Em entrevista no "Dois às 10", o candidato do Chega admitiu que a missão de "salvar a democracia" lhe tem roubado a juventude, defendeu a sua "cara de esforço" nas ações de rua
Sentado num sofá laranja, André Ventura apresentou-se na TVI com um discurso que misturou a habitual combatividade política, a confiança na vitória nas eleições presidenciais, mas também raros momentos de introspecção sobre o desgate que a política causa. Numa entrevista concedida a Cristina Ferreira e Cláudio Ramos, o líder do Chega diz que quer "salvar a democracia" porque esta "merecia um bocadinho melhor", mas admite que a tarefa não é fácil. "Ui, estou com muito mais cabelo branco" , admite.
Logo no início da conversa, os apresentadores fizeram questão de retirar o "elefante da sala", abordando os rumores de que Cláudio Ramos teria marcado férias propositadamente para evitar entrevistar o candidato. Ventura, que admitiu ter tido essa dúvida, confrontou o apresentador diretamente. Cláudio Ramos negou categoricamente qualquer boicote, sublinhando que, embora discorde das ideias políticas de Ventura, respeita a democracia e os seus eleitores. "Uma democracia é uma democracia", afirmou o apresentador, garantindo que o candidato ali estava com o mesmo respeito conferido a qualquer outro convidado, selando assim um momento de tréguas antes do embate político.
Confrontado com a ideia de que as imagens a carregar bens essenciais às populações afetadas pela tempestade Kristin, em Leiria, poderiam ser encenadas, Ventura respondeu que não tem outra forma de fazer as coisas. "Esta cara que é a minha, desculpem lá, se eu quisesse outra eu não conseguia arranjá-la", atirou, justificando a expressão de esforço captada pelas câmaras como a reação natural de um cidadão que leva o sofrimento do país "a peito".
Num registo mais reflexivo, o líder do Chega abriu a porta à ideia de que a política não é eterna. Admitiu que pensa frequentemente no futuro e na solidão da liderança, deixando claro que não se agarra ao poder: "A minha vida política vai ter um fim, como tem a de toda a gente." Até lá, foca-se no combate àquilo que chama de "absoluta inutilidade" do seu adversário e na promessa de que Portugal não se tornará um país de "terceiro mundo".
O líder do Chega desvalorizou as quebras nas sondagens, argumentando que o país se dividiu em dois blocos, o que o apoia e o que acha que não pode ser presidente. Para o candidato, a descida do adversário é mais grave, pois os votos em Seguro "não são votos em Seguro, são votos contra" Ventura. Recuperando uma antiga alcunha partidária, Ventura classificou o socialista como a "absoluta inutilidade" e o "zero de ideias" que tenta "agradar a todos" e não toma "posição sobre nada".
"Era por isso que lhe chamavam 'Tó Zero' quando ele estava no Partido Socialista. Não podemos ter um Presidente da República que faz um caminho a tentar dizer zero, agradar a todos e não tomar uma decisão sobre nada", afirmou o candidato presidencial do Chega.
Ventura foi duro ao criticar a inoperância do Estado e das grandes empresas no rescaldo da tempestade que afetou a região centro do país. Comparando a falta de luz em algumas zonas do país à Guiné-Bissau ou Madagáscar, questionou como é possível estar "três, quatro, cinco dias sem rede elétrica" num país europeu. O candidato aproveitou para atacar os elevados impostos, reforçando que a carga fiscal de 40% que não serve para "pôr telhas na casa das pessoas" e atacou a Brisa, acusando a concessionária de "gamar" os portugueses e de não ter sensibilidade para dar uma "isenção de três dias no meio de uma crise".
Sobre a comunidade cigana e os subsídios, manteve o discurso de que existe um "padrão de incumprimento de leis", citando os casamentos de menores como exemplo de dois pesos e duas medidas. "Eu não consigo ver um jovem de 18, 19, 20 anos em casa, saudável, a receber da Segurança Social mil euros", critica.
André Ventura procurou distanciar-se do estilo presidencial de Marcelo Rebelo de Sousa. Rejeitando a figura de um Presidente que serve apenas para "cortar fitas, fazer cocktails e andar no estrangeiro a dizer generalidades", prometeu uma magistratura ativa. "Eu quero um Presidente da República que olhe para as pessoas nos olhos e não estar só deitado à espera que as coisas aconteçam."