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"Estavam a enviar-me para a morte". O relato de um dos portugueses “combatentes entre aspas” que estavam na base militar quando Yavoriv foi bombardeada

A Ucrânia abriu os quartéis a combatentes estrangeiros, que se juntam a um exército que tem de adaptar quem ali não foi formado. Alguns são portugueses, “combatentes entre aspas”, como lhes chama com reservas o governo português. Entre esses portugueses há ex-comandos, ex-paraquedistas – e um mecânico de 29 anos, que esteve 15 dias na base militar de Yavoriv, foi bombardeado e dali saiu por não lhe darem armas. Nunca tinha pegado numa. É o primeiro relato de um português sobre como viveu os combates na base militar e porque desistiu de lutar.

Chamemos-lhe N.S. O mecânico português de 29 anos nunca tinha pegado numa arma de guerra na vida, mas foi nas primeiras vagas de estrangeiros a juntar-se aos militares ucranianos, na chamada legião internacional. Entrou na base militar de Yavoriv, no dia 1 de março. Saiu duas semanas depois - depois dos fortes bombardeamentos russos sobre esta cidade da Ucrânia, que o apanharam irmanado com os ucranianos mas desarmado.

O relato de N.S. serve para perceber uma história em curso na guerra na Ucrânia, que abriu as fronteiras, as portas, os quartéis e os braços a combatentes estrangeiros. Muitos continuam a chegar, “batem à porta” na fronteira e dizem que querem lutar. Os primeiros entravam logo, agora há quem se tenha inscrito e esteja em hotéis à espera de ser chamado. A legião internacional é vista com reservas por muitos especialistas e até governos – como o português -, porque há de tudo: profissionais e amadores, mercenários e voluntários, ex-militares e gente sem experiência alguma, que recebe formações rápidas e armas para a mão.

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São “combatentes entre aspas”, assim lhes chamou há dois dias o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, sem esconder as suas reservas. Portugal "não concorda com estes procedimentos" das pessoas, sublinhou. "Entendemos que esta não é a forma mais eficaz de apoiar os ucranianos no seu direito à autodefesa e não faz parte da tradição ou forma de ser dos portugueses, nem é a forma como Portugal contribui para a segurança internacional", explicou o chefe da diplomacia portuguesa. Santos Silva comentava a notícia de que pelo menos sete portugueses estavam na Ucrânia com objetivos militares. Alguns deles estavam na base militar de Yavoriv quando foi atacada no domingo pelas tropas russas

Um deles era N.S.

Do sofá para a guerra

O que fez N.S. pegar no carro e ir do sul de Franca, onde vive desde 2014, até à fronteira da Polónia com a Ucrânia dizer que ir queria combater? Um impulso: “Achava que não fazia sentido ficar sentado a ver um país, civis, incluindo crianças, a serem mortos. Além disso, há o risco de um dia os russos atacarem o resto da Europa”. Tomou a decisão e saiu durante a noite, deixando a mulher e o filho, de quatro anos, em casa. “Deixei uma carta a explicar. Foi um choque para ela. Agora está tudo bem”.

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“Quando cheguei à fronteira da Ucrânia disse ao que ia. Eles chamaram então uns homens que me levaram ao posto de comando avançado. Fui alvo de um interrogatório. No fim, levaram-me para a base militar, que já estava ativa”. Quando chegou, assinou um contrato por termo incerto “até terminar a guerra” – era assim que dizia – e deram-lhe a farda.

No início, diz, os pelotões com estrangeiros não estavam ainda bem organizados e constituídos. Os voluntários andavam pela base – uma grande estrutura, com vários edifícios e camaratas. Conheceu logo um português, um ex-paraquedista que, entretanto, foi colocado nas equipas de forças especiais que andam em missões pelo Ucrânia, a “limpar as cidades atacadas pelos russos”.

Passou 15 dias na base em formação. Acordava às 6:30 da manhã e juntava-se à parada dos militares no pátio, para ouvir o comandante. Às 7:00 faziam exercício físico e uma hora depois tomavam o pequeno-almoço. A manhã era depois dedicada a formação. “Davam-nos palestras de vários tipos. Umas para conhecermos as armas russas e os pontos fracos do adversário, outras sobre socorrismo”. Almoçavam e a continuavam em formação. Na segunda semana que viveu na base começou a ter treinos intensivos de táticas de combate, ofensiva, linhas de defesa, entre muitos outros temas. “Aprendi a arte da guerra”, conta N.S., que em jovem tentou entrar nos fuzileiros, mas partiu um braço, o que o impediu de seguir a carreira.

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O bombardeamento às portas da NATO

N.S. era um dos voluntários portugueses que estavam na base militar de Yavoriv, no domingo, quando a Rússia bombardeou a terra aquela zona, a apenas 25 quilómetros da fronteira da NATO. Poucas horas depois já se contavam pelo menos 35 mortos e 134 feridos no ataque à base perto de Lviv.

Por não ter experiência militar, naquele dia não tinha ainda armas atribuídas. Ao contrário de outros colegas, nunca tinha saído da base em missão. “Estava previsto que naquele dia – em que se deu o bombardeamento - o meu pelotão recebesse finalmente as armas”.

Foi uma noite de terror, relata. “Estava na cama quando perto das 4 manhã percebi pelo barulho que íamos ser atacados”. Na primeira explosão saltou da cama. Como dormia sempre vestido com a farda só teve de enfiar as botas nos pés - nem as atou -, pegar no telemóvel e sair da camarata.

