Inglaterra não vai em joguinhos: as dez medidas para revolucionar o futebol

4 mai, 09:30
O regresso de Ronaldo a casa no Manchester United-Newcastle

O governo britânico avançou com um programa para reformar o jogo no país: entre outras coisas pretende dar voz aos adeptos na gestão dos clubes, aumentar a partilha de receitas da Liga Inglesa com as divisões mais baixas e criar um regulador independente para garantir a sustentatibilidade financeira e fiscalizar a entrada de investidores. A reação foi... de entusiasmo. Em Portugal, para já, não está previsto nada semelhante.

Inglaterra voltou a dar um sinal de que há coisas mais importantes do que ganhar ou perder. Numa altura particularmente crítica para os clubes, o governo lançou um documento com dez medidas para revolucionar o futebol desde a base até ao topo da pirâmide.

A reorganização da forma como os clubes são geridos começou a ser trabalhada há um ano, na ressaca de uma série de crises, entre as quais a falência do Bury, a pré-falência do Derby County e o projeto falhado de Superliga Europeia.

Nos últimos meses, a ameaça de colapso do Chelsea, provocada pelas restrições impostas a Roman Abramovich, tornou mais urgente avançar com o projeto que estava já em construção.

O governo de Boris Johnson apresentou, por isso, à Câmara dos Comuns um documento elaborado por uma comissão para a reforma do futebol, comissão essa liderada pela antiga ministra Tracey Crouch e que teve na origem precisamente as preocupações dos adeptos.

Ora o documento servirá de base para um diploma, que o governo quer concluir até ao verão, e que legislará sobre as obrigações na administração dos clubes. Pelo caminho será dado ao próprio governo a possibilidade de punir quem falhem no cumprimento das regras.

As dez medidas lançadas pela comissão de reforma do futebol inglês são:

  1. Para garantir a sustentabilidade do futebol a longo prazo, o governo deve criar um novo regulador independente para o futebol inglês.
     
  2. Para garantir a sustentabilidade financeira do futebol, o regulador independente deve fiscalizar a regulação financeira nos clubes. 
     
  3. Os testes para a entrada de novos proprietários e diretores nos clubes devem ser estabelecidos pelo Regulador Independente, substituindo os três testes agora existentes e garantindo que apenas bons proprietários e diretores qualificados possam ocupar esses cargos essenciais.
     
  4. O futebol precisa de uma nova abordagem de administração corporativa para apoiar um futuro sustentável do jogo a longo prazo
     
  5. O futebol precisa de melhorar a igualdade, a diversidade e a inclusão nos clubes, comprometendo-se com Planos de Ação avaliados regularmente pelo Regulador Independente. 
     
  6. Como parte interessada e excecionalmente importante, os adeptos devem ser consultados pelos seus clubes na tomada de decisões importantes através de uma direção-sombra. 
     
  7. Os clubes de futebol são uma parte vital para as comunidades locais e, em reconhecimento disso, deve haver proteção especial para elementos-chave do património do clube. 
     
  8. É vital para a saúde do futebol a longo prazo fazer distribuições justas. A Premier League deve garantir o seu apoio à pirâmide e fazer contribuições adicionais e proporcionais para apoiar ainda mais os clubes das divisões inferiores. 
     
  9. O futebol feminino deve ser tratado com paridade e ter sua própria revisão. 
     
  10. O bem-estar dos jogadores que abandonam o jogo é uma questão urgente e precisa de ser mais bem protegido – principalmente numa idade jovem.

No fundo, e segundo avançou o governo, há três traves-mestras essenciais para esta reforma: o estabelecimento de um regulador forte e independente apoiado pela força da lei e capaz de garantir a sustentabilidade financeira em todo o futebol inglês, a necessidade de afastar proprietários sem escrúpulos, através de testes de integridade e solvência, e por fim a necessidade de dar voz aos adeptos na gestão dos seus próprios clubes.

Boris Johnson comprometeu-se ainda a investir 270 milhões de euros no desenvolvimento do futebol, através do melhoramento dos campos para o futebol de formação.

«O futebol une amigos, famílias e comunidades, e é por isso que estamos a levar por diante os planos liderados por adeptos para garantir o futuro de nosso jogo nacional: vamos investir 270 milhões de euros para subir o nível dos campos do futebol juvenil e vamos fortalecer a voz dos adeptos na gestão de seus clubes», justificou o Primeiro-ministro.

