Ventura está à pesca dos jovens de Cotrim mas enfrenta um "problema de imagem"

29 jan, 09:00
Campanha Ventura dia 1

Num encontro na Universidade Lusíada, onde Seguro faltou, Ventura contou que o debate com o adversário nesta segunda volta deixou-o, “como dizem os ingleses… what the fuck” e que Cotrim de Figueiredo “é puro egocentrismo e vaidade exagerada”. No final, Leonardo continuou indeciso, mas Fernão saiu convicto de que não quer ser como os "meninos de bem"

Dentro da comitiva do Chega que acompanhou André Ventura na primeira ação de campanha para a segunda volta das eleições presidenciais começa a solidificar-se uma estratégia: apostar tudo na conversão dos muitos jovens que votaram em Cotrim de Figueiredo na eleição de 18 de janeiro. Fazê-los, como diz fonte ligada ao Chega, “voltar a casa”. Assume-se que “muitos votaram pelo cool” do ex-líder da Iniciativa Liberal, mas também entende-se que esse eleitorado será mais fácil de recuperar do que alterar aqueles que votaram em Marques Mendes. 

E a ideia do arranque desta segunda fase da campanha eleitoral foi dar gás a essa estratégia, aproveitando uma oportunidade oferecida pela campanha adversária que decidiu não comparecer quarta-feira na Universidade Lusófona para um encontro entre candidatos a Presidente da República e estudantes. Com o pódio livre, Ventura ouviu ainda um lamento do professor Luís Barbosa Rodrigues sobre a não ida de Seguro e o facto de o candidato não ter dado a possibilidade de marcar uma outra data. “Sem meter a universidade nisto, não me espanta que o meu adversário não tenha vindo aqui hoje. Há um candidato que acha que já ganhou e acha que pode ser indiferente aos debates e às instituições”, sublinhou o líder do Chega. 

Durante cerca de uma hora e um quarto, André Ventura retocou os ataques ensaiados no debate anterior mas com um tom diferente. “Quem sou eu… António…José… ou Seguro?”, questionou sobre aquilo que diz ter sido a principal fragilidade do seu oponente no debate de terça-feira, “o imobilismo” que o adversário demonstrou quando não se quis comprometer sobre se estaria disposto a vetar propostas de imigração semelhantes àquela aprovada em Espanha. “Como dizem os ingleses, what the fuck… passou-me assim esta expressão no debate, tipo 'Jesus!'.” 

Até que o alvo mudou. E mudou muito por causa das questões dos estudantes. Fernão Mendonça, 23 anos, licenciado em Relações Internacionais, agarrou no microfone e perguntou a Ventura sobre o que tinha a dizer aos jovens que se identificam como sociais-democratas ou democratas cristãos que votaram Cotrim e que agora, “quando chega a altura de um combate entre direita e esquerda” preferem Seguro. 

Fernão não quer ser como os "meninos de bem", Leonardo continua indeciso

Ventura durante a arruada da tarde em Mem-Martins foto Lusa

Ventura não hesitou em tratar Cotrim por “João” e criticá-lo por ter um “ego tão grande” que o levou a “criar um movimento que ninguém quer saber durante a campanha para as presidenciais”. “É puro egocentrismo e vaidade exagerada.” E deixou um apelo aos eleitores de direita que não concordam com o “estilo” de Ventura. “Quando vão votar, não vão escolher o namorado nem o amigo dos copos”, têm de estar de acordo com os ideias que defende o candidato. Não é o estilo, senão só se candidatavam os mais altos e os mais bonitos.”

Fernão Mendonça diz à CNN Portugal que ficou esclarecido e vai convictamente repetir o voto em André Ventura, mas assume que “a grande maioria dos seus amigos votou Cotrim de Figueiredo” e que estão hesitantes sobre o destino do voto nesta segunda volta. Para os convencer, conta, “é preciso enaltecer mais o projeto económico mais liberal do Chega”, mas também mudar a imagem do interior do partido. “Aí tenho de ser honesto - há uma imagem associada ao Chega de quadros pouco competentes mas, verdade seja dita, olhamos também para outros partidos e não têm os melhores quadros. Quando começou, a IL não tinha propriamente um grémio fantástico e intelectual mas evoluiu muito bem.” 

Mais difícil, considera, é que o Chega repesque para si os votos dos eleitores tradicionais do PSD e do CDS. E isso é, como admitia Ventura no discurso aos estudantes, uma questão de “estilo”. Horas antes, Fernão tinha ouvido Ventura a repetir a necessidade de “três salazares” e a catch-phrase “bandalheira”, para se referir à herança de governação socialista e, aponta, “trata-se de um problema de forma e não de conteúdo”. “Os três salazares... acho que é óbvio o que é que André Ventura queria fazer: por um lado, exaltar mesmo e ser falado - e conseguiu muito bem; e, por outro, porque o país precisa de ordem.” 

Mas, reconhece, não é um discurso que colha grandes entusiasmos à direita. “É um bocadinho aquilo que eu chamo 'punhos de renda' e vejo isso muito - e com todo o respeito - na juventude do CDS e do PSD. Acho que há um bocadinho aquela ideia falsa de que os meninos de bem são do CDS e do PSD. E vemos que há toda uma estética por trás - e peço desculpa por estar a ser tão cru, mas é honesto.”

Se Fernão Mendonça insistiu para que Ventura se dirigisse aos seus amigos liberais, o colega de faculdade Leonardo colocou o candidato à prova em temas de política internacional. Questionado sobre as ameaças de Trump à Gronelândia, Ventura clarificou que “neste momento não parece que a Europa tenha uma estrutura militar séria” sem os Estados Unidos. Interpelado ainda sobre a relação que Portugal deve manter com a CPLP, o candidato aproveitou para recuperar o episódio do 'por que no te callas', dirigido pelo rei de Espanha a Hugo Chávez. “É isso que eu quero ver num Presidente da República: uma postura de não submissão e de não revisionismo.”

Leonardo, de 19 anos, conta à CNN Portugal que votou em branco nas últimas eleições e não sabe ainda bem o que vai fazer nas de fevereiro. “Não me revia em nenhum candidato e ainda é possível que não me reveja, ainda estou muito indeciso”, diz, apontando, que o discurso de Ventura é muito tentador para os jovens. “É algo contra o sistema, é capaz de não ter travões ideológicos, de se poder simplesmente exprimir aquilo que acha. Acho que isso é um grande fator pelo qual os jovens votam nele. Mas, tirando isso, não penso que exista outro fator, pelo menos a meu ver.”

Depois de se despedir dos jovens, Ventura rumou a Mem Martins, a sua terra natal, onde na primeira volta perdeu para Seguro por cerca de dois mil votos. Numa arruada chuvosa, com poucas dezenas de apoiantes, Ventura cruzou-se com uma barbearia e usou o nome dela para uma promessa. “Xeque-mate! É isto que vai acontecer. Até venho aqui cortar o cabelo depois de ganhar as eleições”, prometeu. 

No trajeto foi fazendo contas e isso deu-lhe mais confiança de que irá passar Seguro na terra onde nasceu, uma vez que será ele o único candidato “à direita”. “As pessoas de Mem Martins sabem que é preciso fazer esta mudança e tenho a certeza de que agora vou conseguir ser o candidato vencedor. Agora só há duas pessoas em disputa, não há confusão nenhuma.”

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