Durante a noite, adeptos de futebol israelitas foram espancados e feridos em violentos confrontos em Amesterdão, que as autoridades neerlandesas condenaram na sexta-feira como sendo antissemitas.
A polícia neerlandesa declarou ter iniciado uma investigação aprofundada sobre os múltiplos incidentes ocorridos na sequência do jogo da Liga Europa, disputado na quinta-feira à noite entre o Maccabi Telavive, de Israel, e o Ajax, dos Países Baixos.
A presidente da Câmara de Amesterdão, Femke Halsema, afirmou que criminosos se deslocaram em motas e vasculharam a cidade em busca de adeptos do Maccabi em ataques de “atropelamento e fuga”. “Este é um momento terrível para a nossa cidade. Estou muito envergonhada com o comportamento demonstrado ontem à noite”, disse Halsema numa conferência de imprensa.
As autoridades de Amesterdão informaram na manhã de sexta-feira que cinco adeptos israelitas feridos já tiveram alta do hospital e que 20 a 30 outras pessoas sofreram ferimentos ligeiros. No total, 63 pessoas foram detidas e 10 continuam sob custódia, segundo a polícia.
As tensões aumentaram durante a preparação para o jogo de quinta-feira à noite, com vários vídeos nas redes sociais que mostravam os adeptos do Maccabi a entoar insultos anti-árabes, a elogiar os ataques militares israelitas em Gaza e a gritar “que se lixem os árabes”. Outros vídeos aparentemente filmados em Amesterdão mostram homens a arrancar bandeiras palestinianas de edifícios. Não é claro quando é que esses vídeos foram filmados.
Depois do jogo, centenas de adeptos do Maccabi “foram emboscados e atacados em Amesterdão”, declarou a embaixada israelita nos Estados Unidos na rede social X, partilhando vídeos da violência.
Horrific scenes from Amsterdam last night, echoing Europe's darkest history:
— Israel ישראל (@Israel) November 8, 2024
Hundreds of fans of Israel’s @MaccabiTLVFC were ambushed and brutally attacked in Amsterdam last night after the match against @AFCAjax.
Mobs chanted anti-Israel slogans and proudly shared videos of… pic.twitter.com/3O1KahWhl8
Um vídeo mostra um homem a ser pontapeado enquanto está deitado no chão, enquanto outro vídeo mostra um homem a ser agredido por um outro que grita “Palestina livre” e “pelas crianças, filho da puta”. A CNN ainda não conseguiu verificar estes vídeos.
Outro vídeo mostra um homem a gritar “eu não sou judeu” enquanto é perseguido na rua, atirado ao chão e espancado.
A polícia afirmou que o ambiente no estádio era relativamente calmo e que os adeptos saíram sem incidentes depois de o Ajax ter vencido o jogo por 5-0, mas durante a noite foram registados vários confrontos no centro da cidade.
A presidente da Câmara de Amesterdão acrescentou: “Pode haver tensões, há muitas manifestações e protestos e estamos sempre preparados para eles e, claro, estão relacionados com a situação no Médio Oriente e com a guerra em curso. Mas o que aconteceu ontem à noite não foi um protesto. Foi um crime”.
“Não há desculpa para o comportamento antissemita demonstrado ontem à noite pelos desordeiros que procuraram ativamente os adeptos israelitas para os atacar e agredir”, afirmaram as autoridades locais de Amesterdão, acrescentando que a polícia interveio várias vezes para proteger os adeptos e escoltá-los até aos hotéis.
A polícia disse anteriormente que tinha reforçado a sua presença no centro da cidade na noite de quarta-feira, citando “tensões” em várias áreas, um dia antes do jogo.
Os agentes “impediram um confronto entre um grupo de taxistas e um grupo de visitantes que vinham do casino adjacente” na quarta-feira, disse a polícia num comunicado na rede social X, referindo outro incidente, em que uma bandeira palestiniana foi rasgada no centro de Amesterdão por desconhecidos.
Na quinta-feira, manifestantes pró-palestinianos tentaram chegar ao estádio Johan Cruyff, apesar de a cidade os ter proibido de lá irem, noticiou a agência Reuters.
