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A ministra da saúde perdeu a noção do ridículo?

16 set 2025, 08:00
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O estado deprimente a que chegou o Serviço Nacional de Saúde não é da inteira responsabilidade de Ana Paula Martins. Resulta, como já foi amplamente reconhecido por todos, de anos de desinvestimento, mas, sobretudo, de muitas decisões erradas. Esse diagnóstico está mais do que feito e não adianta estar a chover no molhado. 

Mas constatar esta evidência não iliba, de todo, de responsabilidades a atual ministra da Saúde. Pelo contrário. Ana Paula Martins prometeu o que não consegue cumprir, demitiu e nomeou dezenas de dirigentes e nunca retirou ou exigiu consequências políticas de nenhum erro. E houve vários. A legitimidade para continuar a culpar o passado está, por isso, a esfumar-se rapidamente e já não é possível continuar a ignorar o óbvio: há uma clara desorientação no Ministério da Saúde e ninguém parece saber o que está a fazer. 

Há pouco mais de um mês, Ana Paula Martins foi à televisão anunciar, com um sorriso de orgulho, uma boa notícia: a urgência de ginecologia e obstetrícia do Hospital Garcia de Orta estaria a funcionar em pleno a partir de 1 de setembro. A ministra anunciava, em horário nobre, que o Estado tinha sido capaz de contratar uma equipa ao setor privado e que esses médicos regressavam ao Serviço Nacional de Saúde em condições perfeitamente normais. 

Pois a promessa não durou duas semanas. Este fim de semana, as urgências de ginecologia e obstetrícia do Garcia de Orta voltaram a fechar e todas as grávidas tiveram de ser encaminhadas para Lisboa. Justificação: não houve um único médico tarefeiro que aceitasse estar de escala e, por isso, a urgência teve de fechar. Tarefeiros? Mas não tinha sido contratada uma equipa? Seria cómico, se não fosse trágico. 

Perante isto, a ministra vem agora dizer três coisas extraordinárias: que “a situação que se vive na península de Setúbal é muito preocupante”, como se fosse uma mera espectadora e não a principal responsável política; e que aprendeu “que nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece”, como quem diz, a culpa não é minha, é das equipas. Não satisfeita, ainda se coloca na posição de vítima para se queixar: “Foi muito penalizador para mim ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer perceber porquê.” Extraordinário. Seria cómico, se não fosse uma tragédia para quem precisa de ir aos hospitais. 

Uma das coisas mais difíceis num cargo de liderança é ter de responder por tudo e por todos os que estão na nossa alçada. Um líder sabe que, mesmo não sendo diretamente responsável por tudo o que acontece na sua organização, tem a obrigação profissional e moral de dar a cara, sobretudo quando as coisas não correm bem. Muitas vezes, tem de defender o indefensável. Porque, no limite, não se trata de estar a defender quem errou, mas antes a instituição que representamos. 

E é isso que Ana Paula Martins parece não compreender. Quando vem para a praça pública dizer que foi “traída” pelas suas equipas, só está a contribuir para aumentar ainda mais a insegurança dos cidadãos em relação ao Serviço Nacional de Saúde. Mas a ministra faz pior. Se identificou os responsáveis por mais um plano fracassado, só tem duas coisas a fazer: demiti-los e avaliar bem se tem condições para, ela própria, se manter no cargo. 

Não dou para o peditório dos que passam os dias a pedir a cabeça de ministros. Se Luís Montenegro acha que Ana Paula Martins se tem demonstrado competente para estar à frente do Ministério da Saúde, será ele a responder por essa decisão nas próximas eleições. Mas talvez não fosse má ideia alguém explicar à ministra que não basta saber muito de saúde e conhecer por dentro a máquina para se ocupar aquele cargo. É preciso saber comunicar com o país todos os dias, transmitir segurança às pessoas e, sobretudo, evitar cair no ridículo. Porque, não matando politicamente a ministra, provoca outro tipo de vítimas que não têm culpa da desorganização e da incompetência do Estado. 

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