Um objeto numa imagem de satélite desafia explicações. Poderá resolver um dos maiores mistérios da aviação?

CNN , Katie Hunt
1 dez, 18:00
A aviadora Amelia Earhart posa para a foto por volta de 1936. Um ano depois, desapareceu durante sua tentativa de dar a volta ao mundo. Donaldson Collection/Michael Ochs Archives/Getty Images

Uma forma invulgar no Pacífico Sul, que desencadeou o mais recente esforço para resolver um dos maiores mistérios de todos os tempos, foi descoberta num quintal na Califórnia. O veterano da Marinha dos EUA Mike Ashmore estava em casa, em 2020, a percorrer imagens de satélite de uma pequena ilha chamada Nikumaroro, quando avistou um objeto inesperado numa lagoa.

A meio caminho entre a Austrália e o Havai, Nikumaroro desempenha um papel fundamental numa das duas hipóteses rivais que tentam explicar o que aconteceu à famosa aviadora Amelia Earhart e ao seu navegador, Fred Noonan, que desapareceram em 1937 enquanto tentavam dar a volta ao mundo. O desaparecimento tem cativado investigadores durante décadas e há muito fascina Ashmore, um entusiasta que ficou preso à teoria de que a lendária piloto acabou nas margens daquela ilha.

“Foi no Apple Maps do meu iPhone”, recorda Ashmore sobre a exploração digital que o levou à descoberta. “Estava sentado num baloiço de manhã, a tomar café com o meu cão. No dia anterior, tinha dado a volta ao exterior da ilha e, naquela manhã, comecei a percorrer a lagoa e algo chamou a minha atenção. Depois olhei melhor e fiz uma captura de ecrã.”

Ashmore achou que aquilo que viu se assemelhava a uma asa de avião e partilhou a imagem num fórum online popular sobre Amelia Earhart, gerido pelo The International Group for Historic Aircraft Recovery (TIGHAR), uma organização dedicada à história e arqueologia da aviação. A forma alongada nas imagens de satélite desencadeou entusiasmo entre os membros, embora alguns dissessem que provavelmente se tratava de um tronco de palmeira.

O Objeto Taraia, identificado pela primeira vez em 2020, é visível em imagens de satélite recentes. (Archaeological Legacy Institute 2025)

O objeto difuso também chamou a atenção do arqueólogo Rick Pettigrew, um apaixonado de longa data pela história de Earhart e diretor executivo do Archaeological Legacy Institute, em Eugene, Oregon, que decidiu investigar mais a fundo. Pettigrew afirma ter verificado que a anomalia, entretanto batizada de Objeto Taraia, é visível noutras fotografias aéreas da lagoa, incluindo algumas captadas já em 1938.

“Com as provas que temos agora, seria um crime ninguém ir lá ver”, considera Pettigrew.

Agora, uma expedição está prestes a partir para esse objetivo. Liderado por Pettigrew e pela Universidade Purdue, em West Lafayette, Indiana, onde Earhart trabalhou no departamento de aeronáutica, o novo esforço pretende dirigir-se diretamente ao Objeto Taraia, na esperança de poder encontrar parte do avião de Earhart. Ashmore tencionava juntar-se à missão, mas foi forçado a desistir devido a um caso de doença na família.

A equipa deveria partir de Majuro, nas Ilhas Marshall, a 4 de novembro, e navegar cerca de 2.220 km até Nikumaroro. A partir daí, os investigadores planeavam passar cerca de cinco dias na pequena ilha a examinar o intrigante objeto da lagoa. No entanto, Pettigrew disse recentemente que a expedição foi adiada para 2026, sem avançar razões.

Se encontrarem o que procuram, poderá ser uma descoberta histórica. Mas a ideia de que Earhart acabou como náufraga numa ilha está longe de ser consensual e outra equipa corre paralelamente para tentar provar uma explicação alternativa.

