"Existe uma parede de dinheiro disponível para investir no futebol português"

9 mai, 16:00
André Mosqueira do Amaral, líder do processo de Centralização
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Entrevista com André Mosqueira do Amaral, Diretor Executivo da Liga Portugal, Parte I

O processo de centralização dos direitos audiovisuais está numa fase decisiva. Depois de ser aprovado o Regulamento de Comercialização – com 92% dos votos – prepara-se nova Assembleia Geral da Liga Portugal, desta vez para aprovar a chave de distribuição de receitas. É um tema sensível, já que ninguém quer receber menos do que aquilo que consegue, agora, auferir.

Pelo meio, a Liga organizou um encontro com diversos investidores internacionais - "Investors Day" - onde ficou com a convicção de que pode atrair fortes investimentos para o futebol português.

A Liga sabe que os valores pagos pelos direitos de transmissão estagnaram, ou até caíram, em vários países, mas acredita que, com a centralização, o futebol português vai estar em contraciclo, com capacidade de criar mais valor e de proporcionar maiores rendimentos às sociedades desportivas. Isso, partindo do princípio de que a centralização não se esgota na venda de direitos audiovisuais, mas que é apenas o princípio de um processo de alteração do paradigma económico.

André Mosqueira do Amaral, comecemos por esse momento que reuniu na Liga, no Porto, representantes de muito capital estrangeiro. Qual foi a importância desse dia, desse Investors Day?

Foi um dia muito importante porque ficou claro - da parte da comunidade de investidores institucionais que está mais presente no mundo do desporto - que existe uma parede de dinheiro acessível e disponível para o ecossistema do futebol profissional português.

Essa manifestação de interesse traduziu-se na presença dos maiores fundos institucionais que investem no desporto a nível mundial. Tivemos pessoas que vieram da Ásia, pessoas que vieram do Médio Oriente - aliás, com constrangimentos de transporte - investidores que vieram de Miami, de Los Angeles, da América Latina, da Europa, obviamente, de Londres, muitos, todos eles querendo congregar e ouvir a nossa história, a história do futebol profissional português, que é uma história que, no fundo, apresenta um paradoxo: por um lado, temos uma excelência desportiva, que é aquilo que em Portugal fazemos como ninguém. As sociedades desportivas, os nossos atletas e os nossos agentes desportivos, de facto, trazem uma excelência desportiva, a nível mundial, que é extremamente reconhecida. Eu próprio trabalhei noutras indústrias e posso atestar que, no futebol profissional, Portugal é, de facto, uma propriedade extremamente respeitada pela sua excelência desportiva.

No entanto - e o paradoxo é este - a essa excelência desportiva que não tem correspondido, nos últimos anos e nas últimas décadas, o potencial de monetização económico que corresponderia a essa excelência desportiva.

O objetivo é fazer com que o futebol português produza mais dinheiro, seja mais rico?

Absolutamente. O objetivo é (definir) como é que conseguimos apetrechar o ecossistema do futebol profissional com as ferramentas necessárias para poder aproveitar essa parede de dinheiro que existe, que está disponível e canalizá-la. Isso passa muito pelas iniciativas a nível de execução, de como se fazem esses investimentos, para que estejam ao serviço das sociedades desportivas, ao serviço do futebol e, no fundo, alavancar ainda mais a nossa excelência desportiva.

Há mais dinheiro para lá dos direitos de transmissão, ou seja, há outras fontes de receita, é isso?

Absolutamente. Quando se fala de centralização dos direitos audiovisuais, a conversa tende a resumir-se a isso, a dizer: vamos passar de um momento fragmentado em que cada sociedade desportiva vende um ativo específico, que é a transmissão dos seus jogos enquanto clube visitado, mas a centralização é muito mais do que isso. Aliás, a centralização pode ser muito mais do que isso. Ou, posto de outra maneira, se a centralização se resumir apenas à agremiação e à venda conjunta desses direitos audiovisuais, é uma oportunidade perdida.

A nossa perspetiva sobre o ecossistema do futebol em Portugal é que há muito mais para além da centralização e é por isso que nós dizemos sempre que a centralização não é um fim, é um início.

Início de um processo?

É um início de desígnio coletivo em que a Liga pode ter - e deve ter, como aliás acontece em todas as outras ligas, seja no futebol, seja em outras propriedades desportivas, seja na NBA, seja na NFL, etc. – um papel importante enquanto agregador, mas também enquanto entidade que promove a execução da entrada desse capital.

Porque a entrada desse capital não tem por que ser só e apenas - aliás, é algo que em Portugal já verificamos - a presença de investidores institucionais nas sociedades desportivas, no capital. É muito para além disso. São todos os outros elementos que contribuem para a valorização do ecossistema.

Os investidores que estiveram presentes na sede da Liga, no Porto, deixaram claro que há uma oportunidade de fazer muito mais.

E essa oportunidade… a condição precedente para essa oportunidade é a centralização. A centralização é o ponto de partida.

Haverá uma entidade - ou seja, a Liga - que fará toda a gestão desse investimento. E, concretamente, em que é que esses investidores institucionais podem investir?

Nós aí separamos vários pilares. Há, desde logo, um pilar de infraestrutura. E a infraestrutura não é só assentar tijolo. A infraestrutura é muito mais do que aquilo que se vê.

É o que se vê, obviamente – é a questão dos estádios e também dos centros de treino - mas depois é toda a infraestrutura que não se vê e que é cada vez mais importante na própria monetização do nosso produto.

