Beatriz e Colin conheceram-se em Amesterdão. Depois de um ano separados, casaram-se em segredo no outro lado do mundo

24 ago 2025, 12:00
Beatriz e Colin (Cortesia Beatriz Mota)

AMOR POR ACASO || Quando Beatriz se mudou do Porto para Amesterdão com o namorado da faculdade, não imaginava que, um ano depois, ia conhecer o futuro marido. Depois de um ano afastados por um oceano, tiveram de tomar uma decisão: ou se casavam ou não sabiam quando voltariam a encontrar-se. "A decisão foi muito fácil"

Encontrou o amor numa viagem de avião? Fez uma grande amizade no outro lado do mundo? A sua história é especial, partilhe-a connosco através do e-mail amorporacaso@cnnportugal.pt

 

Quando Beatriz se mudou do Porto para Amesterdão com o namorado da faculdade em 2017, não imaginava que, um ano depois, ia conhecer o futuro marido.

Aos 22 anos, estava a viver sozinha na capital dos Países Baixos, depois de terminar uma relação que não resistiu à mudança de país. 

“Eu estava solteira há um ano, mais ou menos, e estava no meu modo ‘mega solteira’, estava mesmo numa de me conhecer a mim própria, de descobrir o que queria fazer profissional e pessoalmente, e não estava de todo à procura de uma relação", conta à CNN Portugal.

Mas tudo mudou quando conheceu Colin numa “Ugly Christmas Sweater Party” do escritório onde trabalhava. “Eu já o tinha visto, mas nunca tínhamos falado.”

Naquela noite, Colin, que já andava há algum tempo a pensar como meter conversa com Beatriz, tinha o pretexto ideal: tinha acabado de visitar Portugal pela primeira vez com a família, por ocasião do Dia de Ação de Graças. 

“Eu já tinha reparado na Beatriz no escritório, mas não pensei que ela tivesse um interesse por mim, então estava a tentar manter um pouco a distância.”

Mas naquela festa parecia que ambos estavam a ser “atraídos um para o outro”. “Cada vez que eu olhava para o lado, os nossos olhares cruzavam-se. Havia um magnetismo entre nós, que eu honestamente não consigo explicar”, descreve Beatriz.

“Assim que começámos a falar, fez-se um clique imediato. Falámos logo de tanta coisa e nunca houve momentos constrangedores, foi muito natural.”

Uma despedida "difícil"

Naquela altura, Colin estava prestes a completar o estágio de três meses na incubadora de empresas onde Beatriz trabalhava. Em breve, estaria a voltar para Chicago, nos EUA.

A partir daquela noite, ambos começaram “a arranjar desculpas” para estarem juntos, através de amigos em comum. “Ele passou a dar-se mais com amigos meus e eu passei a estar com pessoas do círculo dele.”

As saídas em grupo abriram caminho para encontros a dois - primeiro, em concertos num café de jazz, depois em passeios de bicicleta pelos canais de Amesterdão. Naquelas semanas que ainda restavam até à partida de Colin para os EUA, “decidimos viver como se isso não fosse acontecer.”

Colin e Beatriz conheceram-se numa "Ugly Christmas Sweater Party" no escritório onde trabalhavam. Três semanas depois, Colin partiu para os EUA (Cortesia Beatriz Mota)

Beatriz confessa que ainda tinha esperanças que Colin acabasse por ficar em Amesterdão, mas na noite anterior ao voo percebeu que tinha de encarar a realidade. “Foi… foi muito difícil. Nessa noite, fui eu que puxei a conversa. Lembro-me de ter pensado: ‘bem, se calhar ele não está interessado de todo e só queria uma experiência europeia.’”

“Mas ganhei coragem e perguntei-lhe: ‘O que é que nós vamos fazer?’ Disse-lhe que gostava imenso dele, que me sentia tão bem com ele e que sentia que era uma pena não tentarmos alguma coisa à distância.”

Colin ficou reticente. Já tinha vários exemplos à sua volta de relações à distância que “correram mal” e receava fazer parte das estatísticas.

“Nessa noite, não dormimos. Acabámos por falar a noite toda, tivemos uma conversa muito emocional. Só me lembro que no dia a seguir fui levá-lo ao aeroporto super cedo de manhã e a seguir fui trabalhar.”