O primeiro-ministro holandês, Dick Schoof, classificou os ataques de “terríveis” e “horríveis”. “Há sempre problemas em torno dos jogos de futebol, e os jogos de futebol relativos à equipa israelita também têm uma atenção especial por parte da polícia, mas as coisas que aconteceram ontem à noite são simplesmente terríveis, horríveis”, disse, antes de acrescentar que estava "completamente envergonhado" por isto ter acontecido nos Países Baixos.
“Isto é completamente inaceitável. Estou em estreito contacto com todas as partes envolvidas e acabei de falar com Netanyahu [primeiro-ministro israelita] por telefone para sublinhar que os autores serão identificados e processados”, disse, acrescentando que "a situação em Amesterdão está agora novamente calma".
Na sexta-feira, Netanyahu recebeu uma informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros do país sobre os esforços para o regresso dos cidadãos israelitas de Amesterdão. Durante a reunião, Netanyahu comparou os ataques antissemitas contra os adeptos de futebol israelitas à Kristallnacht, ou “Noite de Cristal”, quando o regime nazi atacou empresas, sinagogas e casas de propriedade judaica em toda a Alemanha em 1938.
“Amanhã, há 86 anos, foi a Kristallnacht - um ataque aos judeus, sejam eles quais forem, em solo europeu. Ontem celebrámo-la nas ruas de Amesterdão. Foi o que aconteceu. Só há uma diferença: entretanto, foi criado o Estado judaico. Temos de lidar com isso”, disse Netanyahu, de acordo com um comunicado do governo.
Numa declaração separada do seu gabinete, Netanyahu instou as autoridades neerlandesas a “atuar com firmeza e rapidez contra os desordeiros e a garantir a paz dos nossos cidadãos”. Inicialmente, disse que estava a ordenar “aviões de salvamento” para ajudar os cidadãos israelitas, mas o seu gabinete disse mais tarde que se iria concentrar em soluções de voos comerciais.
O ministro israelita Gideon Sa'ar deslocou-se aos Países Baixos na sequência dos ataques, que condenou como “bárbaros e antissemitas” e que classificou como “um grito de alarme para a Europa e para o mundo”.
Após uma reunião com altos funcionários neerlandeses, Sa'ar sublinhou que Israel espera que sejam instaurados processos penais contra os autores dos ataques de quinta-feira. “Esperamos detenções, esperamos um castigo severo”, disse num comunicado.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros palestiniano declarou em comunicado que “condena os cânticos anti-árabes dos israelitas e os ataques ao simbolismo da bandeira palestiniana em Amesterdão”. Apelou também ao governo neerlandês para “proteger os palestinianos e os árabes nos Países Baixos”.
O Conselho de Segurança Nacional de Israel pediu aos cidadãos que evitem o jogo de sexta-feira à noite do Maccabi Telavive contra o Virtus Bologna em Itália, a contar para a Euroliga de basquetebol.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel está a rever a segurança dos israelitas que vivem no estrangeiro e de todos os futuros eventos desportivos da equipa israelita na Europa, incluindo o reforço da cooperação com as autoridades locais, disse um funcionário israelita à CNN.
Na sequência do incidente de Amesterdão, algumas pessoas em França pediram que o jogo da próxima semana entre as equipas de futebol francesas e israelitas fosse transferido para outro local.
No entanto, o ministro francês do Interior, Bruno Retailleau, disse na sexta-feira: “A França não vai recuar, pois isso seria o mesmo que abdicar perante as ameaças de violência e antissemitismo”. Estão a ser tomadas medidas de segurança para o jogo no Stade de France, perto de Paris, acrescentou.
Enquanto isso, a UEFA, órgão regulador do futebol europeu, anunciou na segunda-feira que uma partida da Liga Europa entre o Maccabi Tel Aviv e a equipa turca do Beşiktaş, marcada para final de novembro, será transferida para um local neutro, após uma decisão das autoridades turcas.
Matthew Chance, Kareem Khadder, Niamh Kennedy e Lauren Izso da CNN contribuíram para esta notícia