Em comunicado, o governo adiantou que a supervisão financeira será desenvolvida em primeira instância pelas entidades desportivas, funcionando o regulador independente como um fiscalizador que garanta o cumprimento das boas práticas no caso daquelas falharem.

«Se há uma coisa boa que saiu daquela ideia de Superliga Europeia foi isto»

As reações a este anúncio do governo inglês foram na generalidade de entusiasmo.

Adam Shergold, jornalista do Daily Mail, referiu em conversa com o Maisfutebol que este projeto de medidas é genericamente e foi saudado pelos ingleses. Sobretudo por dar poder aos adeptos.

«Acho que se há uma coisa boa que saiu da ideia da Superliga Europeia foi a perceção de que é necessária uma mudança no futebol inglês. Durante muito tempo, os clubes de futebol ingleses - que têm valor comunitário e cultural em todo o mundo - caíram facilmente nas mãos de proprietários que só se preocupavam com dinheiro e não com os adeptos», referiu.

«Basta ver como donos americanos do género da família Glazer no Manchester United ou o Fenway Sports Group no Liverpool queriam romper com o futebol inglês e jogar numa Superliga que não refletia o mérito desportivo em coisas como uma descida de divisão. Nenhum verdadeiro adepto poderia concordar com uma coisa destas e os protestos levaram o governo a agir.»

Adam Shergold tem apenas duas ressalvas: que o programa demore muito tempo a ser implementado e que, demorando mais tempo, possa tornar-se mais frágil.

«Acredito que os planos são potencialmente muito bons. Darão mais poder aos adeptos para influenciar os seus clubes, colocarão limites ao dinheiro que os clubes podem gastar, e talvez não vejamos mais concorrência desleal de clubes como o Chelsea ou o Manchester City apenas porque têm proprietários ricos, produzirão uma competição justa e tornarão mais difícil a entrada de proprietários de países com maus registo de respeito pelos direitos humanos. Com estas medidas, é improvável que vejamos mais episódios como o Saudi Arabian Investment Fund a comprar um clube como o Newcastle», adiantou.

«No entanto, a realidade pode ser um pouco diferente. Muitas vezes, a legislação governamental torna-se mais fraca à medida que passa pelo processo de se tornar lei.  Por isso pode levar algum tempo até vermos uma mudança real. Mas se os adeptos tiverem uma voz mais forte na gestão dos clubes, já é um bom primeiro passo.»

«Estamos comprometidos em trabalhar com o governo na introdução das medidas»

A Liga Inglesa, por exemplo, reiterou que «não é necessário que haja um regulador protegido pela lei», referindo que ela própria tem mecanismos para fazer essa regulação, mas de resto aplaudiu o plano do governo.

«Congratulamo-nos com a clareza do governo sobre sua posição e estamos comprometidos em trabalhar com ele durante esta próxima fase de consulta. Concordamos que os adeptos são de vital importância para o jogo e a sua voz deve ser melhor ouvida em toda a Liga Inglesa. Vamos por isso introduzir uma série de medidas para melhorar esta área e planeamos fazer um anúncio detalhado antes do início da temporada 2022-23», sublinhou em comunicado.

Já a English Football League (responsável pelo futebol a partir do terceiro escalão) foi veemente no apoio ao programa apresentado pelo governo.

«A English Football League apoia a criação de um regulador independente que traga mecanismos para redefinir a distribuição das finanças no futebol. Deve reconhecer-se que temos procurado avançar nesta questão nos últimos dois anos, pedindo uma divisão de receitas de 75 - 25 com a Premier League, sem alcançar nenhum progresso visível», disse o presidente Rick Parry.

«Saudamos por isso que o governo esteja aberto a conceder ao regulador o poder de implementar a redistribuição por toda a pirâmide do futebol inglês.»

O projeto do governo, segundo foi avançado, deverá avançar como lei em 2023, embora o regulador só deva estar pronto a entrar em funções em 2024.

Refira-se, já agora, que o programa de governo em Portugal não consagra nenhuma medida de controlo financeiro ou de boas práticas em Portugal.

Segundo o documento apresentado há dias, o governo vai apenas «responsabilizar as entidades reguladoras, as associações públicas profissionais e outras entidades competentes em determinados setores de atividade pela imposição de medidas adicionais aos setores por si tutelados, promovendo boas práticas em setores como o sistema financeiro, da construção, o desportivo e dos serviços públicos essenciais».

Inglaterra, essa, tem pressa em mudar.

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