De gestora em África a professora no Alentejo. Ana Paula cumpriu o sonho de criança aos 59 anos. “Sou muito feliz” a dar aulas

25 dez 2024, 08:00
Ana Paula Pereira

Filha de professora, em criança, queria... ser professora. A instabilidade da profissão afastou-a, contudo, da docência. Seguiu outro rumo profissional que a levou à Nigéria e a Angola, onde estava agora, como gestora de uma empresa de estudos de mercado. Numa volta de 180 graus, acabou a dar aulas de História numa escola de Portalegre

Ana Paula Pereira nasceu e cresceu com a Serra de Sintra por cenário, no tempo em que os prédios ainda não tinham tomado conta da paisagem e ainda havia “campo” que lhe permitia brincar na rua e esfolar os joelhos.

“O verão, o Natal e a Páscoa eram passados no Alentejo, na Aldeia da Mata, onde podia correr, saltar, andar de bicicleta, subir às arvores. Enquanto as minhas amigas daqui iam à missa, eu ia para o campo subir às arvores”, recorda.

A infância ficou marcada pela profissão da mãe, professora primária. O ensino sempre lhe esteve no sangue, mas as condições de vida de um professor afastaram-na da docência. “Quando tinha cinco, seis ou sete anos, o meu objetivo era ser professora. Não sei se por influência da minha mãe… Quando cresci, não sabia o que queria ser. Estava indecisa entre História e Filosofia. Quando fui para História, foi por puro egoísmo. Fui para História para me ajudar a perceber o mundo em que vivia. Precisava de conhecer o passado para perceber o presente. Sempre fiz muitas perguntas e as respostas nem sempre me satisfaziam. Não pensava no que viria a ser quando terminasse o curso”, recorda.

“Dar aulas era uma das coisas que sempre gostaria de ter feito. Nunca o fiz por causa da instabilidade da profissão. Quando tirei o curso, aos 24 anos, não me imaginava a viver um ano aqui e outro ali e com o salário que é pago aos professores…”, justifica.

As “vicissitudes” da vida

Em poucos anos, Ana Paula teve várias perdas, que a deixaram sozinha a criar dois filhos adolescentes. (Arquivo pessoal Ana Paula Pereira)

A conversa com Ana Paula decorre ao ritmo do som dos sinos da igreja: “Por ironia, moro na Rua da Igreja! Logo eu que sou ateia”. A calma que vive no coração do Alto Alentejo contrasta com as “vicissitudes” que a vida lhe trouxe: “Em 2005, morreu o meu pai e divorciei-me. Em 2006, morreu o meu ex-marido de cancro. Perdi a minha mãe, a minha sogra, que adorava. Uns tempos depois, perdi uma cadela que amava também profundamente e que era o meu suporte emocional. Vi-me sozinha, com dois filhos adolescentes para criar”.

“No meio de tudo isto fiquei desempregada. Foi muito difícil. E digo-lhe: não acho nada que as vicissitudes da vida nos tornem mais fortes. Tornam-nos diferentes, se calhar um bocadinho mais preparados e mais resilientes, mas mais fortes não tornam”, garante.

Num passo atrás na história da vida da Ana Paula, ainda nos voltamos a cruzar com aulas, alunos, quadros, marcadores e livros. Ainda durante o curso de História, “para ganhar um dinheirinho”, Ana Paula fazia “uns trabalhos” em estudos de mercado. E foi esse o percurso profissional que traçou ao longo de cerca de 35 anos. “Nos estudos de mercado, fazemos estudos políticos, estudos de produtos. É um pouco um estudo da história atual”, justifica.

“O meu pai dizia-me sempre que não me via a trabalhar nesta área mais do que seis meses, porque era um gabinete e eu era muito solta. Fiquei lá 34 anos”.

Pelo meio, deu aulas na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa. Era feliz, confessa. Mas a vida levou-a de Portugal. Depois de uma vida ligada aos estudos de mercado em terras lusas, foi convidada a ir para Angola abrir uma filial da empresa onde trabalhava. Tinha visitado o país e tinha-se apaixonado por África. Hesitou, porque os filhos ficaram sozinhos em Sintra. “Foi muito difícil. Mas era um desafio. Estava sozinha, tinha de os sustentar. E o projeto em termos financeiros era muito atraente. E era em África e eu gosto muito de África. Fui de coração partido. Mas fui”, recorda.  

