Pedro e Sofia conheceram-se num check-in nos Açores. Sete anos depois deu-se um "clique" numa viagem de metro no Porto

15 fev, 08:00
Pedro e Sofia (D.R.)

AMOR POR ACASO || Pedro e Sofia conheceram-se no verão de 2018, num check-in improvável na ilha de São Jorge, nos Açores. Ambos sentiram de imediato uma "forte conexão", mas foi preciso esperar vários anos para superar uma barreira que não sabiam existir

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Quando Sofia se apresentou diante do hóspede que esperava pelo check-in no hotel onde estava a trabalhar, não imaginava que, sete anos depois, estariam a construir uma vida juntos.

Naquelas férias de verão de 2018, em pleno agosto, Sofia, que regressara da universidade onde estudava no Porto para ajudar os pais no seu negócio local na ilha de São Jorge, nos Açores, tentava responder às solicitações habituais. “Na altura tínhamos um restaurante e, no mesmo edifício, tínhamos quartos a alugar”, explica à CNN Portugal. “Eu estava a servir refeições, como já era normal, e chegou um hóspede para fazer o check-in."

Pedro, que já tinha viajado para outras ilhas do arquipélago noutras ocasiões, reservou aquelas férias de verão para explorar as ilhas do grupo central. “Eu já tinha feito algumas viagens aos Açores, nomeadamente a Ponta Delgada, em São Miguel, e tinha gostado muito. Fiquei fã dos Açores desde a primeira visita que fiz. Em dois anos, fui para aí quatro ou cinco vezes a São Miguel.”

O roteiro incluía paragens nas ilhas Terceira, Pico, Faial e São Jorge. “Os meus dias eram passados a passear, a ler, a fazer trilhos. Na altura, só aluguei carro na Terceira. De resto, nas outras ilhas andei sempre de scooter. Era verão, o tempo estava agradável.”

Pedro reservou três dias para conhecer a ilha de São Jorge. Mas o tempo parecia ter parado assim que chegou, quando foi recebido no alojamento onde ficaria hospedado por Sofia, uma jovem “simpática, muito sorridente, muito bem-disposta e muito prestável”.

“O meu pai foi-me pedir para eu passar do restaurante para a receção para fazer o check-in do Pedro”, conta Sofia, explicando que, além de trabalhar no restaurante, também “era comum” receber os hóspedes. “Mas a probabilidade de ser eu ou de ser outra funcionária era praticamente a mesma. Foi coincidência, talvez por eu estar mais disponível ou porque se calhar fui a primeira pessoa que o meu pai viu na altura.”

Tanto Pedro como Sofia dizem ter sentido uma “forte conexão imediata” assim que começaram a falar. Sofia lembra-se que Pedro fez “uma série de perguntas sobre a ilha” e ficou surpreendida quando percebeu que ele também vivia perto do Porto. “E passámos ali um bom bocado à conversa, tanto que nos distraímos um bocadinho, e o meu pai estranhou eu estar a demorar tanto tempo que acabou por ir lá acima, à minha procura, perguntar o que é que se passava”, recorda Sofia, entre risos.

Ao longo daqueles três dias, Sofia e Pedro foram trocando algumas palavras “muito pontualmente”. Afinal, Sofia estava a trabalhar e “andava sempre de um lado para o outro”, conta Pedro, que estava sempre “atento, a ver se a via para a cumprimentar, para falarmos um bocadinho”.

“Recordo-me muito bem de o Pedro se sentar quase sempre na mesma mesa, na zona do bar”, comenta Sofia. 

“Era tática, porque era uma zona de passagem”, completa Pedro, entre risos.

Sofia reparou também que Pedro andava sempre acompanhado de um livro de José Saramago, um ponto em comum que lhe despertou interesse. “Na altura, também já gostava muito de José Saramago”, conta.

Os três dias terminaram no que pareceu um ápice e, no final da estadia, Sofia e Pedro despediram-se num check-out “muito formal”, igual a qualquer outro, como descreve Sofia. A proximidade geográfica serviu de mote para Pedro sugerir partilharem os contactos um do outro. Poderia dar-se o caso de Sofia “precisar de alguma coisa no Porto”, pensou na altura.

