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Jornalista

Quem somos nós para julgar a América?

Enviado-especial aos EUA
31 out 2024, 07:30
Eleições EUA (AP)

Eu sei que estamos todos incomodados com isto que se passa nos Estados Unidos. É a linguagem vulgar, são os comícios racistas, são as ameaças veladas à democracia.

Escrevo este texto no escritório móvel que montámos no carro enquanto passamos a linha imaginária que separa o Ohio do Michigan, e assim que entramos num dos chamados swing states repete-se o padrão: cartazes à beira da estrada pagos por cada uma das candidaturas com mensagens de fazer medo aos eleitores para lembrá-los de que é perigoso votar no rival.

Na televisão, igual. Se estivermos na Pensilvânia ou no Wisconsin, os intervalos dos concursos e das sitcoms são carregados de anúncios de dedo apontado ao adversário: “ele vai proibir o aborto e acabar com a segurança social”, “ela vai escancarar as fronteiras e libertar criminosos”.

Tudo isto é assustador, mesmo que - ou até porque - saibamos que se trata da sequela de um filme que já vimos antes.

Mas posso desconversar um bocadinho?

Posso confessar como, apesar de tudo, me sinto inspirado à medida que saímos da turbulência mediática e fazemos conversa com gente de carne e osso que vive as eleições como um dever de uns para com os outros e que, por causa disso, se envolve voluntariamente nas campanhas?

Falo de gestos simples como plantar um cartaz com o nome do candidato preferido no jardim à frente da casa, para mostrar a quem passa que se fez uma escolha - e que essa escolha convive pacificamente com a do vizinho do lado que, às vezes, é exatamente a opção contrária.

Falo do exército de voluntários que se oferece para correr rua atrás de rua a bater às portas para ouvir as preocupações de quem vota e a explicar como a Kamala ou o Donald têm a solução para o problema.

E falo das associações cívicas que sentem que têm o dever de ajudar os concidadãos a registarem-se para votar e que organizam festas de bairro para apelar ao voto e que orientam todos os que querem votar antecipadamente.

Na América, o Presidente é quem manda, mas a democracia exerce-se mesmo sem os políticos por perto, na pequena comunidade que rodeia cada um dos eleitores.

A mim, que vejo de fora, parece-me haver aqui um invejável sentido de pertença, um espírito de entreajuda e a convicção de que se temos duas mãos não é para as pousar no colo à espera que alguém faça alguma coisa por nós.

Claro que fazemos bem em ficar incomodados com o eventual futuro da democracia americana. Mas, para já, ela parece estar bem viva.

E eu conheço uma ou outra que, em comparação, está sempre bem mais anestesiada.

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