Entre Angola e Nigéria, foram mais de 10 anos em África. Também por lá, chegou a dar aulas num mestrado. Sempre a adultos.

O “acaso” que a tornou professora

Estava em África, prestes a regressar a Portugal, quando recebeu o telefonema para se apresentar na escola 48 horas depois. (Arquivo pessoal Ana Paula Pereira)

Aos 52 anos, numa das vindas a Portugal, sofreu um AVC. “Felizmente, fui logo socorrida e não fiquei com sequelas. Nem percebi que estava a ter um AVC… só percebi que estava a cruzar os pés, como se tivesse bebido uma garrafa de gin [gargalhadas]. Disseram-me ‘mude de vida’. A Marktest soube e convidou-me para ir para o escritório de Angola como diretora-geral. E estive oito ou nove anos como diretora-geral da Marktest em Angola”, conta.

“Conheci o meu atual marido num jantar aqui em Lisboa em janeiro. Ele ficou à minha frente e apaixonámo-nos. Tive o AVC em fevereiro e em maio voltei para Angola. Casámos há oito anos. Ele conseguiu transferência para lá e vivemos lá os dois até janeiro deste ano, quando ele regressou a Portugal”.

Ficou sozinha numa África imensa e deixou de ser feliz. “A situação em Angola estava difícil e eu geria uma empresa com 20 funcionários cujas famílias dependiam dos salários deles. Comecei a ter muitas noites sem dormir”, diz.

Resolveu voltar para Portugal e a ideia era “estar três ou quatro meses de férias” e depois voltar aos estudos de mercado. “Um dia, em setembro, quando estava em Portugal, prestes a regressar a Angola para as últimas semanas de trabalho, estava a ver o telejornal e passou uma reportagem sobre a falta de professores. Pensei: ‘Olha, e se eu concorresse?’. Mas não acreditei que ficasse colocada”, conta, justificando que é agora professora por “acaso”.

Foi no início de setembro e as três semanas seguintes decorreram normalmente. Até que um telefonema lhe mudou a vida: “Telefonaram-me no dia 20 de setembro, uma quarta-feira, para me apresentar na sexta. Comprei o bilhete para vir no dia seguinte. Apresentei-me na sexta-feira à tarde e comecei a dar aulas na segunda-feira seguinte”.

O regresso aos cenários do verão no Alentejo

 

É no Alto Alentejo, onde passava as férias de verão, que agora Ana Paula dá aulas. (Arquivo pessoal Ana Paula Pereira)

Ficou colocada na Escola Secundária Mouzinho da Silveira, em Portalegre. Tinha concorrido às escolas da Grande Lisboa e às de Portalegre. Foi parar ao campo onde subia às árvores e esmurrava os joelhos nos verões que passava no Alentejo. Fica alojada na casa que era da avó e viu nascer a mãe. Todos os dias faz 60 quilómetros, mas a vida devolveu-lhe a calma que ansiava.

“Acabo por ter uma vida muito mais livre do que tinha em Angola. Não estou o dia inteiro fechada a olhar para um computador. Estou com pessoas, converso, ensino. Os miúdos dão-me muita coisa boa. Este ano, estou um bocadinho como voluntariado. Estou a fazer uma coisa de que gosto, estou a reaprender, estou a estudar e estou a transmitir conhecimento. Com aquilo que eu ganho, digo que estou a fazer voluntariado”, brinca.

Tem um horário incompleto de 14 horas, distribuídas por cinco turmas diferentes. “E calhou-me na rifa uma direção de turma, com toda a burocracia que isso tem associado”, conta.

“Estas 14 horas são completamente fictícias, porque trabalho muitíssimo em casa. Cada aula demora-me pelo menos quatro horas a preparar, porque não tinha nada preparado. Andei um bocadinho aos papéis, porque era tudo novo para mim e não sabia mesmo nada como as coisas funcionavam. Os colegas da escola ajudaram-me muito”, reconhece, com gratidão.