“Os meus colegas de trabalho sentiram que eu estava tão triste que até me levaram a comer panquecas num sítio lá perto”, recorda Beatriz. “Esse dia foi terrível.”

Decidiram ambos arriscar. Colin confessa que partiu para os EUA “com medo”. “Foi uma despedida muito estranha, em que tivemos de dizer adeus mas não estávamos bem a despedir-nos um do outro. Eu estava com medo porque não fazíamos sequer ideia de quando é que voltaríamos a estar juntos”.

“Nós não tínhamos plano absolutamente nenhum”, complementa Beatriz. “O nosso plano era mantermo-nos em contacto e tentar. Não tínhamos data prevista para nos voltarmos a ver.”

“Foi viver um dia de cada vez.”

O reencontro

A partir daquela madrugada de janeiro, Beatriz e Colin falaram “todos os dias” por telefone, estabelecendo uma rotina de “chamadas tardias” entre fusos horários. De tal forma, que, quando se reencontraram, três meses depois, no mesmo aeroporto em Amesterdão, nenhum deles queria acreditar.

“Já estava tão habituada a vê-lo no ecrã do telemóvel durante tanto tempo que, quando o vi, só pensei ‘ele existe mesmo’”, confessa Beatriz, entre risos. “Parecia surreal.”

Nesse ano, voltaram a encontrar-se mais duas vezes - Beatriz visitou-o em Chicago e Colin fez-lhe uma surpresa em agosto, por ocasião do aniversário dela. Na altura, Beatriz estava de malas prontas para voltar para Portugal.

“Para mim, aquele capítulo de Amesterdão estava encerrado. Ele não estava lá, eu já tinha feito as coisas que tinha a fazer lá. Aconteceu tanta coisa naqueles dois anos que eu cheguei ao ponto em que pensei: ‘já fiz tudo o que tinha a fazer aqui’.”

“O Colin apareceu de surpresa em Amesterdão, ajudou-me com as malas e foi comigo até Portugal, portanto foi uma mega-surpresa.”

"O derradeiro teste" à relação

Foi nessa altura que decidiram começar a planear o futuro em conjunto. Sendo ambos designers de produto, a ideia era escolher um país que lhes permitisse construir uma carreira na área e que não colocasse entraves ao nível dos vistos. O Canadá afigurou-se a opção “mais fácil” para os dois - ou aparentemente mais fácil. Na altura, o país oferecia a possibilidade de aceder a um visto de trabalho de dois anos. Com o processo de candidatura “praticamente terminado”, Beatriz partiu para Chicago em fevereiro de 2020, onde ambos planeavam viajar de carro até Toronto e começar uma vida nova.

“Já estávamos a arrumar tudo em caixas para nos mudarmos, enquanto aguardávamos o visto”, recorda Beatriz. “Recebi-o e, no dia a seguir, as fronteiras do Canadá fecharam.”

“Já estávamos a prever que isso pudesse acontecer”, confessa. Afinal, já se sabia de restrições noutros países, como em Portugal, onde os pais lhe contavam que “estava tudo fechado” por causa da covid-19.

Depois de um ano numa relação à distância, o casal deparou-se então com um outro “teste”. “Nós passámos de não estar juntos de todo a estarmos juntos o tempo todo, todo, todo”.

“Ficámos presos nos EUA quase meio ano, num apartamento relativamente pequeno de três quartos, que eu estava a partilhar com dois colegas da faculdade”, conta Colin.

Colin e Beatriz, em dezembro de 2020, nos Países Baixos (Cortesia Beatriz Mota)

Os primeiros dias foram “stressantes”, recorda Beatriz. Não só estava preocupada com os pais, como de repente ficou sem perspectivas de arranjar emprego. “Eu tinha entrevistas agendadas com empresas no Canadá que ficaram sem efeito e nunca mais me disseram nada.”

Foram tempos “difíceis” em que os dois se ampararam um ao outro. “O Colin esteve sempre lá para mim, compreendeu sempre as minhas ansiedades por estar longe da minha família e de não ter trabalho. E eu acredito que consegui fazer o mesmo com ele.”

Contra todas as expectativas, a reviravolta nos planos acabou por fortalecer ainda mais a relação. “Foi mesmo o derradeiro teste.”

