Chega acusado de ter proferido insultos a Ana Sofia Antunes - e não só - durante uma sessão na Assembleia da República (AR). PSD, PS e BE indignaram-se com a bancada do partido de André Ventura. Antes deste caso, a deputada Isabel Moreira (PS) já tinha acusado o presidente do Parlamento de estar a pôr em causa "a decência" parlamentar por validar o comportamento do Chega "sob o pretexto" da liberdade de expressão
Ana Sofia Antunes reagiu esta sexta-feira às ofensas de que foi alvo na véspera por parte dos deputados do partido Chega em plena Assembleia da República, que, com os microfones desligados, como apurou a CNN Portugal, proferiram insultos como “aberração”.
Aos jornalistas, a deputada do Partido Socialista disse sentir-se “desrespeitada” e que os “por demais comentários, apartes, afirmações humilhantes, vexatórias”, que visam todas as pessoas com deficiência, mas também “mulheres, migrantes, [pessoas] com diferentes orientações sexuais, pessoas com diferentes características físicas” têm-se “tornado frequentes, como todas as pessoas que estão neste Parlamento sabem”.
“Ontem [quinta-feira], no plenário da Assembleia da República, fui desrespeitada enquanto pessoa com deficiência. Eu sou uma pessoa com deficiência, sou uma pessoa cega congénita, vivi 43 anos com esta característica e orgulho-me muito daquilo que sou. Mas isso [este episódio] por si só seria grave, mas mais grave é o facto de terem sido ofendidas todas as pessoas com deficiência, rotuladas como incapazes, inábeis ou incompetentes. E é isso que não podemos aceitar.”
No plenário de quinta-feira, além do próprio PS, outros partidos manifestaram publicamente o seu repúdio e indignação, acusando o Chega de André Ventura de bullying e de “apartes” que ultrapassam os limites. “O insulto 'aberração' ouviu-se da nossa bancada”, confirmou Joana Mortágua, do Bloco de Esquerda (BE).
Para a deputada socialista, com tais comportamentos, “chegamos a um limiar em que alguma coisa tem de ser feita, não podemos continuar a permitir que este livre trânsito continue a acontecer na Assembleia da República, a casa da democracia, disfarçado de uma suposta liberdade de expressão”. “Isto não pode continuar a acontecer, porque não sabemos, de facto, onde iremos parar”, vincou.
Apesar de repudiar os comportamentos e os insultos de que foi alvo, Ana Sofia Antunes defendeu que nem todos os eleitores se identificam com os comportamentos de determinados deputados. “Entendo que estes factos devem ser conhecidos e tornados públicos, porque também não acredito que aqueles que se identificam com determinadas forças políticas, alegando que eles vêm para mudar isto tudo, para fazer diferente, se identifiquem com este tipo de posturas e este tipo de comportamento para com as pessoas com diferentes características ou mais vulneráveis.”
As críticas aos comportamentos dos deputados do Chega não são novas. Por exemplo, a deputada do PS Isabel Moreira denunciou-os recentemente num artigo de opinião para a CNN Portugal - e pede a intervenção do presidente da Assembleia da República: “Isto é um Parlamento? Lamento, mas não vou usar este espaço para os preceitos jurídicos. Vou invocar a ética republicana, a decência e a urgente defesa da democracia. Um presidente da Assembleia da República defende-a, o que ela representa, não espera por bombeiros para tirar tarjas colocadas ilegalmente no exterior da casa do povo, repreende quem difama, quem usa da palavra em discurso de ódio e fala sobre isso. Faz pedagogia.”