O reencontro no Porto e "o clique"

Pedro e Sofia reencontraram-se ao fim de vários meses, no Porto. Cortesia de Sofia Borges

De regresso ao Porto, Sofia deu por si a procurar um espaço em branco na agenda onde pudesse incluir um café com Pedro. “A Sofia na altura tinha um calendário muito ocupado”, recorda Pedro, entre risos. 

“Eu fazia voluntariado em várias associações, com vários públicos diferentes - sem-abrigo, idosos, crianças. E também tinha a faculdade e o associativismo. Enfim, andava sempre de um lado para o outro”, justifica Sofia.

O reencontro aconteceu meses depois. Sofia conseguiu encontrar uma hora vaga entre as aulas e um evento que tinha no Palácio de Cristal, pelo que o tempo era limitado. Encontraram-se num café nos Aliados e puseram a conversa em dia. Ambos recordam aquele momento como um encontro casual, sem expectativas. Afinal, a ideia era conhecerem-se melhor, noutro contexto, sem um balcão a afastá-los. “Não houve aquele peso de ser um encontro romântico”, conta Sofia.

“Eu tinha curiosidade em conhecê-la melhor”, confessa Pedro. “Mas a perspetiva de algum dia virmos a ter alguma coisa era improvável”, acrescenta, lembrando a diferença de idades. Afinal, Pedro tinha 32 anos na altura e Sofia 19.

Mesmo assim, nenhum dos dois quis abdicar da ligação que sentiram naquele verão. “Eu achava a Sofia muito simpática, muito genuína. Era daquelas pessoas com quem valia a pena ter só uma amizade pura e simples”, descreve Pedro.

Depois daquele café no Porto, Pedro e Sofia mantiveram contacto, ainda que quase sempre através de mensagens. Mesmo estando longe um do outro, “houve sempre o cuidado e a vontade, quer de uma parte, quer de outra, em saber como é que o outro estava”, acrescenta Pedro.

“Apesar da minha agitação de horários e de eu ter pouco tempo sequer para pensar sobre a questão, continuava a pensar nele, a querer saber se ele estava bem e tudo mais”, complementa Sofia.

Os anos foram passando e ambos foram “acompanhando a vida um do outro”. Pedro chegou a estar num relacionamento e, a dada altura, mudou-se para Braga; Sofia foi conhecendo outras pessoas e começou a trabalhar. Apesar de estarem ambos “em fases completamente diferentes”, nunca deixaram de se falar e faziam um esforço para estarem juntos - ora se encontravam no Porto, ora em Braga.

Foram seis anos de uma amizade “inocente”, sem que nenhum dos dois tivesse “segundas intenções”, sublinham. “O Pedro esteve num relacionamento durante alguns anos e, da mesma forma que ele não me via dessa maneira, eu também nunca olhei para ele com segundas intenções.”

Até que, a dada altura, deu-se “um clique”, conta Sofia, descrevendo o momento de elucidação em que percebeu que Pedro tinha “um lugar especial” no seu coração. “Eu estava no metro, a caminho do trabalho e devo ter tido uma baixa de tensão. Estava num período mais agitado de trabalho e senti-me mal, quase desmaiei, e até houve uma pessoa que me ajudou e saiu comigo do metro”, recorda-se.

De repente, Sofia deu por si rodeada de “pessoas que não conhecia de lado nenhum”, mas que foram “extremamente atenciosas” e procuraram ajudar. “E houve uma pessoa que me perguntou: 'A menina tem alguém a quem eu possa ligar para a vir buscar?' E o meu primeiro pensamento foi o Pedro.”

Um pensamento que surpreendeu a própria Sofia. “Não tinha sentido nenhum, eu tinha colegas de casa, tinha amigos próximos, tinha várias pessoas que estavam fisicamente muito mais próximas do que o Pedro, que na altura estava longe do Porto, ou seja, ainda demoraria bastante tempo até me poder acudir, mas foi o meu primeiro pensamento.”

"Desconstruir" em conjunto antes de se "atirarem de cabeça"

Após uma amizade de seis anos, Pedro e Sofia deixaram cair a "barreira" que, até então, não sabia que existia entre eles. Cortesia de Sofia Borges

Foi preciso esperar até ao final de 2024 para Sofia e Pedro perceberem que existia entre eles uma “barreira” que não fazia sentido. 