O casamento "em segredo"

Ao fim de seis meses “presos” nos EUA, a partilhar o apartamento e uma cama de solteiro, tiveram de tomar uma decisão. “As fronteiras do Canadá não iam abrir tão cedo, eu não podia ficar nos EUA muito mais tempo. A única coisa certa é que queríamos continuar juntos.”

Decidiram voltar para Amesterdão, onde ambos tinham amigos e “facilmente” conseguiriam arranjar trabalho. E foi então que começou um outro desafio: uma luta burocrática com os serviços de emigração.

“Percebemos que o Colin não podia simplesmente entrar” na Europa. “Na altura, eles [em Amesterdão] tinham um visto de residência para casais, mas um dos requisitos era que tínhamos de estar 12 meses num contrato de arrendamento, sem sermos casados”, contra Beatriz.

“Chegámos à conclusão que a única maneira de conseguirmos fazer isso acontecer seria casarmo-nos.”

“Ou casávamos ou não sabíamos quando nos voltaríamos a ver. A decisão foi muito fácil”, conta Beatriz. “Estávamos certo do que queríamos. Mas, na perspetiva de todas as outras pessoas, sobretudo da nossa família, reconhecemos que poderia ser estranho.”

“Então decidimos fazer tudo em segredo.”

Casaram-se ao fim de algumas semanas, numa cerimónia pouco convencional. “Nós tivemos sorte, por um lado, porque, para casar nos EUA, é preciso ter alguém com uma licença para o fazer. E eu lembrei-me que um dos meus colegas de faculdade uma vez contou-me que, pela piada, tinha conseguido tirar uma licença para fazer casamentos”, conta Colin.

Tendo em conta as restrições à mobilidade, e como o amigo de Colin não estava em Chicago, as opções não eram muitas. Com cenário romântico, música e champanhe, o amigo arranjou a solução: “Ele fez toda a cerimónia através do Zoom.”

“Nós estávamos no sofá, fechados num apartamento em Chicago, e ele conseguiu tornar aquele momento engraçado e especial. Teve tanto de cómico como de inesquecível”, descreve Beatriz.

De um dia para o outro, Colin e Beatriz tiveram de tomar uma decisão: "Ou casávamos, ou não sabíamos quando nos voltaríamos a ver. A decisão foi muito fácil e dias depois, estávamos no registo civil." (Cortesia Beatriz Mota)

O "segundo casamento"

Os pais de ambos só souberam dois anos depois, quando Colin e Beatriz se mudaram para Portugal depois de passarem seis meses em Amesterdão. Apesar da surpresa, “ninguém levou a mal”, diz Beatriz. “Acho que todos perceberam o nosso lado e ficaram contentes.”

“Eles ficaram muito felizes”, completa Colin. “E depois eventualmente toda a gente descobriu no casamento.”

No ano passado, três anos depois de se mudarem para Portugal, decidiram celebrar o casamento com a família e amigos. “Estávamos à espera do momento certo para fazermos a festa porque queríamos convidar todas as pessoas que fizeram parte da nossa história, e isso inclui amigos de Amesterdão, dos EUA, etc.”

Depois de um casamento por Zoom, em plena pandemia, o casal reuniu familiares e amigos de todo o mundo para celebrar em conjunto (Cortesia Beatriz Mota)

“Convidámos o meu amigo que nos casou através do Zoom para fazer o casamento aqui, presencialmente. E no discurso ele informou toda a gente que aquela era, na verdade, a segunda vez que nos casava”, recorda Colin, entre risos.

Ao longo destes últimos anos, Colin - que inicialmente estava reticente com esta mudança - apaixonou-se por Portugal. “Isto é fantástico. Adoro o estilo de vida aqui, é completamente diferente dos EUA. Adoro a comida - bolas de berlim, pastel de nata, bacalhau à brás - adoro as pessoas, o clima, tudo”, declara, num português tímido. 

Colin gostou tanto de Portugal que conseguiu convencer os pais a mudarem-se dos EUA para o Porto. O próximo passo é convencer os irmãos. Afinal, a família vai estender-se em breve: há um bebé a caminho.

Se também encontrou o amor por acaso, partilhe a sua história através do e-mail amorporacaso@cnnportugal.pt

Relacionados

Viagens

Mais Viagens

Na SELFIE