Teorias concorrentes

Earhart e Noonan desapareceram a 2 de julho de 1937, enquanto procuravam a Ilha Howland, quase 644 quilómetros a noroeste de Nikumaroro.

Howland era uma paragem planeada para reabastecimento na tentativa de circum-navegar o globo, uma viagem que dominou manchetes e prendeu a imaginação do público.

Uma das correntes de pensamento - e a determinação oficial feita após a enorme busca liderada pelo governo dos EUA - sugere que Earhart e Noonan ficaram sem combustível e que o seu Lockheed 10E Electra caiu no Oceano Pacífico, perto do destino previsto.

Esta teoria orientou várias buscas ao longo dos anos, incluindo uma tentativa em 2024 pela empresa de exploração oceânica Deep Sea Vision, que acabou por não passar de rochas com forma de avião.

Guiada por uma nova análise das comunicações de rádio de Earhart no dia do desaparecimento, a empresa Nauticos, sediada no Maine, planeia lançar no próximo ano uma nova busca no fundo do mar perto da Ilha Howland. Será a quarta tentativa da empresa para localizar o avião, mas os novos dados terão reduzido significativamente a área de busca, aumentando a probabilidade de sucesso.

Pettigrew e outros acreditam que Earhart e Noonan aterraram o Electra em segurança em Nikumaroro, então conhecida como Ilha Gardner. Ali, segundo os defensores desta hipótese, terão feito repetidos pedidos de socorro usando o rádio do avião, mas acabaram por morrer de sede ou fome.

Amelia Earhart e o navegador Fred Noonan posam em frente ao Lockheed Electra de dois motores em Natal, Brasil, a 18 de junho de 1937, durante o voo à volta do mundo. (AP)

No entanto, pelo menos cinco expedições à ilha e às águas circundantes desde 2010 não conseguiram encontrar provas definitivas de que Earhart e Noonan tenham vivido como náufragos. Pettigrew participou numa dessas missões, em 2017. Outra, em 2019, envolveu o oceanógrafo e explorador da National Geographic Bob Ballard, conhecido pela descoberta do Titanic, em 1985.

A teoria de Nikumaroro é mais plausível do que algumas alternativas avançadas ao longo dos anos para explicar o desaparecimento de Earhart, segundo Dorothy Cochrane, que se reformou recentemente como curadora do Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian. (Um documentário de 2017 chegou a sugerir que Earhart morreu como prisioneira japonesa.) Cochrane considera que a explicação mais provável é a mais simples: Earhart ficou sem combustível e caiu no Pacífico.

O presidente Donald Trump despertou um renovado interesse neste mistério com décadas ao ordenar, no início do mês, a divulgação de documentos relacionados com Earhart e a sua viagem final, embora não esteja claro o que motivou o seu súbito interesse no tema - nem se há realmente documentos por desclassificar. Segundo a investigação da CNN, nenhum novo registo foi publicado até ao momento.

Os Arquivos Nacionais dos EUA têm informação disponível ao público sobre a busca por Earhart e Noonan, incluindo as últimas comunicações da aviadora com o Itasca, um navio da Guarda Costeira destacado para apoiar o voo, explica Cochrane.

“Era uma figura enormemente popular na época; todos os seus voos eram acompanhados pelo público, e ganhava a vida a fazer estas viagens numa altura em que praticamente não havia oportunidades para mulheres na aviação”, acrescenta.

Amelia Earhart, a náufraga

Cercada por um recife de coral e localizada no atual Kiribati, Nikumaroro tem cerca de 7 quilómetros de comprimento e 2 quilómetros de largura e estava desabitada quando Earhart e Noonan realizaram o último voo. O atol foi brevemente ocupado entre 1938 e 1963, quando a administração colonial britânica incentivou a vinda de habitantes das ilhas vizinhas do sul das Gilbert.

