vão responder a uma candidatura que prospera precisamente no ruído, no choque e no desconforto mediáticos? 

A candidatura a Belém é assim e antes de mais, um palco. Não é uma meta. Ao contrário dos adversários, que estão a estruturar campanhas para convencer eleitores, André Ventura joga noutro tabuleiro. Um em que apenas precisa de manter a chama acesa entre os seus apoiantes, provocar os outros candidatos para que estes reajam e garantir que as câmaras nunca desviam o foco. Esta lógica de espetáculo, importada da política norte-americana e adaptada à realidade portuguesa, não tem como objetivo ganhar as eleições presidenciais mas consolidar a sua posição como líder incontestado da oposição enquanto testa a elasticidade da democracia constitucional. Ao deslocar o discurso para os extremos, Ventura obriga os outros candidatos a responder no terreno da indignação e do ruído, tornando quase impossível um debate sério sobre os desafios reais do país. André Ventura criou de forma inteligente este combate encenado entre "o povo" e "o sistema”, onde cada crítica institucional funciona como combustível para o enredo.  

Espantosamente nenhum dos seus adversários sabe bem o que fazer, ninguém é capaz de desmontar a lógica bidimensional que foi criada. Luís Marques Mendes declarou, por exemplo, que Ventura não pode ser nem vai ser Presidente da República, o que na prática valida o seu papel de figura disruptiva. António José Seguro, apelou a um consenso democrático contra o radicalismo, que pode ser um nobre sentimento, mas anacrónico à luz do ambiente mediático que vivemos. Por outras palavras, não gera manchetes nem capta a atenção de ninguém. Até Gouveia e Melo, arrisca-se a parecer parte do "sistema" que Ventura tão eficazmente denuncia. Todos rejeitam a retórica do candidato do Chega, mas acabam por reforçar a centralidade do seu discurso.  

No entanto, se Ventura não cresce apesar da rejeição institucional, mas sim por causa dela, corre também sérios riscos para o futuro. No enquadramento de uma eleição presidencial, a dependência do conflito e controvérsia para se manter relevante, os riscos de saturação são sérios, sobretudo se a campanha presidencial for percebida como um mero instrumento de afirmação pessoal. O seu eleitorado mais fiel pode estar farto de muita coisa, mas é também institucional e conservador, gosta de abanões, mas rejeita quem usa as instituições para proveito próprio. Para além disso, a insistência em metáforas autoritárias pode garantir atenção mediática, mas pode também afastar aqueles que embora simpatizem com o Chega, não estão dispostos a abandonar o contrato democrático. Seja na televisão, nas redes sociais ou nos debates, o maior risco que André Ventura vai correr é deixar de surpreender. Quando um candidato populista deixa de ser imprevisível, torna-se irrelevante, só que a exposição permanente o obriga a manter um nível de tensão elevado, o que aumenta a probabilidade de cometer erros, contradições ou fazer declarações que ultrapassem o limiar do aceitável. E, nesse caso, os holofotes não o vão perdoar. 

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