Anabela Cardoso, 35 anos, fingiu ter cancro da mama para extorquir dinheiro ao namorado. Mas burlou ainda uma idosa, que vivia no lar onde era diretora técnica. Ao todo ficou com quase 70 mil euros. Foi condenada, mas vive em liberdade na terra onde tudo aconteceu
Para conhecermos esta história temos de recuar a 2018. Anabela Cardoso, a protagonista, vivia em Motrinos, Reguengos de Monsaraz, com o namorado. Um dia começa a queixar-se de dores nos braços e uma inflamação mamária. Diz ao namorado que vai fazer exames.
Um dia chega a casa e a notícia chocou namorado e família. Comunica que tem um cancro da mama maligno, agressivo e que precisa de fazer tratamentos. A partir daí tem de sustentar a mentira.
O Exclusivo teve acesso aos áudios das várias sessões de julgamento, nas quais Anabela confessa aquilo que fez. Rapou o cabelo, arrancou uma unha, dizia que tinha vómitos e simulou uma cirurgia ao peito.
“Eu não me lembro de muitos factos, sei que disse que ia ser operada ao peito na Fundação, arranjei um bisturi e lembro-me de sair pela porta do outro lado do hospital e aí mutilar-me”, confessou Anabela no Tribunal de Évora.
Mas o propósito de Anabela era extorquir dinheiro ao então namorado e conta como ela o levou a dar-lhe dinheiro: “Quando ela simulou uma cirurgia ao peito e disse que precisava de pagar à Champalimaud os tratamentos que precisava, eu já sabia que ela não tinha dinheiro”, contou às juízas.
“Sim, foi duas vezes que me transferiu… 24 mil euros”, admitiu Anabela Cardoso.
Depois de lhe fazer várias transferências e de ser alertado por familiares, o namorado começa a desconfiar, como contou em tribunal: “Eram valores muito avultados os que ela mencionava e na altura alertaram-me que não podia ser, não podiam ser esses valores e que devia ver as faturas. Comecei por lhe pedir as faturas, insisti muitas vezes, até que um dia ela apresenta-me uma fatura no computador desses supostos tratamentos.”
Foi aí que percebeu que se tratava de uma mentira, que depois Anabela confessou em tribunal: “Eu falsifiquei as faturas.”
Burla chega ao lar de idosos
Anabela Cardoso não enganou apenas o namorado, mas também idosos, residentes na Associação de Reformados e Pensionistas de Santo António do Baldio, onde era diretora técnica.
O advogado da associação de idosos, Rui Pinto Gonçalves, refere que a mais lesada foi uma utente com mais de 90 anos: “Foram quase 40 mil euros. A conta ficou a zeros.”
Anabela apropriou-se do cartão de débito da idosa e fez pagamentos. Ao todo tirou-lhe 33.728,63 euros.
A suposta doença de Anabela deixou toda a gente com pena: “Os idosos, para além de rezarem muito, chegaram a fazer uma mini procissão entre Santo António do Baldio e Motrinos, que é a aldeia próxima para poderem pedir a Deus para que ela ficasse bem. Choravam os idosos e a direção. Choravam, sofreram com ela e depois sentiram-se absolutamente defraudados. Uma burla emocional brutal”, confessa Rui Pinto Gonçalves.
Ao namorado ficou com 28.248,91 euros e ainda se apropriou de 6.703, 68 euros da associação.
A reviravolta
Assim que o namorado descobriu que estava a ser enganado dirigiu-se à Polícia Judiciária de Lisboa onde apresentou queixa. Chegados a tribunal, Anabela é condenada em primeira instância a cinco anos de pena suspensa. O advogado do namorado não ficou satisfeito e recorre para o Tribunal da Relação de Évora que a condena a seis anos de pena efetiva. Anabela recorre dessa decisão para o Supremo Tribunal de Justiça que mantém os cinco anos de pena suspensa. Está em liberdade e vive na mesma aldeia onde enganou tudo e todos.
O Exclusivo da TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal, foi até Motrinos confrontá-la. Anabela disse-nos que iria falar com a advogada e que depois nos contactava. Nunca o fez.
Está em liberdade e sem ter devolvido um cêntimo do que retirou.
“Tecnicamente, foi condenada ao pagamento das indemnizações. O problema é que quando uma pessoa não tem dinheiro ou não tem bens em seu nome não consegue pagar”, admite o advogado do ex-namorado.
Anabela diz que está arrependida do que fez e desculpa-se com problemas mentais.
Na pequena aldeia de Motrinos ninguém esquece o que aconteceu.