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Desarmado, chegou a fazer uma primeira tentativa para ir à zona onde ficavam instaladas as forças especiais, para ver se havia armas, “mas àquela hora ainda estava tudo fechado a cadeado”. Ficou no meio das explosões.

“Assisti ao vivo a duas explosões e a dois edifícios a cair. A uns 100 metros, um míssil entrou direto numa caserna onde estavam pessoas, ficou destruída, a arder. O mesmo aconteceu à minha frente num edifício junto à cantina”. Sentia os mísseis a passarem-lhe por cima.  “Não tenho bem noção do tempo, julgo que foram muitos durantes 30 minutos”.

Sem armas, recorda, foi esconder-se na floresta ali perto, como manda o protocolo de segurança que lhes foi transmitido. Ficou ali, no meio das árvores, onde estavam outros colegas, até tudo acalmar. “Quando os misseis acabaram, voltámos à base e fomos reagrupados, para se ver se havia mortos, desaparecidos ou feridos. Demorou-se quatro horas a reagrupar e a montar o plano de defesa”.

Na base estariam cerca de 2000 em várias companhias, estima. Estas, com base no plano estratégico definido, foram espalhadas por vários pontos de defesa da base, a de N.S. estava na pista de aterragem de helicópteros. Tiveram ordem para aí se manterem em linha de defesa, “para defender a base do ataque russo que todos acreditavam que ia acontecer”. Na zona onde foi colocado estariam cerca de 200 voluntários, a maior parte desarmados. Foi aí que começou a sua aflição e a de alguns outros militares. “Fizemos ‘piscinas’ a tentar arranjar mantimentos e armas”.

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Foi depois que decidiu abandonar o exército ucraniano, ir embora da base e regressar a casa. “Depois do bombardeamento, todos no exército achávamos que ia haver um ataque terrestre dos russos. E por isso, mandaram-nos ficar em linhas de defesa. Fiquei ali em pé, sem arma, sem colete, sem capacete. Percebi que não podia continuar assim”, conta à CNN Portugal o voluntário que prefere manter discrição na sua identificação por receios de ser confundido com um mercenário, o que garante não ser. “O meu objetivo era combater, e se morresse seria de arma na mão. Assim, éramos apenas carne para canhão”.   

Perante a suposição da iminência de um ataque terrestre à base militar pelos russos, N.S. “queria ter como se defender” e pediu armas ao comandante.  “Disse-lhe que isto era um ato suicida. Ele respondeu que não havia armas, e eu sabia que não era verdade, na zona das forças especiais existiam muitas. E isso ainda me fez pensar mais”.

O voluntário, conta, foi a correr ao local onde sabia haver armas, para buscar algumas para si e para o seu pelotão. “Consegui duas metralhadoras MG 42 e uma arma mais pequena, a AK 47 (Kalashnikov) com três carregadores, e levei. Fiquei com uma das grandes, as outras entreguei a colegas”. Mas sentiu-se desprotegido, e perdeu a vontade de ali estar.  “Se houvesse um ataque, estavam a enviar-me para a morte”. Esse pensamento foi decisivo.

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Eram cerca das 17 horas quando decidiu enfrentar o comandante da sua companhia. “Disse-lhe: “Desculpe, mas eu vou embora. Se formos invadidos isto vai ser um massacre. Não tenho armas e não quero ficar em cativeiro dos russos”

 “Fui à caserna onde se assinam os papéis e disse que queria ir embora. Então eles pediram-me a farda de volta e rasgaram o meu contrato”. Este tinha sido assinado no dia em que ali chegara, 15 dias atrás. “No documento dizia que eu tinha os mesmos direitos que os soldados ucranianos”, conta.  Era uma folha A 4: num dos lados estava escrito em inglês, ou outro em ucraniano. Quanto a ser pago, garante que não sabia de nada. “Há uns camaradas que diziam que íamos receber dinheiro, mas eu não sei de nada. Lá no papel não dizia”. Para N. S, “isso não era o importante. Não fui pelo dinheiro”.

Regresso da guerra

Quando decidiu que ia deixar a legião, um colega mais velho da Islândia quis ir com ele. “Uns ingleses que também iam embora deram-nos boleia no carro. Deixaram-nos na cidade mais próxima da base, que é perto da fronteira. “Nessa noite dormimos no posto e no dia seguinte às 7horas da manhã saímos. Ele apanhou um táxi e eu outro”. N.S. trocou 100 euros que lhe deu pouco mais de 3200 hryvnia, a moeda ucraniana. “No táxi paguei cerca de 1000 e fizemos não mais de 50 quilómetros até á fronteira, onde tinha deixado o carro”. Meteu-se ao volante a caminho de casa. Quando falou com a CNN Portugal estava ainda na República Checa. De recordação, ficou apenas com uma foto do colega paraquedista que conheceu quando chegou. E guardou também uma foto sua tirada na base militar fardado como os militares do exército ucraniano.

Ele era um dos combatentes na base naquela noite, num grupo de que o Ministério dos Negócios Estrangeiros português confirmou estarem presentes sete portugueses. Sete? “´Éramos pelo menos quinze”, contradiz N.S., incluindo “uns jovens ex-militares” portugueses com quem se cruzou. Os outros eram ex-comandos e ex-paraquedistas, o mecânico seria o único sem carreira militar. Foi o primeiro a regressar a casa.