Os americanos estão a tentar passar por canadianos no estrangeiro, mas não enganam ninguém

CNN , Vivian Song
29 nov, 19:00
Canadá (EUA)

Susanna Shankar estava a viajar sozinha por Espanha este verão quando foi confrontada por um companheiro de viagem que se recusava a acreditar que ela era canadiana.

Susanna estava no hotel quando começou a conversar com um senhor idoso com sotaque britânico. Como tantos viajantes fazem, ele perguntou-lhe de onde vinha. Mas, quando ela disse que era de Vancouver, a conversa tomou um rumo inesperado.

Imediatamente, o homem olhou-a com desconfiança. Acusou-a de estar a mentir, para horror da filha, que o tentou convencer a parar com o interrogatório.

“Ele simplesmente não acreditava quando eu disse que vinha do Canadá”, conta Susanna. “Então eu disse: ‘Quer ver o meu passaporte? Como é que quer fazer isto?’”

Susanna, de 37 anos, é cidadã norte-americana e canadiana, e gere sites sobre turismo regenerativo e sustentável. O pai é canadiano, a mãe americana. Cresceu no Alasca e viveu nos EUA até aos 28 anos, viveu seis anos na Alemanha e depois mudou-se para Vancouver, onde vive há quatro anos. Por razões políticas, Susanna diz identificar-se menos como americana e passou a apresentar-se como canadiana. Mas, por vezes, o seu sotaque da costa oeste dos EUA denuncia-a.

“Acho que a dúvida dele teve um pouco a ver com o facto de haver muitos americanos a tentarem passar por canadianos”, acrescenta.

Susanna refere-se a uma prática com décadas conhecida como “flag jacking”, em que alguns americanos fingem ser canadianos enquanto viajam para evitar sentimentos anti-americanos. Os adeptos do “flag jacking” cosem a bandeira da folha de bordo nas mochilas e mentem sobre a nacionalidade. Aconteceu já nos anos 60 e 70 durante a impopular Guerra do Vietname, voltou a intensificar-se com a Guerra do Iraque de George W. Bush, no início dos anos 2000, e ressurgiu sob a atual administração Trump.

Susanna Shankar, fotografada em Malta, é cidadã norte-americana e canadiana. Foi recentemente acusada de mentir sobre as suas origens. (Cortesia de Susanna Shankar)

Alguns canadianos, irritados com a guerra comercial que se intensificou com o aumento de 10% das tarifas sobre o Canadá decidido pelo presidente Trump e com anteriores ameaças de anexação do país, têm criticado americanos que brincam com a ideia de fingir ser canadianos no estrangeiro, publicando comentários online a chamar a prática cobarde, arrogante e uma forma de apropriação cultural.

Além disso, um dos argumentos mais comuns contra o “flag jacking” é que eles não enganam ninguém: muitos dizem que os americanos são facilmente distinguíveis dos canadianos, por mais bandeiras com folhas de bordo que usem.

Mas será mesmo assim?

Para lá de diferenças óbvias como a forma de medir a temperatura (Celsius ou Fahrenheit), sotaques regionais marcados (franco-canadiano ou do sul dos EUA, por exemplo) e respostas a perguntas-relâmpago como “Qual é a capital do Canadá?” (resposta: Ottawa) e “Como se pronuncia Toronto?” (os torontonianos não pronunciam o segundo ‘t’) - será que o resto do mundo distingue realmente americanos de canadianos?

Os canadianos são "mais subtis"

Vários guias turísticos europeus que trabalham com americanos e canadianos responderam com um sonoro “sim”.

“Os estereótipos existem por uma razão”, afirma Denisa Podhrazska, natural de Londres, fundadora da Let Me Show You London, que organiza visitas privadas para turistas de alta capacidade financeira desde 2014.

“Usamo-los porque muitos são verdade. E não é só com os americanos, é com toda a gente. Cada país tem as suas pequenas manias, é assim que nos reconhecemos uns aos outros.”

E, quando se trata de americanos, uma das formas mais fáceis de os identificar no estrangeiro é que se ouvem antes de se verem, explica.