Depois de terminar a relação de vários anos, Pedro voltou para o Porto e Sofia procurou estar mais presente, apoiando-o e convidando-o a sair com o seu grupo de amigos. Nessa altura, “começámos, naturalmente, a conviver mais”, conta Pedro. “E acabámos por ter conversas que nunca tinham surgido até então”, completa Sofia.

“Percebemos que também tínhamos coisas em comum na forma como víamos os relacionamentos - o que queríamos e o que não queríamos noutra pessoa”, acrescenta Pedro.

Foi como se, de repente, ambos deixassem cair uma “barreira” que, até então, não sabiam que existia entre eles. “Até essa altura, nunca tínhamos pensado um no outro como um eventual parceiro ou parceira”, confessa Sofia. “Por exemplo, nunca tínhamos pensado sobre a questão da diferença de idades num eventual relacionamento.”

À medida que surgiam estas questões, ambos procuravam “desconstruí-las” em conjunto. “Eu questionava-me como é que alguém como o Pedro, 13 anos mais velho que eu, poderia ter interesse numa miúda como eu”, exemplifica Sofia. Pedro, por sua vez, tinha receio de não ter “a mesma energia” que Sofia, que, como diz, tem “a vida toda pela frente”.

“Mas, de uma forma muito natural, fomos percebendo que estas nossas preocupações não tinham qualquer importância”, resume Sofia. 

Mas havia outra questão que pesava na equação. Ambos tinham receio de “estragar a amizade” ao arriscar uma relação. “Tínhamos medo de perder uma amizade tão boa ao tentarmos um relacionamento que não desse certo. Mas rapidamente percebemos que era para dar certo”.

A partir daí, “foi um atirar de cabeça”, descreve Sofia. “Foi tudo muito rápido e fomos viver juntos logo de seguida. Eu conheci a família dele, ele conheceu a minha, e tudo se deveu a essa base sólida que tínhamos construído”.

Os pais de Sofia não fingiram surpresa quando souberam da notícia. “Ao longo dos anos, eu fui falando muitas vezes sobre o Pedro. Ele fazia parte do meu grupo de amigos, portanto era frequente falar sobre ele. Quando eu contei aos meus pais que o Pedro era mais do que um amigo, a resposta do meu pai foi qualquer coisa como: ‘Oh, vocês já se namoram há muito tempo’”, conta Sofia, entre risos.

Até então, Sofia nunca tinha tido “uma relação a sério”. “Mas fui muito sortuda, porque comecei um relacionamento com alguém que já conhecia muito bem. Hoje, com as redes sociais e as aplicações de encontros, é difícil conhecer alguém de uma forma tão natural como aconteceu connosco. Poucas pessoas têm essa sorte.”

Em dezembro do ano passado, Pedro e Sofia fizeram a primeira grande viagem em casal, ao Vietname. Cortesia Sofia Borges

Pedro confessa que, apesar de ter tido outros relacionamentos, “nunca tinha tido esta certeza” em querer estar com alguém como sente com Sofia. “Quando marquei aquela viagem aos Açores, não sabia como ia mudar a minha vida.”

Hoje, mais de sete anos depois daquele encontro no check-in, Pedro e Sofia não resistem em pensar no que teria acontecido se não fosse aquele acaso. “Eu podia ter ido uns dias antes ou depois, a Sofia podia não ter lá ido naquele dia”, reflete Pedro. “Bastava não ter sido eu a fazer o check-in”, completa Sofia. “Aliás, se o Pedro tivesse chegado um pouco mais cedo, ou seja, na nossa hora de ponta da restauração, eu não teria tido tempo para estar a conversar com ele. Portanto, foi mesmo um conjunto de acasos.”

Apesar de viverem no Porto, ambos admitem que os Açores podem vir a ser, no futuro, mais do que um destino de viagem. “Eu lembro-me que na minha primeira viagem aos Açores, quando fui fazer uma prova de BTT com amigos, saí de lá a dizer que queria lá ficar. Um desses amigos ainda há pouco tempo me disse: ‘Eu sempre achei que um dia irias morar para os Açores’.”

“Eu acho que esta é a parte da nossa história que fica em aberto”, complementa Sofia. Até lá, diz, vão continuar a ter “o melhor dos dois mundos”, entre “o charme do Porto e o encanto dos Açores”.

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