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Um sistema vital de correntes do Oceano Atlântico está mais próximo do colapso do que se pensava

CNN , Laura Paddison
1 mai, 09:00
amoc

 

 

 

Um colapso da AMOC provocaria perturbações profundas: empurraria a Europa para um frio extremo no inverno, aceleraria a subida do nível do mar na costa leste dos Estados Unidos e causaria secas prolongadas em várias regiões de África

(Na foto acima: visualização das correntes oceânicas no Atlântico Norte. As cores indicam a temperatura da superfície do mar: laranja e amarelo são mais quentes, verde e azul mais frios.
NASA Goddard Space Flight Center)

O sistema crítico de correntes oceânicas que circula pelo Atlântico está a enfraquecer e pode estar muito mais próximo de colapsar do que se pensava, segundo dois novos estudos — um evento que teria impactos catastróficos no clima e no estado do tempo à escala global.

A Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) funciona como uma enorme passadeira rolante, transportando calor, sal e água doce através do oceano e influenciando o clima, o estado do tempo e o nível do mar em todo o planeta.

Um número crescente de estudos sugere que está a enfraquecer à medida que o aquecimento global causado pela atividade humana altera o delicado equilíbrio entre temperatura e salinidade. Um desses estudos chegou mesmo a prever que poderia colapsar já na próxima década. Ainda assim, a AMOC é um sistema complexo e só é monitorizada de forma contínua desde 2004. Os modelos climáticos concordam, em geral, que irá enfraquecer ao longo deste século, mas existe grande incerteza quanto à magnitude dessa diminuição.

As consequências seriam enormes. Um colapso da AMOC — que ocorreu pela última vez há cerca de 12.000 anos — provocaria perturbações profundas: empurraria a Europa para um frio extremo no inverno, aceleraria a subida do nível do mar na costa leste dos Estados Unidos e causaria secas prolongadas em várias regiões de África.

Os dois novos estudos — um centrado no futuro da AMOC e outro no seu estado atual — trazem novas e preocupantes evidências do seu declínio.

As conclusões são “importantes e preocupantes”, afirma Stefan Rahmstorf, oceanógrafo da Universidade de Potsdam, na Alemanha, que estuda a AMOC há décadas e não participou em nenhum dos trabalhos.

Pessoas transportam recipientes de água numa zona afetada pela seca no Quénia, em agosto de 2025. O colapso da AMOC poderá provocar impactos catastróficos, incluindo secas prolongadas em partes de África. (Gerald Anderson/Anadolu/Getty Images)

No estudo mais recente, publicado na revista Science Advances, os cientistas combinaram modelos climáticos com dados reais — incluindo temperatura e salinidade do oceano — para traçar a evolução da AMOC nas próximas décadas.

Concluíram que a maioria dos modelos subestima o seu declínio. A AMOC poderá abrandar mais de 50% até ao final do século — um “enfraquecimento substancial” cerca de 60% superior ao estimado pela média dos modelos climáticos, segundo o estudo.

Os resultados mostram que os modelos mais “pessimistas” — aqueles que indicam um forte enfraquecimento — “são, infelizmente, os mais realistas”, sublinha Rahmstorf. Isso aumenta o receio de que o sistema possa atingir um ponto de não retorno já a meio deste século — um ponto a partir do qual o colapso “basicamente já não pode ser travado”.

De forma preocupante, o enfraquecimento poderá ser ainda maior do que o estimado, uma vez que o degelo da Gronelândia não está incluído nos modelos, acrescenta.

Um outro estudo, publicado por cientistas da Universidade de Miami, analisou o estado atual da AMOC.

Os investigadores recorreram a dados recolhidos em quatro pontos de monitorização ao longo da margem ocidental do Atlântico Norte, que desde 2004 medem temperatura, salinidade e velocidade das correntes oceânicas. Os dados mostram que a AMOC tem vindo a enfraquecer em quatro latitudes diferentes ao longo das últimas duas décadas.

Baía de Disko, Gronelândia, a 15 de março de 2026. O degelo está a alterar o equilíbrio de salinidade que sustenta a AMOC. (Florent Vergnes/AFP/Getty Images)

O facto de o enfraquecimento ter sido observado em todos os pontos é significativo, explica Shane Elipot, oceanógrafo físico da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, e autor do estudo. Embora os dados incidam apenas sobre a margem ocidental do Atlântico, esta região é “um canário na mina” para o que está a acontecer com a AMOC.

Os dados reais ajudam a validar as previsões dos modelos climáticos, acrescenta. “A parte preocupante é que os mesmos modelos indicam que a AMOC poderá estar a aproximar-se de um ponto crítico a partir do qual acabará por colapsar”, analisa.

O estudo fornece “fortes evidências observacionais de que a AMOC atual está, de facto, em declínio”, sublinha René van Westen, investigador em ciências marinhas e atmosféricas na Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, que não participou no estudo.

Os resultados de ambos os estudos são muito preocupantes, considera, mostrando que o enfraquecimento já está em curso e é subestimado pelas projeções atuais.

“Isto também significa que o risco de atingir um ponto de não retorno está a aumentar”, conclui, “já que cada enfraquecimento adicional aproxima o sistema desse limite”.

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