O nosso produto cada vez mais é um produto de media, é um produto audiovisual, é um produto de fan engagement, é um produto de experiência que pode ser um híbrido entre aquilo que é a experiência física no estádio, no dia de jogo, mas também fora do dia de jogo.

Isso é muito importante e temos também feito muito trabalho sobre isso, sobre como se consegue monetizar quando não está a acontecer um jogo.

No fundo, se nós pensarmos no estádio, ele recebe um jogo 17 vezes por época. Do ponto de vista infraestrutural, é muito difícil rentabilizar uma estrutura completamente limitada.

A marca está sempre lá…

Exatamente, a marca está sempre lá. Por isso, a questão é essa: como é que nós conseguimos criar outras avenidas de monetização dessa infraestrutura?

E, como disse, não esquecer que a infraestrutura não é só assentar tijolo. É muito mais do que isso. É também o capital humano.

Isso é um ponto importante. Que iniciativas é que podemos ter para continuar a desenvolver o nosso capital humano dentro de campo - portanto agentes desportivos - mas também agentes não desportivos.

Depois temos a questão do inventário comercial (seja de bilhética, seja de publicidade) que fica por vender, portanto que não é maximizado em todas as suas vertentes possíveis.

Temos também a questão das propriedades intelectuais.

Como é que isso se trabalha?

Além de olharmos para o futebol como fenómeno desportivo, devemos olhar para o futebol também como um produto de entretenimento, ver quais são as outras componentes de entretenimento que podem ser monetizadas.

E repare que, se nós não fizermos isso, temos muitas outras propriedades com quem competimos e, portanto, temos de estar conscientes que temos de explorar todas essas valências possíveis do nosso produto - que não é só aqueles 90 minutos de jogo, é muito mais do que isso e pode ser muito mais do que isso.

Aliás, nós vimos isso pela nossa política de conteúdos. Desde há um ano que iniciámos uma política de criação de conteúdos muito ativa. Sobretudo conteúdos do que chamamos shoulder content, ou seja, aquilo que acontece fora dos 90 minutos de jogo.

A grande referência aí é o «Drive to Survive», na Fórmula 1. É visto como aquele momento transformador da propriedade Fórmula 1, no sentido em que se começou a fazer o «behind the scenes». E nós começámos a fazer isso.

Os nossos conteúdos estão disponíveis na Liga TV, disponíveis no YouTube e em muitos outros parceiros com quem trabalhamos. E é exatamente isso: é todo aquele outro lado, que comanda também muita curiosidade dos nossos fãs e que, no fundo, galvaniza e amplifica a nossa possibilidade de ter mais espetadores, ter mais seguidores e mais engagement com o nosso produto.

Como estão as sociedades desportivas em relação a avançar para esse modelo de investimento? Estão recetivas? Convencidas?

Eu creio que, neste momento, estamos numa fase de começar a definir como é que essa entrada de capital no ecossistema pode ser desenhada.

Temos, obviamente, muitos precedentes e exemplos de outras ligas – mais uma vez, seja no futebol ou fora do futebol - de como isso aconteceu.

Estamos a começar a desenhar como é que essa entrada se poderá materializar. Sempre nessa lógica de contribuir para a valorização do produto como um todo, de ajudar as sociedades desportivas no esforço (realmente enorme) que fazem para o desempenho atlético que temos e para os bons resultados que estamos consistentemente a obter na Europa, mas também a nível do mundo que olha para o nosso produto.

Apostar no mercado internacional?

Devo dizer que esse é outro aspeto onde há muita convergência possível.

Existe, aliás, uma análise muito interessante que olha para o fan engagement da liga portuguesa que vem de fora. E vemos que existe, até em comparação com outras ligas. Nós estamos muito mais perto, do ponto de vista proporcional, de uma Premier League em Inglaterra ou de uma La Liga em Espanha, na proporção de espetadores que vêm de fora, mas a esse interesse não corresponde a monetização económica.

Portanto, nos direitos ingleses, por exemplo, nós sabemos que 80% do fan engagement vem de fora do Reino Unido, mas, lá está, 80% da receita também vem de fora do Reino Unido. Em Espanha é a mesma coisa. A grande parte do interesse vem de fora de Espanha e uma boa parte, crescente, do valor económico dos direitos vem de fora. Em Portugal, é o contrário: temos o interesse, mas a esse interesse não corresponde a monetização.

E, portanto, temos de trabalhar o mercado internacional. Isto são as vantagens do que se pode fazer num modelo centralizado – e que não se pode fazer no modelo atual, fragmentado - que é trabalhar esse mercado de uma forma muito mais holística e não cada um por si.

Por exemplo?

Uma das iniciativas que temos em cima da mesa é criar um canal para a diáspora. Atualmente, em muitos países, o futebol português não está sequer disponível, ou não acessível de forma legal, e lá vamos falar de pirataria – e a pirataria muitas vezes explica-se exatamente porque a acessibilidade ao produto genuíno, ao produto pago, não é sequer possível.

Esse é um mercado que queremos trabalhar muito - e também percebê-lo melhor.  Eu próprio, tendo vivido muito tempo fora, senti isso. E há talvez até mais portugueses ou lusodescendentes a viver fora do território do que dentro. Portanto, criar um produto para essa base de audiência e, simultaneamente, para a base de audiência que não é portuguesa ou de expressão de língua portuguesa.

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