A hipótese do naufrágio baseia-se no trabalho de Ric Gillespie, fundador da TIGHAR e autor do livro de 2024 “One More Good Flight: The Amelia Earhart Tragedy”. Gillespie visitou Nikumaroro 11 vezes, encontrando possíveis indícios e fragmentos de evidência.

Na teoria de Gillespie e Pettigrew, depois de falharem a localização da Ilha Howland, Earhart seguiu para sul e aterrou o Electra no grande recife de coral de Nikumaroro, exposto durante a maré baixa. Ali, ela e Noonan terão enviado sinais de socorro e sobrevivido dias ou até semanas com água da chuva e peixe e tartaruga, antes de morrerem. Os seus restos mortais terão sido provavelmente consumidos pelos enormes caranguejos-dos-coqueiros que habitam o atol, deixando apenas alguns ossos, artefactos e vestígios de fogueiras.

Várias linhas de evidência apoiam esta teoria, segundo Gillespie e Pettigrew.

Leituras de rádio captadas após o desaparecimento do avião parecem ter cruzado na zona de Nikumaroro, embora não esteja confirmado se provinham realmente de Earhart.

Ossos encontrados na ilha em 1940 foram enviados para Fiji, onde um médico os classificou como sendo de um homem, antes de desaparecerem. Mas uma análise moderna das medições registadas à época, feita com software forense atual, sugere que pertenciam a uma mulher, possivelmente compatível com Earhart.

Entre os artefactos encontrados na ilha estão um espelho compacto feminino semelhante ao que Earhart transportava, um frasco de cosméticos, um canivete e uma caixa de madeira que parecia ter contido um sextante, instrumento de navegação.

Artefactos encontrados em Nikumaroro que a TIGHAR acredita poderem estar ligados a Earhart. (De cima à esquerda) Um frasco semelhante, em estilo, ao do Freckle Ointment do Dr. C. H. Berry. Sabe-se que Earhart se preocupava com as suas sardas; fragmentos de material vermelho quimicamente compatível com um cosmético do início do século XX; uma faca desmontada, semelhante a uma faca listada no inventário do Electra; um frasco de vidro estilhaçado. Segundo a investigação da TIGHAR, o design do frasco foi patenteado em 30 de maio de 1933. (TIGHAR.org)

Gillespie, no entanto, não acredita que o objeto identificado por Ashmore na lagoa seja o avião de Earhart. Diz ter visitado a zona da lagoa onde o objeto se encontra e não observou nada fora do comum.

“Vendo as imagens de satélite mais recentes, algo aparece ali, mas é claramente uma árvore. Especificamente, uma árvore de pandanus”, afirma. “Elas crescem ao longo da lagoa e, durante grandes tempestades, não é incomum serem arrastadas para dentro ou para fora da água.”

Gillespie continua a acreditar que Nikumaroro foi o local dos últimos dias de Earhart, mas não pensa que haja mais algo de relevante a descobrir na ilha.

“Todos querem o avião. Mas o avião desapareceu”, observa. “Pensamos que o avião foi arrastado para o oceano, provavelmente a 7 de julho, segundo os nossos cálculos, e destruído quase imediatamente pelas ondas, esmagado contra o recife.”

Para Pettigrew, porém, o Objeto Taraia é a peça final para resolver o mistério do desaparecimento de Earhart. Acredita que a equipa encontrará destroços em alumínio do Electra.

Quando chegarem à ilha, Pettigrew e a equipa de 14 investigadores planeiam recolher vídeo e fotografias, antes de usarem sonar e magnetómetros para analisar o objeto. Só depois iniciarão escavações com recurso a um sistema hidráulico.

“Acho que temos uma grande hipótese de fazer um anúncio emocionante”, afirma Pettigrew.

“Revisei estas provas vezes sem conta”, acrescenta. “Respondi a inúmeras questões, examinei todas as objeções possíveis e tenho resposta para todas elas. É muito consistente.”