“Consegue-se sempre ouvir os americanos porque são barulhentos. Muito simpáticos, e barulhentos”. “Os canadianos não se destacam tanto. Em conversa, são mais subtis, não se ouvem a duas mesas de distância.”

Denisa Podhrazska conduz uma visita guiada em Londres. Na sua experiência, os viajantes americanos são “muito simpáticos e barulhentos”. (Cortesia de Denisa Podhrazska)

Muitos canadianos preferem afirmar diretamente de onde vêm. Como diz a piada: como se reconhece uma pessoa do Canadá? Ela própria diz.

“Os canadianos identificam-se imediatamente como canadianos”, sublinha o parisiense Bertrand d’Aleman, fundador da My Private Paris. Outros guias concordam. Acreditam que os canadianos o fazem para evitar serem confundidos com americanos.

Há pouca investigação académica sobre diferenças entre turistas americanos e canadianos, explica Kim Dae-young, professor de gestão hoteleira na Universidade do Missouri.

Mas a sua própria investigação revela como a nacionalidade, o sentimento de direito e o estatuto social percebido influenciam a forma como um turista interage com um destino.

“As conclusões mostram consistentemente que a nacionalidade pode moldar significativamente o comportamento no estrangeiro”, afirma. “Quando alguém visita um destino que percebe como mais avançado do que o seu país, é menos provável que tenha comportamentos incorretos. As mesmas pessoas tendem a comportar-se pior quando visitam um país que consideram menos desenvolvido.”

Para a sua pesquisa, Kim pediu a americanos que imaginassem viagens a França - percecionada como mais avançada - e à Tailândia - vista como menos desenvolvida. Os resultados mostraram que os americanos eram mais propensos a deitar lixo para o chão, vandalizar ou usar roupa inadequada na Tailândia do que em França.

Segundo a investigação de Kim Dae-young, professor de gestão hoteleira na Universidade do Missouri, os americanos têm maior probabilidade de se comportar melhor em França do que na Tailândia (na foto, Koh Samui). (Lauren DeCicca/Getty Images)

Americanos são mais diretos e vocais

Apesar da escassez de estudos científicos, profissionais de viagens têm muitas outras observações sobre as diferenças entre viajantes dos EUA e do Canadá.

O australiano Leigh Barnes, presidente para as Américas da Intrepid Travel, afirma que os canadianos tendem a ser aventureiros e espontâneos, abertos a novas atividades e a coisas inesperadas, enquanto os americanos preferem estrutura e organização.

Da mesma forma, os canadianos são menos propensos a queixar-se abertamente e guardam o descontentamento para si, enquanto os americanos expressam mais facilmente quando algo não corresponde às expectativas, acrescenta Barnes.

“Os americanos são um pouco mais barulhentos, fazem mais perguntas e são mais diretos. Os canadianos não verbalizam o descontentamento. E ambas as formas têm prós e contras.”

As ruas movimentadas do bairro de Montmartre, em Paris, atraem multidões de visitantes de várias nacionalidades. (Julian Elliott Photography/Stone RF/Getty Images)

Mas as verdadeiras diferenças surgem quando as conversas se aprofundam - pistas subtis de atitudes e comportamentos que revelam divergências culturais entre os dois países.

Em entrevistas separadas, Podhrazska e d’Aleman concordaram que os canadianos tendem a ter uma compreensão mais ampla da história europeia e da atualidade, devido às ligações históricas ao continente como parte da Commonwealth e ao património franco-canadiano.

Outro sinal revelador de que um turista é americano? “Os viajantes dos EUA são obcecados com o ‘salta-fila’”, explica Podhrazska. É um dos pedidos mais comuns entre os seus clientes americanos mais abastados, dispostos a pagar mais para passar à frente nas atrações.

“Culpo a Disney por isto”, brinca, referindo-se aos passes de acesso rápido do parque temático (atualmente chamados Lightning Lane), que criam um sistema estratificado entre visitantes. Mas, em Londres, o conceito praticamente não existe, obrigando-a a gerir expectativas.

“Todos têm de passar pelo controlo de segurança e fazer o que todos fazem. Não há tratamento especial.”