900 euros por mês

Com um horário de 14 horas e uma direção de turma, o salário é proporcional e leva para casa pouco mais de 900 euros por mês. Garante que foi a estabilidade financeira que conquistou numa carreira ligada aos estudos de mercado que lhe permitem agora ser professora. Financeiramente, não ganha o suficiente para as despesas mensais. “E não pago renda!”.

Os filhos já são independentes. “Felizmente, já não dependem de mim. Mas tiveram de estudar. Precisaram de educação. Se fosse professora, na altura, não teria sido capaz de lhes dar isso. Agora, não pago casa, mas tenho todas as despesas inerentes a uma casa aqui no Alentejo e em Sintra”, contabiliza.

“Se for para uma caixa de supermercado, não tenho de preparar aulas e se calhar consigo tirar um salário muito semelhante. É muito difícil arrendar uma casa aqui em Portalegre. Tenho colegas que vão e vêm todos os dias da Covilhã para aqui”, diz.

“É difícil para quem vive só do seu ordenado. Se não tivesse criado uma situação financeira que me permitisse isto, era-me muito difícil aceitar uma condição destas. Era muito ingrato, sabendo que no ano seguinte não saberia se iria ser colocada”, acrescenta.

Por isso, Ana Paula revolta-se com a forma como os professores são tratados pela sociedade e pelo poder político. Sublinha que “os professores são a base da sociedade”. “Se não formos bem-ensinados e não tivermos boas bases, não seremos bons engenheiros, não seremos bons médicos, não seremos bons políticos”, ressalva.

As condições de trabalho dos professores não tornam a profissão aliciante, constata Ana Paula: “Não é aliciante e não vejo o Governo a fazer nada para a tornar aliciante. Mesmo agora, com a falta de professores, facilitam o processo e abrem-nos as portas, mas depois, cá dentro, é uma ventania.”

“Não tenho um aluno, tenho um ser humano”

 

Ana Paula assegura que é "muito feliz" na sala de aula. (Arquivo pessoal Ana Paula Pereira)

Com três meses de trabalho a ensinar adolescente, as novidades são muitas. Todos os dias. Ana Paula Pereira constatou que, de facto, ensinar é a sua paixão. “Acabo por ter muitas compensações. Estou num sítio que adoro, com uma vida mais calma daquela que tinha no mundo empresarial”, garante.

Os alunos também são, para ela, uma fonte de conhecimento e de aprendizagem. E trabalhar com adolescentes é uma novidade enriquecedora: “São miúdos de 15 anos. Temos de perceber que já tivemos 13, 14, 15 anos. Já fomos assim. São muito turbulentos, muito barulhentos, mas, até à data, não tive uma falta de respeito.”

“Do outro lado, não tenho um aluno. Tenho um ser humano que também nos está a transmitir conhecimento. Tenho a obrigação de os tornar interessados num assunto que aconteceu há muito tempo e que para eles não lhes diz nada”, resume.

O futuro

Depois de anos em África, Ana Paula regressou a Portugal para dar aulas no 3º ciclo. Diz que se imagina no Ensino "até à reforma". (Arquivo pessoal Ana Paula Pereira)

Ana Paula diz que não consegue imaginar o futuro. “Isto é viver um dia de cada vez”. Mas estes três meses serviram para se convencer que é isto que quer fazer “até à reforma”.

“É o meu projeto de vida neste momento, mas não sei se posso continuar aqui na Mouzinho da Silveira. Nesse aspeto, a minha vida está suspensa. Se me preocupa, não. Mas também não sou uma pessoa de me preocupar muito. Mas vejo-me a fazer isso até à reforma. Se me deixarem”, assegura.

No próximo ano é certo que vai voltar a concorrer. Mas não vai alargar muito o raio geográfico do concurso. Quer continuar pelo Alto Alentejo. “Não vou concorrer para longe. Foi essa instabilidade de não saber onde vou ficar que me fez não seguir a carreira do ensino quando tinha 24 anos”, diz.

Fala da docência com a paixão de uma jovem apaixonada, mas com os pés assentes na terra. E, assegura, compreende o desânimo dos colegas: “Venho para esta profissão com 59 anos. Estou nisto há três meses. Os meus colegas andam nisto há 30 anos. Se calhar, se tivesse 30 anos de carreira, as coisas menos boas da profissão também iriam ser mais evidentes”.

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