"Não estamos cá para servir uma multiplicidade de interesses e mordomias", escreve Ana Paula Martins no Público. Sobre os administradores hospitalares que foram demitidos, considera que "mandariam a decência e a dignidade" que se tivessem eles demitido
"Enfrentamos interesses poderosos que, a seu tempo, os portugueses conhecerão", avisa (e justifica-se) Ana Paula Martins, ministra da Saúde. "Não estamos cá (...) para servir uma multiplicidade de interesses e mordomias".
É por causa desses interesses poderosos que o governo é "alvo de crítica fácil" e que "a mudança não é a desejada" e acontece "mais devagar do que gostávamos", prossegue a governante. Por isso e por causa da máquina do Estado: "Queríamos fazer mais rápido. Mas as diversas ineficiências da máquina do Estado impedem que assim seja".
A denúncia não é concretizada mas fica sugerida como sendo de corporações e lóbis, por sua vez ancorados em quem governava e agora está na oposição: o Partido Socialista. Ana Paula Martins não o explicita, mas a referência é clara, quando escreve sobre "quem no passado decidia" e agora entende que "deve continuar a decidir-se de forma igual", nisso incluindo a “soberba” de quem se acha “iluminado”.
“O SNS é dos portugueses. Não cede a interesses cristalizados ou a qualquer corporação.” Ana Paula Martins
Estas frases constam de um artigo de opinião da ministra da Saúde publicado no jornal Público.
Nela, a ministra da Saúde insiste que, ao contrário das percepções, a Saúde não está pior, mas melhor - e a mudar:
Tentam levar os portugueses a pensar que “o rei vai nu”. Ora, no caso do presente Governo, mais devagar do que gostávamos, mas seguramente, o rei vem sendo vestido e o caminho que traçamos vai deixar aos portugueses um SNS eficaz no serviço que presta, sério na gestão e atractivo para reter profissionais de qualidade".
A ministra diz-se vítima de "gente de toda a espécie" que usa "discursos envolventes apelando ao afecto, misturados com falsidades e vãs promessas", que podem "gerar comentários jocosos e críticos daqueles que falam para si mesmos e para os seus grupos de WhatsApp".
Entre as "falsidades publicadas", Ana Paula Martins enumera que "as urgências fluem melhor, já não há sete, oito ou até 12 fechadas" nem "há o caos que encontrámos na gestão das mesmas"; o director executivo não foi demitido por estar ligado ao anterior governo, garante; e quanto aos dirigentes dos conselhos de administração demitidos, diz, eles não estavam a cumprir a política do Governo, donde "mandariam a decência e a dignidade individuais que se demitissem e não se sujeitassem a estar em funções contra a sua consciência".
Sobre o INEM, Ana Paula Martins é contundente, criticando "a falta de vergonha de quem tenta enganar os portugueses", pois nos oito anos anteriores a março de 2024 "o INEM tinha perdido 35% dos seus quadros e não tinha havido qualquer concurso de recrutamento de técnicos" nem existiam helicópteros do INEM "quando entrámos em funções".
De novo os lóbis e a burocracia:
"Os interesses empresariais são muitos, quase sempre legítimos, mas os interesses dos portugueses tinham de ser acautelados, e, com sinceridade, a máquina burocrática fez-nos incumprir no tempo. Mas no momento de crise, e com o apoio da Força Aérea, conseguimos suprir necessidades. Nunca vi ou ouvi dizer que o ministro da Defesa e a ministra da Saúde fizeram o que deviam. O concurso foi legalmente feito, os helicópteros estão em funcionamento e a empresa que incumpriu pagou as penalidades. O INEM funciona.
Ana Paula Martins conclui: "Estou ministra da Saúde enquanto o primeiro-ministro assim entender e enquanto sentir que estou a mudar algo para melhor".