Rick Pettigrew, diretor executivo do Archaeological Legacy Institute, discursa na Universidade Purdue, onde Earhart trabalhou em tempos. (John Underwood/Universidade Purdue)

Nas profundezas

Dave Jourdan, presidente da Nauticos, que centrará a sua busca no fundo do oceano perto da Ilha Howland, não vê a expedição de Pettigrew como concorrência na tentativa de descobrir o que aconteceu a Earhart.

“Eles estão a perseguir outra teoria”, afirma. “Os dados primários da Guarda Costeira e a nossa análise do sinal de rádio não suportam isso.”

Três expedições da Nauticos desde 2002, juntamente com a área coberta por uma missão do Waitt Institute for Discovery em 2009, examinaram um total de 3.610 milhas quadradas (9.350 quilómetros quadrados) - uma área semelhante ao tamanho do Connecticut. Os investigadores esperam lançar uma última missão no próximo ano, mas ainda tentam angariar os 8 a 10 milhões de dólares necessários.

Um recetor e outros componentes idênticos ao sistema de rádio usado por Earhart e Noonan foram restaurados pela Nauticos para reproduzir as comunicações entre o avião de Earhart e o navio da Guarda Costeira Itasca, que a aguardava na ilha Howland. (Nauticos)
O sistema de rádio restaurado foi testado num avião semelhante ao Lockheed Electra de Earhart. (Nauticos)

“Nas buscas anteriores, concentrámo-nos no norte, no noroeste da ilha por muitas e muitas razões, mas já procurámos lá e ela não está”, afirma. “Portanto, isso deixa mais algumas opções, e acreditamos que, com mais uma expedição, deveremos conseguir cobrir todas essas áreas.”

Os colegas de Jourdan encontraram e reconstruíram o modelo exato de rádio utilizado por Earhart e pelo Itasca.

Em 2020, usando o rádio instalado num avião semelhante ao Electra, a equipa recriou as últimas horas do voo e determinou a localização aproximada de Earhart e Noonan às 8h da manhã do dia do desaparecimento. Segundo Jourdan, têm agora a informação mais precisa de sempre sobre a posição da dupla antes de desaparecer.

“Aquilo que é muito revelador é que, na sua penúltima transmissão, ela disse que ouvia a Guarda Costeira. Essa informação, juntamente com os dados sobre a frequência e o equipamento, deu-nos um número muito sólido sobre a distância a que estava da ilha naquele momento”, explica.

A equipa planeia usar quatro veículos submarinos autónomos para procurar o fundo do mar nas áreas identificadas. Melhorias recentes na tecnologia, como baterias mais duradouras e novos métodos de sonar, permitirão cobrir mais terreno do que nas missões anteriores.

“Não conseguimos tornar o oceano transparente, por isso temos de ir até lá para obter dados de alta qualidade, mas agora conseguimos ficar mais tempo e navegar com maior precisão”, afirma. “Objetos metálicos com arestas vivas tendem a ser muito visíveis no sonar, por isso, se o avião estiver lá, vamos encontrá-lo.”

Earhart, considera Jourdan, representa um espírito de aventura e exploração, “de tentar fazer o melhor apesar das probabilidades, de fazer coisas que outros não se atrevem a fazer - e fazê-las sendo mulher”. Quase um século depois do desaparecimento, é claro que encontrar o avião da famosa aviadora, e o seu derradeiro local de descanso, continua a ser uma missão inesgotável.

Ashmore ficou cativado pela história de Earhart quando a ouviu, pela primeira vez, da sua professora do primeiro ano. “Ficou na minha cabeça. Não era algo em que pensasse todos os dias, mas nunca me esqueci.”

Mesmo que a próxima expedição liderada por Pettigrew determine que o objeto que encontrou no telemóvel durante o confinamento não seja o avião de Earhart, Ashmore garante que não desistirá da busca.

“Pode chamar-lhe o meu passatempo”, afirma. “Tenho gostado disto… E vou continuar. Alguém vai encontrá-la.”

E.U.A.

Mais E.U.A.