"Aqui estão no território deles"

A britânica Charley Harrison, fundadora da Totally Tailored Tours, em Londres, também alerta turistas americanos contra a tendência de assumirem que a cultura americana é a referência universal. Entre os seus clientes dos EUA, isso já se manifestou na suposição de que podem pagar no estrangeiro com dólares americanos ou na insistência em dizer que os britânicos têm sotaque - e que eles, americanos, não.

“Para mim, o subtexto é: eu falo normalmente, e todos os outros não.”

Cindy Jaso, 64 anos, cidadã norte-americana e canadiana que se mudou de New Brunswick para o Texas aos 21, não hesitou em repreender uma amiga americana durante as férias na Europa este verão, quando a amiga se queixou das ruas estreitas e empedradas, da falta de ar condicionado e do facto de alguns locais não falarem bem inglês.

“Esperas que os imigrantes nos EUA falem inglês. Aqui estás no território deles”, recorda ter dito.

O canadiano Stewart Reynolds tem uma teoria curiosa sobre o comportamento dos canadianos que está ligada ao clima. (Stewart Reynolds/Brittlestar)

O criador de conteúdos e autor canadiano Stewart Reynolds, conhecido online como Brittlestar, tem uma teoria curiosa sobre o comportamento dos canadianos ligada ao clima. Nos seus vídeos de TikTok, já explicou o Dia do Canadá a americanos (e porque celebrar o sistema de saúde universal, a licença de maternidade e a poutine) e fez tutoriais humorísticos como “Como ser canadiano: conhece os teus desculpas” (“Desculpa tu teres esbarrado em mim.” “Desculpa eu ter esbarrado em ti.” “Desculpa, afinal não estou desculpado.”)

Reynolds apresenta uma visão mais ampla das diferenças entre viajantes canadianos e americanos, com um aviso prévio e depois uma analogia meteorológica.

“O Canadá também tem idiotas. Temos muitos idiotas”, afirma. “Mas, no geral, acho que os canadianos tentam pensar mais no grupo, enquanto os americanos pensam muito no indivíduo.”

Isso pode significar ir para o fim da fila em vez de procurar um atalho, e esperar pela sua vez. Porque os canadianos valorizam a ordem, afirma.

E, embora pareça uma explicação simples, Reynolds reduz este traço cultural a um fator: o clima.

“Acho que a atitude coletivista se resume ao ambiente”, considera Reynolds, que vive em Stratford, no sudoeste de Ontário. “Os invernos canadiano podem ser, por vezes, uma questão de vida ou de morte, e toda a gente precisa de empurrar o carro de alguém para sair de um monte de neve. Toda a gente precisa de limpar a entrada de outra pessoa.”

"Uma versão única e autêntica de si próprios"

Para Susanna, cidadã dos EUA e do Canadá, as diferenças entre canadianos e americanos manifestam-se na forma como “ocupam espaço” numa conversa ou em público.

“Nos EUA, crescemos a ser confiantes, e avançamos pela vida com essa confiança. Por isso, os americanos tendem a ser mais ousados. E acho que a sua qualidade mais redentora é que podem ser uma versão única e autêntica de si mesmos… a cultura apoia ser barulhento, único e individualista.”

Este tipo de fila junto à Acrópole, em Atenas, colocaria à prova a paciência de qualquer viajante. (Louisa Gouliamaki/AFP/Getty Images)

Os canadianos, por outro lado, são mais coletivistas, conseguem misturar-se e adaptar-se a diferentes contextos culturais, acrescenta, uma mentalidade com a qual se identifica.

Além de evitarem sentimentos anti-americanos, os adeptos do “flag jacking” dizem que mentem porque acreditam que serão melhor tratados como canadianos no estrangeiro.

Mas todos os operadores turísticos entrevistados garantem que essa ideia não tem fundamento.

“Tem mais a ver com o comportamento que se adota do que com o lugar de onde se é”, afirma Barnes, da Intrepid. “Se fores respeitoso com os costumes e a cultura locais, curioso e cortês, vais ter umas férias incríveis.”

E.U.A.

Mais E.U.A.